Suados 24 horas por dia

Um passeio pela Crunch Fitness, umas das academias mais badaladas de Nova York

Por Guy Trebay

Às 7h da manhã os mais viciados já chegaram e já foram, os maratonistas em treinamento, os triatletas com concentração de ferro se preparando para outro Ironman, os compulsivos, bulímicos de exercícios com seus membros musculosos e pelos nos braços. Não deixemos de mencionar os astros pornô, sujeitos com músculos inchados de Popeye e mamilos tão distendidos que parecem botões de elevador: térreo, por favor!

A filial de Lafayette Street da Crunch Fitness é um desses lugares de fábulas de Nova York, um estabelecimento que fica aberto 24 horas. Ao contrário do que conta Sinatra sobre a cidade que nunca dorme, as calçadas tendem a estar silenciosas à meia noite na maior parte de Nova York. Depois que as pessoas comuns já adormeceram assistindo Letterman ou engoliram um Ambien e puxaram as cobertas por cima da cabeça, ainda tem gente nas academias malhando, pedalando e suando. Isso eu descobri depois de decidir recentemente fazer minha própria maratona radical: ou seja, passar 24 horas em uma academia. (Para ser franco, em dois turnos; tentei de uma só vez, mas não consegui completar a distância.)

Minhas razões foram várias, ao acaso em certo sentido e também derivadas de décadas de curiosidade sobre um local que cientistas sociais referem-se como “o terceiro lugar”, um local fixo em um triângulo psíquico com o trabalho e o lar. As academias estão nas vidas de ao menos 41,3 milhões de americanos atualmente associados. São locais de refúgio, de melhoramento pessoal ou de humilhação e, para os que nunca passam da fase da matrícula, de censura.Ainda assim, apesar do número de associados não ter parado de subir nos 19 anos desde que a indústria começou a manter registros, os americanos estão desenvolvendo uma epidemia de doenças ligadas a pecados que os puritanos reconheceriam como indolência e preguiça.

“A cultura sedentária que emergiu neste país nos últimos 30 anos teve um efeito devastador na saúde da nação”, disse John McCarthy, diretor executivo da International Health, Racquet & Sportsclub Association, aludindo em parte aos atuais índices alarmantes de obesidade infantil e também ao aumento assustador da diabete adulta, associada ao excesso de peso.

Na semana passada, pelo terceiro ano consecutivo, o grupo patrocinou uma iniciativa (www.getactiveamerica.com) na qual 1.200 academias abriram suas portas para o público por um dia. Simultaneamente, membros da associação foram ao Capitólio pedir a aprovação do Programa de Melhoramento da Saúde da Força de Trabalho, uma extensão dos benefícios de impostos dados para patrões que mantêm programas de exercícios.

“A lei atual permite que as instalações (para exercícios) no local de trabalho sejam deduzidas dos impostos, mas não programas fora do escritório”, disse Brooke Correia, porta-voz da organização.

Isso talvez explique a costumeira aula de Pilates às quartas-feiras nos auditórios certas de corporações. A lei proposta permite que as empresas subsidiem o ingresso nas academias com cortes nos impostos, e, assim, pretende cortar os quase US$ 77 bilhões (em torno de R$ 150 bilhões) gastos anualmente com problemas médicos relacionados à inatividade.

Não faz muito tempo, em 1987, as academias tinham 17,3 milhões de associados nos EUA. Foi nessa mesma época que eu ingressei, na esperança de fazer uma transformação física, de escriba magrela para um homem másculo super-forte.

Muito mudou desde então, tanto culturalmente quanto no tamanho de meus ternos. No início, o objetivo era levantar muito peso. Mas hoje em dia, exceto entre os rappers hipertrofiados como LL Cool J., que recentemente vangloriou-se à Miss Jones, do rádio, dizendo que levantava “três e uns trocados”, esse tipo de levantamento de peso de homem das cavernas perdeu seu apelo. Nada surpreendentemente eu testemunhei uma total alteração dos gostos por certos estilos de corpo nas academias.

