Recomeço

por Marcelo Maroldi

Eu recomeço. Freqüentemente, discordo da definição de ‘recomeço’ do mini-dicionário Houaiss da língua portuguesa, edição de 2001: um ‘novo começo’. Por que não pode ser um velho começo?, isto é, uma nova tentativa de iniciar, ou somente um começo de algo que foi interrompido?, extirpado?, ou de algo que deveria ser e jamais o foi?

Malditos lingüistas, eu os amaldiçôo. Eu gosto mesmo – além da madrugada fria e da lágrima desafiadora – é da definição que dá o mesmo dicionário quando verbaliza o substantivo supracitado, recomeçar: ‘começar a ser novamente’. A ser o que eu já não tenho a mínima idéia,…, mas, acho, recomeçar implica em ser, em ser de novo, parece. O ser recomeça…, uma pedra não recomeça. É, deve ser isso…

Eu caminho de mãos soltas contra o vento(1) gelado e provinciano. Os meus olhos agora são olhos de um novato, tolos e debutantes. Há tempos não me sentia um idiota completo, a gente sempre se sente melhor quando está amando. Novamente, sair de casa é se aventurar. Os meus frágeis e parcos versos desfaleceram, vencidos enfim, quase se degradaram por completo. É, perdi. Eu perdi. Por sorte, ainda restam alguns poucos resquícios de ruídos poéticos e outras sentimentalidades no meu peito. Destroçado, mas ainda peito. Derrotado, mas ainda peito. Os ruídos são como a erva daninha do desenho animado, basta um pequeno matinho no meio da horta e pronto, ele se alastra por tudo, toma conta de tudo, procria promiscuamente, contamina, prolifera (2).

Logo voltarei a ser quem fui, querendo ou não, gostando ou detestando. Mas…, não!, não quem fui. Nunca mais. Agora sou outro, diferente, bem distinto daquele. Aquele morreu. Escafedeu-se, diria erroneamente minha tia. Eu não sei o que esperar do meu novo coração. Isso me assusta. Não solta da minha mão, vai? Ah, já soltou…!

Comumente, associamos recomeço com alguém que perdeu bens materiais, perdeu a vida que tinha, perdeu o emprego, saiu da sarjeta, esteve no fundo do poço por conta do álcool, de alguma droga, esse tipo de coisa. Poucas vezes pensamos que recomeçar significa retomar a vida a cada derrota, seja ela de que tipo, gravidade ou natureza for. Pequenina ou não. Definitiva ou não. Valiosa. Ou não.

E, sendo assim, esquecer um grande amor é também recomeçar… Um recomeço difícil. Uma nova luta a cada dia. O peito hiato. A gente se acostuma com tudo nessa vida, até com a própria vida… Não deve ser tão complicado superar uma ferida de amor. Eu preciso recomeçar a vida, não posso esmorecer. Se eu declinar, quem vai alimentar o cão?

Por uns breves instantes, eu quase consigo entender o que é ter amado loucamente e ter perdido um grande amor (3). Nessas ocasiões excepcionais (em que me sinto superiormente dotado), eu encaro cada ex-amor com uma experiência singular de minha vida, algo a acrescentar, a ensinar. Não importa o tamanho do pranto, da dor, mesmo que as lágrimas encham toda uma piscina, algo de valioso foi aprendido.

Recomeçar é juntar esses aprendizados e caminhar de novo, passos lentos (ou rápidos, ou pode ser parado mesmo), em busca do novo, do acerto, do definitivo, se existir, e da felicidade. A esperança consiste nisso, não tenho dúvidas: na possibilidade de imaginar que um dia acabará a sua busca, a sua agonia, as mãos cessarão a tremedeira inconteste, os olhos secarão, o nó na garganta se dissipa, e nunca mais será necessário re-co-me-çar.

Então, já no dia seguinte, a saudade vai iniciar seu ritual sádico de tortura. Um pedaço de mim não existe mais, é como sinto agora. Pareço aquelas cobras da TV a cabo que estão sempre trocando de pele, arrastando por detrás de si aquele resto de tecido morto e cansado, sem valia, sem préstimo, mas, marcas de um passado, sinais de outrora, símbolos de vida anterior, lembranças de dias felizes e tristes. Uma prova da seqüência, da certeza que o sol sempre vai nascer no dia seguinte.

Não é fácil recomeçar, não mentirei pra ti. Por vezes, a força nos parece faltar, as pernas até estremecem, não é raro se curvarem e desestabilizarem comicamente todo o corpo, a taquicardia covarde toma de supetão sua carcaça debilitada e solteira. Viva, porém. “Ninguém dirá que é tarde demais”. Aquela foto pode até ficar lá, a me machucar, como a prova definitiva de que não sonhei. Não!, não…era um grande amor mesmo. Agora sou apenas eu. Eu comigo. Eu e o recomeço.

A ferida vai começar a se fechar. Até mesmo as de amor são plenamente curáveis. Eu sou curandeiro, você sabe. Poeta e curandeiro, Fabro. Demora, mas fecha. Dói, mas passa. Já vai passar, meu amor… deixa de ser tão carente! As cicatrizes já se estendem por todo meu tórax, vítimas inocentes de um byroniano qualquer. Logo, não me ocuparei mais em imaginar o que você agora faz, se come, se dorme, se namora, se ama. Ou se sorri. Um dia deverei esquecê-la, anjo, porque de amor eu não devo morrer. Eu venço a solidão, eu venço a tristeza no meu peito. Eu, vencido e só, lutando por fazer valer a pena o pôr do sol seguinte, quando direi: não me procures entender, dói em mim também. Eu sigo em frente, recomeçando, pois hei de recomeçar, hei de fazer valer a definição. O que passou me ensinou, meu coração não se fechará por conta disso, eu sei que vou amar de novo.

Eu só (ainda?) tenho 28. Será que eu bebi pouco? Há muita realidade nesse meu devaneio. Deus, eu só queria me perder…

Não é raro eu ser incompreendido. Tampouco ignorado. Vai chegar o dia em que eu mesmo vou lançar meu próprio dicionário, cheio de termos que eu mesmo inventei, e uma infinidade de outros tantos que eu decidi alterar o significado. De que vale eu viver essa vida se eu não posso inventar minhas próprias definições, ora? De que vale eu viver se não posso recomeçar sem que não seja do zero, ou recomeçar sem acabar? A verdade é que me julgas muito diferente do que sou de fato. Um trator me atropelou, mas ele era de brinquedo.

Notas
(1) Poderia ser brisa se eu estivesse mais inspirado hoje. Os poetas preferem a palavra brisa a vento, nunca entendi o motivo, elas são tão distintas! Brisa é coisa para gente apaixonada, vento tem mais a ver com recomeço, creio…
(2) Não era o pequeno príncipe que tinha problemas com isso? Coitado.
(3) Eu daria um bom diretor de filmes ininteligíveis. No meu filme, um cara ruivo olha para um pombo numa praça (o pombo não precisa ser ruivo). O cara simplesmente olha, não chora, nem fala nada, nem faz careta, nadinha. Ele apenas olha. O pombo nem sabe que ele está ali o observando. Lindo, não?

Nota do Autor: Este texto faz parte da trilogia que tem
“Dos amores possíveis” e “Receita para se esquecer um grande amor” como primeira e segunda partes.

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