Se for viajar de navio

em Digestivo Cultural

Mas a viagem começa naturalmente com você procurando onde fica o seu camarote, e você leva exatamente a metade da viagem procurando onde fica o seu camarote: são sete andares com 70 escadas e mais de 700 corredores: todos rigorosamente iguais e dando para 7.000 portas cuja única diferença são pequenos números cabalísticos, quase invisíveis. Afinal, depois de tomarem você por um clandestino — pois só um louco ou um clandestino poderia dormir na mesa de bilhar com uma bola por travesseiro — levam-no numa padiola para onde exatamente está o seu camarote e que você descobre no dia seguinte ficar exatamente onde fica o rabo do navio. (Na agência de viagem garantiram que você teria uma vista magnífica, mas queriam evidentemente referir-se à sua vista propriamente dita, incluindo a pupila direita e a esquerda, o cristalino, a córnea, a retina, a íris, o diafragma, o nervo óptico, as pálpebras, sem falar do seu par de óculos.)

O máximo que você consegue ver através da vigia, quando não está ninguém do outro lado vigiando você, é um pedaço da chaminé e dois escaleres suspensos no espaço, a lembrar que a qualquer momento o navio pode ir para o fundo, o que não deixa de ser uma lembrança altamente confortadora. Aliás, logo após a partida, submetem os passageiros a um exercício simulado de salvamento, com apito, sinos, silvos, correria, desmaios, salva-vidas e o resto, mas tudo tão perfeito e tão bem encenado que dois navios e três torpedos vieram imediatamente em nosso auxílio.

A primeira noite que você passa na sua cabine — assim chamada apesar de você mal caber nela — já é uma outra história. Deitado no beliche, mesmo porque não poderia estar sentado ainda que quisesse, você aos poucos vai se dando conta de que todos os barulhos do navio resolveram vir passar a noite em sua companhia, desde o motor da hélice situado exatamente debaixo da sua bunda até o mais ínfimo ruído do copo batendo no espelho do banheiro. Todos os objetos em redor da sua cama, mais as paredes, o teto, o chão, a porta, a maçaneta, as lâmpadas, os cabides, o guarda-roupa, as cortinas, a tampa da privada, o papel higiênico, sem falar naturalmente dos fantasmas — tudo junto e uníssono forma uma grande orquestra sinfônica de guinchos, rangidos, sopros, assovios, pancadas, soluços, suspiros, gemidos, reco-reco, pandeiro, tamborim, cuíca, frigideira e berimbau, no pior estilo da mais moderna música concreta ou eletrônica. Por mais admirador que você seja do som universal e experimental, e apesar de o navio jogar mais do que bêbado em noite de terremoto, você acaba mesmo é pulando da cama e passando o resto da noite a imaginar um meio de voltar imediatamente para os braços de sua mãe, nem que seja a nado.

Mas nem tudo, afinal de contas, é choro e ranger de dentes numa viagem transatlântica. Há sempre uma piscina ou outra para os que ainda acham pouco toda aquela imensidão de mar em torno durante sete dias e sete noites (eu, de minha parte, já no segundo dia recusava delicadamente água às refeições) — e há os sempre excelentes filmes das Andrew Sisters ou dos Ritz Brothers, projetados numa tela da mesma época naturalmente para emprestar maior autenticidade. Há sobretudo os divertidíssimos jogos de salão, como a víspora, a amarelinha, a cabra-cega, por exemplo, bem como movimentada e tradicional dança da quadrilha, assim chamada no caso por nela tomar parte toda a tripulação, o cozinheiro inclusive. Como todos os passageiros, a começar por você, já se acham condicionados dos pés à cabeça pelos esplêndidos programas de televisão dos respectivos países, a alegria se torna logo esfuziante e total — e depois de certo tempo é com uma ponta de orgulho que todos se põem a relinchar e a trotar como fariam no ano 2000.

O resto da viagem deixo-o por conta da sua própria imaginação — mesmo porque já é tempo de que se ponha um pouco de fantasia neste relato que, por excesso de meu amor à verdade, acabou saindo assim tão realista e tão fotográfico.

Receba o abraço do Campos de Carvalho

por Campos de Carvalho

Nota do Editor
Agradecimentos ao prefaciador do livro Antonio Prata; à dona Lígia de Carvalho, viúva do escritor; e à Editora Record, que autorizaram a publicação do texto, originalmente publicado em Cartas de viagem e outras crônicas, de Campos de Carvalho. Livro que integra a coleção Sabor Literário, da Editora José Olympio, lançada neste ano.

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