“The Oscar goes to…”

Essa é do Gustavo: As “minicríticas” de 10 dos melhores filmes em cartaz feitas pelo Ricardo Feltrin, para a Folha Ilustrada de hoje.

Os dez dos melhores filmes em cartaz nos cinemas

A lista é, obviamente, baseada no gosto pessoal da reportagem, que assistiu a todos os filmes. Trata-se de uma avaliação subjetiva, portanto, mas vale como sugestão para você decidir o que assistir neste final de semana.

Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice) – Baseado no romance da inglesa Jane Austen (1775 – 1817), “Orgulho e Preconceito” mostra como o status social e mesmo moral das mulheres britânicas do início do século 19 dependia extraordinariamente de sua beleza e, principalmente, da sorte em encontrar um bom partido. Bem, fato é que isso sempre foi regra em todo o mundo, e não só no Reino Unido. Numa época em que não existiam nem arremedos das atuais colunas de fofocas, todas as informações sobre os então “socialites” (os partidões) eram feitas pela plebe sequiosa com base no diz-que-diz. Claro que isso deveria gerar uma cadeia sem fim de calúnias e informações incorretas sobre a vida alheia. No caso de mocinhas casamenteiras, um erro poderia ser fatal. Esta é, grosso modo, a base deste excelente drama romântico dirigido por Joe Wright, que ainda teve a bênção de contar no papel principal com a encantadora Keira Knightley, que concorre ao Oscar de Melhor Atriz.

Johnny & June (“Walk the Line”) – Não leve nenhum susto se o nome de Reese Witherspoon for pronunciado após o “the Oscar goes to…” de Melhor Atriz, no próximo dia 5 de março, em Hollywood. Porque Reese simplesmente deita e rola no papel da cantora June Carter (1929 – 2003). Tanto ela como Joaquin Phoenix (também indicado ao prêmio de Melhor Ator) cantam de fato no filme e… surpresa: além da ótima interpretação, ambos dão uma aula de canto e afinação. Jonnhy Cash tinha um pai alcoólatra grosseirão e desligado da cultura. Já sua mãe adorava música. Um de seus passatempos era cantar hinos gospel com o filho. Nesse ponto, June teve mais sorte. Vinha de uma família ajustada e cheia de cantores, que não tinha vergonha de se exibir em programas de rádio na Virgínia. Mesmo assim, o sucesso não lhe sorriu facilmente. Vejam só o destino: Johnny, autodidata em violão, se tornou um astro porque soube agarrar o centímetro cúbico de oportunidade que passou diante de si. Enquanto a menina cantora batalhava por um lugar ao sol, o céu se escancarava para Johnny Cash. E com seus raios vieram a fama, o dinheiro, as mulheres e as drogas. A versão sexo, drogas e country n’roll nos anos 50. Johnny chafurdou na anfetamina, no uiscão, descuidou da saúde e precipitou o próprio opróbrio. Então surgiu a mão doce e delicada de June, lá no fundo do poço. É essa bela história de amor que é contada de forma arrebatadora em “Johnny e June”. Pode crer: vale seu ingresso.

Syriana – A Indústria do Petróleo (“Syriana”) – Uma crônica contemporânea e complexa que aborda a importância, necessidades, causas e efeitos da política das corporatocracias norte-americanas no Oriente Médio. Se a Academia se deixar hipnotizar pela surpreendente atuação de George Clooney, deve render-lhe homenagem com o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Em alguns momentos, “Syriana” é uma parábola. Em outras, é quase um documentário. Mas apertem os cintos, porque a quantidade de personagens e tramas paralelas causa tontura em qualquer um.Paradise Now (idem) – Em algum lugar, bem lá no fundo de um candidato a terrorista, habita um ser humano comum. Muitas pessoas não acreditam, mas essa gente também ama a família, convive com os vizinhos, brinca com crianças, partilha sonhos com seu amor. O caso é que o terrorista rompe o lacre de toda essa “humanidade” quando decide vestir um colete de explosivos e acioná-lo para morrer e ao mesmo tempo matar o maior número possível de inocentes –e não de inimigos. “Paradise Now” mostra como é tolo catalogar essas pessoas meramente como “assassinas insanas”. Porque elas estão conscientes. Assim como Hollywood, que dificilmente premiará a obra com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Crash – No Limite (“Crash”) – Embora todas as apostas e olhares estejam sobre o aclamado “Brokeback Mountain”, a altíssima qualidade do roteiro e da trama de “Crash” o aponta imediatamente como o principal “azarão” capaz de levar a estatueta de Melhor Filme, caso a Academia tenha, digamos, um soluço e não escolha “Brokeback”. Uma das grandes virtudes de “Crash” é abordar de forma pungente o preconceito racial e social que permeia a sociedade, não só nos EUA, mas em todo o Ocidente. O desfecho é absolutamente emocionante e surpreendente. Pode facilmente ser encaixado na categoria “obra-prima”.

