Manoel Carlos fez de mim um moralista

por Ricardo Calil em Nomínimo

Como um adendo ao artigo “Tudo pelo sexual”, aqui vai um pequeno relato pessoal. Na semana passada, vivi uma experiência inédita: assistir a uma novela das oito na companhia de uma criança de 4 anos.

A novela era “Páginas da vida”; a criança, filha de amigos hospedados em casa. O resultado da experiência foi inesperado: transformou-me em um moralista.

Sempre defendi a idéia de que a boa educação – em casa e na escola – seria o suficiente para evitar os possíveis danos causados pela mídia. Mas aprendi, na prática, que isso só é verdade se a criança for mantida em uma redoma de vidro – o que, no mundo atual, é impensável.

Muito bem educada pelos pais, a menina não vê TV em casa. Mas fica liberada quando visita os avós e amigos ou quando está em viagem – como foi o caso dessa vez. Sempre que isso acontece, conta a mãe, ela volta para casa mais sexualizada, falando sobre beijos e romances.

Na noite em que viu “Páginas da vida”, ela inventou uma brincadeira: repetir as falas das atrizes. Foi constrangedor ouvir, na boca de uma menina de 4 anos , frases como: “o sexo agora é meio formal”, “ele tem jeito de ser bom de cama”, “como é que um homem pode ter tesão por mim com essa barriga?”. A única solução foi interromper a sessão para fazer um lanche.

E a novela só ficou mais pesada nos dias seguintes, com o strip-tease de Olívia (Ana Paula Arósio) e o depoimento sobre masturbação da senhora anônima de 68 anos. Aliás, Olívia tornou-se imediatamente a personagem preferida da menina, talvez pela cara de boneca de Arósio.

Taí mais um elemento perverso da novela: sua personagem mais erótica é interpretada por sua atriz mais infantilizada. No dia seguinte, a filha dos meus amigos disse que tinha visto “a novela da Olívia”.

Dei graças a Deus de não repetir a experiência. Mas me coloquei, pela primeira vez, no lugar dos milhões de pessoas que vêem novela ao lado dos filhos diariamente. E cheguei à conclusão de que isso não pode ser muito bom.

Talvez algum psicólogo defenda que a televisão não há de ser assim tão danosa, que uma menina de 4 anos não tem condições de entender tudo o que está vendo. Minha pequena experiência provou o contrário: ver novela pode ser tão saudável para a sexualidade de uma criança quanto comer frango com hormônios.

Como sou contra qualquer tipo de censura, só imagino uma solução para o caso: enquanto as emissoras não mostrarem o mínimo de bom senso, é preciso proibir as crianças de ver TV em determinados canais e horários. Pronto. Graças a Manoel Carlos, virei um conservador e não me envergonho do fato.

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