As mil faces dos chatos fundamentais

O chato é antes de tudo um forte” foi o título de um artigo meu, que abriu polêmica entre chatos e não-chatos. Todos têm medo de sê-lo — inclusive eu. A descoberta básica de minhas pesquisas é que o chato se sabe como tal, mas é movido pela esperança obstinada de um dia se livrar dessa pecha e ser aceito. Nesta utopia ele se gasta e chateia todo o mundo.

Continuo a achar que o chato crônico é, antes de tudo, um carente. Ele precisa de você para viver: sozinho, ele definha como um vampiro anêmico. Há muitos tipos de chatos, sendo o mais famoso, o fundador da estirpe, o célebre chato-de-galochas, cujo nome provém do sujeito que calçava as galochas e saía de casa com chuva torrencial para atormentar alguém em domicílio. Hoje seria o chato on delivery .

Chatos, os há em abundância, como escreveria um chato. Há o sádico, o falador, o masoquista, o chato do elevador, do aeroporto (no aeroporto eles florescem… Naqueles halls que te aprisionam na espera do avião é onde eles te supõem mais indefeso e tolerante. A galeria de chatos está em permanente renovação, com novos tipos que a História vai engendrando. Por exemplo, com o trágico advento da máquina fotográfica dentro do celular (inovação que me soa incestuosa, promíscua como… sei lá… um barbeador elétrico com rádio), eclodiu a multidão dos fotochatos . Por causa desse progresso da Humanidade, sou encurralado nos becos e salões: “Oi… posso tirar uma foto com você?”. Pronto. Lá estou eu abraçado com um bigodudo, sob os olhos debochados dos outros. Claro que a câmera nunca funciona de primeira, até que vem o flash, e o cara some num segundo, com um rápido “obrigado”, como quem rouba minha alma. O chato da foto sempre me deixa carente.

Não quero bancar o famosinho (juro!), mas aparecer peruando na TV dá nisso. O sujeito pensa que é meu íntimo, pois, enquanto ele transa com a mulher de noite, estou olhando da tela, falando do Zé Dirceu.

Outro dia, sofri um assédio inédito: o chato em dupla. Nunca tinha visto. Eles vêm no plural, talvez por causa da explosão demográfica. Eu estava no aeroporto (sempre esse lugar fatal), às oito da manhã, quando eles vieram. Melhor dizendo, foi um de cada vez. Veio um e começou a me inquirir gravemente sobre o Lula, se ele sabia de alguma coisa, se eu sabia se ele sabia… Suando frio, comecei a responder com a boca pastosa, quando surgiu um outro, desconhecido do primeiro. Eis que o novo chato interrompeu o titular da posição com novas perguntas ansiosas, se o PMDB teria candidato e se o Rigotto era melhor que o Garotinho. E aí, deu-se o conflito: os dois começaram a se digladiar na minha frente pelo “direito de pernada”, o direito hierárquico de me encher o saco. “Eu cheguei primeiro, tenho prioridade, sim, não!”. Parei de sofrer e fiquei maravilhado com a rica e bela biodiversidade da espécie .

Ultimamente, cataloguei também o chato autocrítico. Este chega com um sorriso constrangido e confessa: “Eu sei que sou chato… ah ah… mas… será que a gripe aviária vai chegar aqui?”. Imagino-o morrendo de febre, infectado pelo próprio periquito.
Tive também uma experiência dolorosa com um novo tipo: o chato desconcertante, intempestivo.

Andava eu pelo calçadão de Ipanema, quando veio um cara na minha direção sorrindo muito, simpático. Preparei um agradecimento gentil, esperando um elogio, quando ele disparou: “Você precisa parar de dizer besteira na TV, hein!”. E sumiu, no cooper. Esses traumas ao menos nos edificam.

Há também o chato altissonante. Ele me agarra no bar lotado, na fila do cinema e berra: “Cara, eu te adoro! Sou teu fã!”. E bate violentamente nas minha costas, pois em geral são atléticos e em suas palmadelas calorosas há um laivo de punição e vingança. Também há o chato altissonante do contra. Ele pode te esculachar também no meio do bar, entre os sorrisos malévolos dos circunstantes: “Você foi muito injusto com o Sarney e o Garotinho naquele dia…!”. Aliás, os dois tipos de chato podem caber em um só sujeito, o chamado “chato dois-em-um”.
Tenho pensado, com o passar da vida, que há um tipo de chato que nos passa despercebido: o chato que era chato e não sabíamos. Podemos freqüentar o cara anos, e um dia, já velho, descobrir: “Fulano era chato….”. É o chato a posteriori . São tantos… Há o chato arquivista também. O cara é em geral cultíssimo, sério, dedicado e com boas intenções, mas pode te alugar horas porque o texto que você citou de Max Weber não era no livro tal, que o contexto era outro, que a tradução certa de “entzauberung” não era aquela…

Aliás, é espantoso o número de especialistas em bobagens nesse país. Sobre cinema então, conheço gente que fala do maquiador de “My fair lady” ou da vida sexual de Fritz Lang por horas… A propósito, há um chato infalível, o chato cinéfilo mal orientado, que só gosta de filme ruim. Eu posso xingar até Alá que terei menos inimigos, mas não posso criticar um filme de seu coração. Uma vez, quando narrei o Oscar (oh… infausto momento…) ousei dizer que achava o Robin Williams um canastrão. Pra quê? Choveram tijolos de e-mails na Globo, exigindo minha cabeça ao Dr. Roberto.

Há chatos do bem e do mal, mas todos se encontram no infinito.

O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso, não adiantam respostas malcriadas, resmungos pálidos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há solução, se bem que a reza ajuda. O chato está falando, e você ali lembrando do “Credo”. Te acalma como um mantra, e Deus pode vir em tua ajuda.

Outra técnica que funciona razoavelmente é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: “Por que você não volta a fazer cinema?”. E você retruca: “O que você está achando do PMDB?”.
O Tom Jobim, uma das maiores autoridades em chatos de todos os tempos, me ensinou um truque que proclamava infalível: “Use óculos escuros. O chato fica desorientado, pois ele adora ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados”. Grande Tom — que saudade…

por Arnaldo Jabor – Jornal O Globo em 21/03/2006

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