“O visual monolítico, que era moda na minha geração, hoje parece antiquado”, disse Michael Manchino, personal trainer de 49 anos cujos clientes incluem o designer Narciso Rodriguez.

Com baixo índice de massa corpórea e um peitoral que lembra os bustos no Monte Rushmore, Manchino disse que muitos o chamam de Rambo quando viaja ao exterior.

“Certa vez namorei um cara que disse: ‘Não quero levantar pesos. Não quero um peito grande como o seu porque não cai bem com as roupas'”, explicou Manchino. E é verdade que Richard Gere de Armani quando fez “American Gigolo” não caberia em um terno de Hedi Slimane para Dior. “Todo mundo agora quer o corpo de um astro de rock dos anos 70, o corpo de ioga, o visual de Jesus”, explicou Manchino.

Bem, talvez nem todos. A vantagem de passar um dia inteiro em uma academia é ter uma oportunidade de observar uma rica galeria de tipos humanos: os ratos de academia com seus peitos orgulhosos e pernas de palito; as montanhas de carne; o hippie de rabo de cavalo solitário, que passa horas pedalando calmamente uma bicicleta inclinada enquanto lê “Within a Budding Grove”; os roqueiros envelhecidos magros cujos rostos parecem relógios de Salvador Dali e jovens rapazes e moças -estudantes da Universidade de Nova York, imagino- no início da idade adulta, com a pele firme, o porte ainda flexível porque as ressacas, o terror dos empréstimos dos estudantes e os pagamentos da hipoteca para apartamentos minúsculos ainda não deixaram marcas em seus corpos ou rostos.

Há também modelos, esqueléticos, perenemente na companhia de um treinador, um tipo de ama de companhia sempre lutando para acender os minúsculos cérebros por tempo suficiente para que levantem pesos de brinquedo e façam alguns abdominais. Há os Hells Angels de pescoços grossos como troncos de árvores, úteis para acomodar as tatuagens de letras góticas da Harley.

O lema corporativo da Crunch Fitness sempre foi “sem julgamentos”, uma filosofia que, de certa forma, é correta (todos esses tipos estranhos de fato parecem se dar bem), mas é também uma ilusão curiosa. A realidade é que ninguém, inclusive os Hells Angels, que entra pela porta da academia não foi julgado e provavelmente condenado por sua própria corte privada no espelho do banheiro.

Claramente, não só as mulheres são afligidas com a paranóia com a aparência. Se a tão alardeada feminização dos homens demonstrou alguma coisa, é que o mundo agora é um lugar onde todos estão livres para ficarem obcecados com barrigas, joelhos tortos ou a cruel piada de Newton sobre o que a gravidade eventualmente faz com os traseiros das pessoas.

Se eu pudesse mudar alguma coisa em mim, mudaria a consciência de meu corpo”, disse o ator em bastante boa forma Josh Holloway, de “Lost”, recentemente na Star, que (aham) peguei ao lado de uma esteira. “Sinto como se estivesse fora de forma sempre”, acrescentou Holloway. “Eventualmente vou ter que parar de tentar ser Brad Pitt em ‘Clube da Luta’. Simplesmente não sou assim, sabe?

“E quem é? Esta é a pergunta que me faço quando passeio pelo andar térreo da Crunch, onde entendo que a maior parte das pessoas que encontramos em uma academia agüenta estar ali. E há algo confortante quando compreendemos que a academia não é axiomaticamente um templo de narcisismo, um local para o solipsista, o solitário e o entediado.

Chamar o lugar de comunitário seria um exagero. Ainda assim, nos limites de uma academia, encontram-se ritmos previsíveis e confortantes, rostos familiares e também hábitos reconhecíveis. É possível saber que horas são quando se vê a chegada dos competitivos, motivados, compulsivos, os tipos que comem omelete de 10 claras toda manhã e para quem este horário é uma oportunidade de levantar enormes pedaços de ferro sem assustar as pessoas em torno. Também é possível reconhecer, nos guerreiros da noite, os funcionários de hospitais, motoristas de táxi ou estagiários em escritórios de advocacia que aparecem depois da meia noite, elementos da necessidade pessoal de encontrar um espaço para trilhar os quilômetros de uma maratona mental.

