O Urso de Berlim foi para uma sopa de letrinhas!!!!

Tente pronunciar o nome do filme que ganhou o Urso de Berlim deste ano. Tentou?? Eu ainda não consegui! Dizem que foi injusto. Vamos ter que esperar a estréia para saber. E rezar para que as legendas não sejam em alemão…

Urso errado ganha o prêmio principal – Festival de Berlim deu o prêmio principal para filme pouco vistoAh, não. Eles fizeram aquilo de novo. Apenas um ano depois da última festa de gala do Urso de Ouro, o Festival de Cinema de Berlim deu o prêmio principal para um outro filme pouco visto e comentado.O Urso de Ouro do ano passado foi para o sul-africano “u-Carmen e-Khayelitsha”, ainda não exibido na maior parte dos países. Neste ano o prêmio foi para “Grbavica”, de Jasmila Zbanic, da Bósnia, uma história da herança da guerra, dos massacres, dos estupros e das crianças nascidas como resultado de tais violências.

Como o filme foi pouco divulgado no início do festival, vários críticos, incluindo eu, tiveram que assisti-lo com legendas em alemão em uma sala de exibição periférica lotada. Como o meu alemão é “sub-Berlitz”, não chegando nem perto de “sub-Berlim”, fiquei em situação bastante difícil, assim como o dono da enorme cabeça à minha frente, que me atrapalhava a visão. Sobre Grbavica o que tenho a dizer é: eu investi meu tempo no filme; da próxima vez, investirei a minha mente, sentidos e entendimento, eu prometo.

Nem aqueles que viram o filme de forma apropriada o classificaram como um concorrente à altura do Urso de Ouro. As maiores apostas foram feitas no favorito “The Road to Guantánamo” –uma vívida e controversa peça de propaganda do Reino Unido–, que no entanto só redeu um prêmio compartilhado de melhor diretor a Michael Winterbotton e Mat Whitecross.

O resto do dinheiro das apostas, o meu pelo menos, foi para “The Prairie Home Companion”, um clássico da fase madura da carreira de Robert Altman, que acabou não ganhando prêmio algum.

Os melhores da última safra de filmes exibidos foram “L’Ivresse du Pouvoir”, de Claude Chabrol, e “Offside”, de Jafar Panahi. Chabrol dá à sua atriz favorita, Isabelle Huppert, um alegre papel polivalente. Como uma juíza de Paris que investiga altos executivos, em um roteiro que fala sobre propinas e corrupção, Huppert surge na tela usando capas azuis, óculos roxos e luvas vermelhas. Ela diz às suas vítimas que serão entrevistadas que não é permitido fumar em sua sala, e a seguir acende ela própria um cigarro. Em casa, o seu carreirismo ambicioso acabou com o casamento. No trabalho, ela recusa uma oferta de um patrão que deseja que ela abandone o caso, dizendo-lhe: “Guarde o dinheiro para comprar um par de testículos”. O roteiro é agradável, a história inteligente, mas é a atuação de Huppert que realmente fica na memória.

Jafar Panahi fez “The Circle” e “Crimson Gold” (“O Círculo” e “Ouro Carmim”), dois excelentes filmes iranianos, e “Offside” é, quase, mais um ótimo filme. “Quase” porque o tema da opressão das mulheres, tão forte em “O Círculo”, serve como gancho para uma comédia leve em “Offside”, que ganhou o prêmio Grand Jury.

Poderíamos contar com um filme muito interessante, já que a história de seis meninas presas por tentarem assistir a uma partida de futebol internacional é repleta de sátira leve e análises comportamentais agradáveis. A comédia reside no fato de nenhum dos protagonistas masculinos serem capazes de responder a esta simples pergunta: “Por que as mulheres no Irã não têm permissão para assistirem aos jogos de futebol?”.Os filmes alemães estavam mais vigorosos do que ocorre normalmente, mas isso não foi o suficiente para impedir uma sensação de que houve uma sobrecarga chauvinista de produtos nativos (cinco filmes alemães na competição).

O filme “Free Will” de Matthias Glasner, teve alguns momentos muito intensos na sua comprida história de um estuprador preso que tenta se regenerar. E “Longing”, de Valeska Grisebach, uma história de amor de aldeia, almeja uma síntese beatífica, mas com muita freqüência tudo o que consegue é uma simplificação canhestra.

“Requiem”, de Hans-Christian Schmid começa como um tempestuoso estudo da devastação exercida pela epilepsia em uma moça, mas se transforma em uma trama no estilo de Emily Rose sobre possessão satânica e exorcismo. Mesmo assim, ele deu a Sandra Hülller o prêmio de melhor atriz, que fez uma dupla alemã com Moritz Bleibtreu, escolhido como melhor ator pelo seu trabalho no robusto, mas prosaico, “Elementary Particles”, de Oskar Roehler.

O número de azarões que ganharam prêmios deixou a crítica desnorteada. Eu ia terminar dizendo que o diretor do festival, Dieter Kosslick, deveria passar este ano viajando o mundo em busca de filmes melhores para 2007. Mas quando um júri faz com que chovam premiações sobre trabalhos de segunda categoria, deixando os melhores de mãos abanando, fica a sensação de que houve uma generosidade ilusória para com a qualidade.

O testemunho dos prêmios contradiz a memória dos críticos aflitos. A resposta para o próximo ano? Temos que conquistar o direito de questionar os júris antes que eles sejam nomeados. Desta maneira, impediremos que o mundo do cinema seja conduzido a rumos excêntricos pelo terceiro ano consecutivo, e garantiremos que os ursos corretos abracem os filmes certos.

(Fonte: Financial Times – por Nigel Andrews – tradução: Danilo Fonseca)

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