A Dama de Honra (“La Demoiselle d’Honneur”) – Uma incrível viagem ao mundo da psicologia e patologia do amor, dirigida por Claude Chabrol (e com participação de boa parte da família Chabrol). Um jovem um tanto insociável (Benoît Magimel) fica obcecado por uma imagem feminina esculpida ao mesmo tempo em que se envolve com uma jovem linda, sexualmente irresistível e completamente doidinha (Laura Smet). O resultado é devastador. Inclusive para o público.

Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones (Stoned) – A estréia do filme vem a calhar com o megashow da banda em Copacabana neste final de semana. Mostra as origens e os desdobramentos da banda inglesa em seus primeiros anos, quando ainda era liderada pelo junkie, porém talentosíssimo Brian Jones. Além da descrição minuciosa da derrocada de Jones, mergulhado em cocaína, “mangüaça” e por um ideal pouco estável de amor livre, o que mais chama a atenção em “Stoned” é o extremo cuidado com que a direção de Stephen Woolley trata os atuais proprietários da banda, Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts. Um filme feito agradar os vivos. Mas que não desrespeita os mortos.

Crime Delicado – No fundo, no fundo, o filme de Beto Brant é uma curiosa história triagular de amor, envolvendo um crítico de teatro solitário, articulado e bastante prepotente (Marco Ricca); uma modelo artística depressiva, e que perdeu uma perna em um acidente (a linda e carismática Lilian Taublib); e um pintor –que transmite a ela, sua musa e protegida, a imagem de gênio, pai e amante. O resultado é, como o próprio título diz, uma delicada incursão pelo erotização, paixão e agressividade humanas. Um filme às vezes denso, recortado por imagens teatrais, nem sempre cheias de sentido. De todo modo, uma obra que faz refletir e que vale a pena ser vista.

Munique (idem) – Filme de Steven Spielberg que conta um pouco –de forma historicamente não muito fiel– do que ocorreu nos bastidores políticos e militares de Israel e do Oriente Médio após o ataque de terroristas palestinos que terminou com a morte de 11 atletas israelenses em 1972, nas Olimpíadas de Munique. A verdade é que ninguém sabe exatamente como foi a “caçada” aos membros do Setembro Negro. Os registros históricos dessa ação ainda estão guardados sob sigilo pelo governo de Israel. Sabe-se apenas que alguns terroristas desse grupo ainda vivem em segurança. Outros foram, de fato, mortos, como mostra o filme. O fato é que o Mossad (serviço secreto de Israel) pode não ser tão infalível como sempre se propagandeou, mas não há dúvidas de que é extremamente discreto e eficiente em ocultar seu trabalho –principalmente se precisar violar algumas leis internacionais, como invadir países vizinhos para praticar os chamados “assassinatos seletivos”. Naquele momento, era a única resposta que o governo poderia dar a seus cidadãos. Em vez de dar a outra face, o olho por olho. Steven Spielberg usa, portanto, a realidade de um crime hediondo para criar uma “semi” ficção, cujo resultado é bom e, em muitos momentos, até empolgante.

Memórias de uma Gueixa (“Memoirs of a Geisha”) – Embora as locações sejam lindas, a fotografia seja espetacular e todo o elenco esteja em grande forma, o filme “Memórias de uma Gueixa” tem um ponto fraco, perceptível já a partir da segunda fase (quando a menina se torna moça): não é uma história à altura de um épico cinematográfico. Vale como diversão para os olhos. Vá lá. Isso já conta muito em cinema.

(Fonte: Folha de São Paulo – Folha Ilustrada – 17/fev/06)

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