Brasília à mercê das multidões

por Daniel Piza, em Digestivo Cultural

Brasília já nasceu decadente, apesar da cara de novidade. Há 45 anos ela é a sede do arcaísmo em forma de maquete modernista, o Politburo bossa-nova no meio do cerrado, a curiosa consagração do estilo arquitetônico que poderia ser batizado de futurismo retrô.

A idéia era que a transferência da capital para o interior profundo fosse impulsionar o desenvolvimento do país, já que a população se apinhava no litoral. Tanto tempo depois, o centro-oeste realmente está mais desenvolvido – só que graças ao salto do agronegócio nos últimos 15 anos, movido por dinheiro e técnica investidos por produtores e pesquisadores oriundos do sudeste e do sul do Brasil. Ao mesmo tempo, a população continua amontoada nas grandes cidades, onde a informalidade e a violência dão as cartas das periferias; a parcela que vive em meios rurais caiu a menos de 20% dos habitantes.

O Brasil profundo continua mal habitado, uma terra sem lei, na mão dos coronéis de paletó e gravata. A capital poderia, então, ser transferida para São Paulo? Há algumas vantagens à primeira vista. Diminuiriam, por exemplo, as desculpas para não trabalhar só de terça a quinta, pois a maioria dos parlamentares estaria mais perto de suas bases eleitorais; e quem sabe a mística do trabalho desenfreado não os contaminasse um pouco. Mais importante, eles estariam à mercê constante de multidões.

Como o presidente Lula, que não foi ao estádio de Brasília ver a seleção brasileira por medo de ser vaiado (o que fez muito bem a ela, que enfiou cinco gols no Chile), eles pensariam duas vezes antes de se expor. E não só no Morumbi, no Pacaembu, no Palestra Itália. Qualquer restaurante lotado seria uma câmara de apupos em potencial. Já pensou Severino Cavalcanti andando em direção ao bufê do Fogo de Chão ou na espera do Sujinho? Outro possível ganho seria para a cidade: bairros esquecidos no passado industrial como Mooca e Brás poderiam abrigar alguns ministérios ou o Congresso.

Haveria também a mera lição visual. Aqui os políticos conheceriam tanto a riqueza que ergue prédios sofisticados na Vila Olímpia e Brooklyn como a pobreza ilustrada por favelas nesses mesmos bairros e em tantos outros. Certo, talvez isso estimulasse seus dois lados ruins: eles estariam mais perto do dinheiro privado, que tanto gostam de achacar, em geral com prazer recíproco; e estariam mais perto da miséria humana, à qual tanto gostam de prometer, em geral com credulidade recíproca. Mas pelo menos eles não se sentiriam tão protegidos quanto se sentem na Las Vegas tropical, sob as marquises de concreto daquele cassino político. Teriam a vigilância maior de uma mídia – jornais, revistas, TVs, sites – cuja capital é cada vez mais São Paulo.

O chato é que isso implicaria ver essa gente mais de perto, ocupando lugares do cidadão honesto nos restaurantes, cinemas e parques, aumentando o trânsito com carros oficiais, multiplicando os custos da burocracia local.O maior problema, no entanto, seria outro. Com seu urbanismo feito para ser visto do avião, não vivenciado por gente normal e trabalhadora, o Distrito Federal continua a ser um encrave de políticos, amanuenses, lobistas e jornalistas, todos morando no que parece ser uma sucessão de condomínios, símbolos irônicos do loteamento do Estado pelos grupos de interesse.

A cidade sem esquinas chocou críticos do porte de Kenneth Frampton (arquitetura) e Robert Hughes (arte) por sua tentativa de planejamento fundada na ilusão, por seu monumentalismo seco, cercado de cidades-satélites nada modernas. Ao contrário de Washington, D.C., a aridez se expande para a vida cultural, sem museus, bibliotecas, centros de pesquisa, etc. Por isso mesmo, Brasília é representativa.

Paradoxo móvel entre o atraso e o sonho, representa melhor as contradições do Brasil do que qualquer outra cidade. E é muito mais fácil rir dela como um todo ao vê-la distante. Como piada, é perfeita. Alimenta com a mera existência a desconfiança saudável que o cidadão deveria ter dos políticos.

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