Descobertas responsáveis

por Ana Elisa Ribeiro, em Digestivo Cultural

Alimento, todos os dias, os cães que moram no quintal de casa. Às seis da tarde eles começam a se agitar. Às sete estão famintos, latindo de um jeito que parece mesmo um pedido. E apareço com os vasilhames nas mãos, observo a reação dos cachorros com carinho. Latem, pulam, abanam seus rabos de maneira peculiar, quase sorriem. São cães pequenos, de pêlo curto, escuros e mansos. Vivem comigo há anos e não me dão trabalho maior do que prover-lhes de comida às sete da noite.

Comprei meu primeiro carro aos 25 anos. Era um Volkswagen verde, a gasolina, muito bravo e resistente. Motor bom, troquei o óleo algumas vezes, fiquei com ele por três anos inteiros, sem qualquer transtorno. Talvez tenha ganhado uns dois arranhões de chave ou ilhós de calça jeans. Furou o pneu duas vezes na rua. Nunca ficou sem combustível. Jamais colidiu com outro veículo, ou com poste, meio-fio, pessoa. Teve o espelho do retrovisor externo direito roubado, mas logo reposto. Quase anfíbio, passou por tempestades e enxurradas terríveis. Viajou pouco. Circulou muito pela cidade. Sem seguro. Apenas uma multa por estar parado em estacionamento regulamentado. Transportou meus amigos, parentes, cachorros e livros. Não deu maior trabalho do que lavá-lo aos domingos e trocar umas peças desgastadas, como o escapamento furado e umas mangueiras dentro do capô.

Meu computador foi comprado em dólar, com uns dinheiros que recebi quando fazia traduções para uma produtora de séries de tevê nos Estados Unidos. Não era nenhuma máquina potentíssima, mas resolveu meus problemas com trabalhos da faculdade e produções para os amigos. Junto com ele vieram a impressora e as caixinhas de som. Mais tarde, agreguei à máquina uma gravadora de CD e um microfone. Nunca perdi trabalhos com ele, nem estraguei CDs ou ele parou de funcionar de repente. Concluí livros e dissertações naquele PC e mantenho com ele certa relação de confiança. Embora eu pense em atualizá-lo e torná-lo mais potente, não considero que me tenha dado trabalho.

Aos quase 30 anos, essas foram minhas principais responsabilidades com seres e objetos. Exceto pelo carinho distante pelos namorados que tive e pelos familiares que amo, jamais me responsabilizei pela alimentação de alguém, ou por seu bem-estar, ou por sua higiene. Não tive, ainda, a sensação de que meus cuidados são imprescindíveis e tenho tratado com pessoas absolutamente capazes de cumprir todas as tarefas sozinhas. Meus pais são ainda jovens e saudáveis, assim como meus irmãos. Meus amigos estão bem.

E vejo, agora, como terei o que aprender com meu filho, que nascerá absurdamente meu, como jamais alguém foi antes. Assim como dependerá de meu olhar atento, meu leite, meu colo, minha disciplina de mãe aprendiz. Também ele dependerá do pai, que estará em paz, cumprindo os tratados que um pai faz com o filho. Pela primeira vez, experimentarei horrores e prazeres de prover alguém de vida, além de descobrir, com certa surpresa, que não sabia, ainda, o que era amor.

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