Geração M

Pedro Doria, no Estadão de hoje

Laura é muito sabida e inteligente – mas isto todo pai diz de sua filha. Embora tenha 3 anos e um quê, domina o mouse e aprende a usar seus programas por conta própria, sem que ninguém interfira muito. Isto crianças com acesso a computador desde cedo fazem todas. Laura mexe no computador enquanto vê televisão enquanto veste suas bonecas. Crianças nesta idade não costumam fixar a atenção por muito tempo numa coisa só. A diferença dela para os pais é que continuará neste ritmo de multitarefa para além da adolescência.Maíra é uma amiga: inteligente, atenta, tem tudo para virar uma grande jornalista. Tem 22 anos e vai costurando sua noite conforme ela acontece. Toma uns chopes com os amigos mais velhos às 9 mas já está trocando texto ou falando ao celular para ver o que fará à 1. Está sempre atenta ao que vem a seguir, o importante é manter o ritmo e não deixar um único segundo de tempo sem ação e todos os momentos preenchidos.

A revista Time publicou uma capa sobre esse tipo de mudança faz umas semanas: a primeira geração multitarefa está nas ruas e outras a seguirão. É o rapaz que ouve música enquanto faz o dever de casa enquanto navega pela rede; é a menina que deixa a sala na universidade e de presto saca o celular para ter o que fazer enquanto toma o rumo da próxima aula.

Tem uma coisa bacana na matéria da Time que é rara: não é sensacionalista, não acusa geração alguma de ser uma geração perdida e deformada pela mão massacrante da tecnologia. Só aponta que algo mudou. Sempre fomos capazes de fazer coisas ao mesmo tempo. É possível andar e falar ao telefone. Ou, o exemplo é da revista, descascar cebolas enquanto assistimos à tevê. Mas, para decidir mudar de caminho ou incluir uma cebola mais na receita, aí é preciso interromper a conversa ou se desligar do programa por uns segundos. Ouvir música enquanto se escreve também é possível, mas a concentração vai para um ou para o outro.

Essa capacidade de isolar ruídos para permitir concentração todos temos, é melhor na juventude, com o tempo vai ficando mais difícil. Mas, se treinada, pode ser desenvolvida. Há dez anos, Steve Wozniak, um dos fundadores da Apple, trabalhava como professor de computador para crianças. Numa conversa ele contou, brilhos nos olhos, que nada o fascinava mais que a maneira como seus alunos liam: pescando palavras-chaves no texto e dando forma a um sentido geral, prontos ao assunto seguinte. De certa forma, o navegar na rede já estimulava isto.

É natural: um livro pede uma leitura linear. Depois da página 33, só existe a 34 e o assunto continua o mesmo. De uma página da web, os caminhos são múltiplos, depende apenas dos links – ou de um novo endereço. E os estímulos de informação não são apenas escritos. É rádio, imagem, mensagens eletrônicas nas ruas. O dinamismo é incrível, e as possibilidades de contato, hoje, são muito maiores.

A Geração M tem capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Segundo David Meyer, diretor do Laboratório de Estudo do Cérebro da Universidade de Michigan, essa capacidade não se traduz em eficiência. E-mail não combina com álgebra. Mas isto é só um estudo, o fenômeno é novo e, embora pareça fazer sentido ao senso comum, não quer dizer que esteja certo. O tempo dirá.

A Geração M se sente inquieta quando há pouco estímulo, quando há pouca ação no entorno. O problema é que trabalho intelectual também cansa e também estressa. Isso não quer dizer apenas ler Nietzsche entendendo: digerir informação diversificada o tempo todo é difícil. E desligar dos estímulos, na cidade, não é lá muito fácil.

Alguns dos educadores entrevistados pela Time sugerem que os pais devem buscar meios para fazer seus filhos desligarem de vez em quando. Que devem também promover momentos de conversa – o jantar, por exemplo, sem tevê, rádio, celular, computador, só comida e família e troca de idéias. O óbvio, afinal.

Mas, nessas horas, dá para ver que não são apenas os filhos, a Geração M, que precisa aprender a desligar vez por outra. Estamos todos no mesmo buraco. O mundo que a tecnologia de comunicação oferece é rico e fascinante como jamais foi. Precisamos é aprender a desligar vez por outra, deixar o tempo passar sem planejamento.

Silêncio é bom!

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