The New York Times

Durante minhas horas na Crunch Fitness -escolhida por ter perfil demográfico mais racial e economicamente variado do que alguns pontos mais elegantes da cidade e também, devo revelar, porque é onde vou sempre e conheço melhor- fiz como se estivesse montando um quebra-cabeças. Coloquei as bordas primeiro e depois trabalhei para preencher a imagem central.

A floresta de cromo e aço, as paredes de espelhos infinitos, o mural pendurado no teto de animais e pessoas sem corpos, o roxo, amarelo, rosa e prateado que sugerem um porão decorado pelo coelho de páscoa gradualmente preencheram a imagem.

Somente então comecei a identificar os detalhes: um editor de uma importante revista, um arquiteto que fez 200 lojas da Gucci. Na cadeira romana estava James Iha, do Smashing Pumpkins, sensualmente magro, trabalhando as pernas. Esquivando-se amigavelmente estava a atriz Sandra Oh, de “Grey’s Anatomy”.

Dessa vez não consegui ver Matt Damon. Damon é uma peça fácil de encontrar no quebra-cabeça, pois seu jeito de tentar se passar por anônimo é tão estudado que se torna uma forma de ostentação.

“Ele entra com um gorro, cercado de amigos, como se não quisesse que ninguém o visse”, disse Morena Saenz, artista cujo trabalho durante o dia envolve bater bananas, pó de osso e outras substâncias ainda menos apetitosas nos liquidificadores cansados do bar de sucos da academia.

“Não sei para que isso, ninguém está prestando atenção, de qualquer forma”, acrescentou. “Quando Calvin Klein entra, ele simplesmente malha como todo mundo. Ele é discreto e famoso.

“Sua observação ajuda a explicar porque as academias em Nova York são compreendidas como zonas livres de camadas sociais, lugares de nivelação raros em uma cidade onde a maior parte das pessoas passa inúmeras horas avaliando as minúcias de hierarquia e casta.

Na Crunch, pode-se dar de cara com um romancista vencedor de Pulitzer totalmente suado durante a aula de Spinning às 6h45 com Matt Pestorius; ou com um mestre das finanças brincando alegremente ao som das fitas de hip hop de Marc Santa Maria, na aula de Crumpin’ & Clowning’; ou um galã de televisão, dirigindo-se seminu para os chuveiros – que deve ser o motivo pela proibição recente de telefones celulares (com suas câmeras indiscretas) nos banheiros.

A noção de que na academia, pelo menos, todos são iguais deve algo à universalidade anônima dos shorts e camisetas surradas. E isso também, é outra grande coisa da cultura das academias: apesar dos melhores esforços da Polo ou da Dolce & Gabbana, a moda ainda não conseguiu se inserir no ambiente.

“O que eu adoro aqui é que é como a sala da minha casa, e as pessoas que vêm aqui são minha turma, quer eu as conheça ou não”, disse Joshua Suzanne, que passa duas horas, cinco dias por semana na Crunch antes de ir para sua loja de roupas antigas Rags-a-GoGo. Com suas tatuagens de marinheiro, piercing no lábio, costeletas alouradas e Mohawk amorosamente penteado, Suzanne talvez não seja a mais óbvia expoente da academia como um laboratório de ideais platônicos.

Mas ela estava lá na semana passada, exercitando sua filosofia entre séries de exercícios para os braços.

“Todos nós aqui estamos passando por nossas mudanças, ficando gordos ou magros, fazendo plásticas no nariz ou nos seios, ganhando músculos ou não, mudando os corpos ou não, e é tudo meio abstrato”, disse Suzanne. “Mas o que é legal é que há algo maior acontecendo, ou seja, que todo mundo está trabalhando para se tornar melhor.

“Se o ideal é atingível ou não é menos importante do que a busca, disse Suzanne. “O sonho é o que conta”, disse ela. “Se você prestar atenção, pode ver como as mudanças físicas se traduzem nas mentes das pessoas. Estamos todos aqui. E voltamos. Por alguma razão, acreditamos.”

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