Três é demais

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Com drama e ironia, Big Love retrata a poligamia entre mórmons dissidentes

Numa cena do primeiro episódio do seriado Big Love, Barb (Jeanne Tripplehorn), Nicki (Chloë Sevigny) e Margene (Ginnifer Goodwin) reúnem-se para debater uma questão doméstica delicada: o calendário dos deveres de alcova do marido que elas compartilham. Pelo tom da conversa, verifica-se quanto pode ser complicada a vida de um sujeito com três mulheres – para que Bill (Bill Paxton) dê conta de tantas obrigações conjugais, só mesmo com ajuda da pílula azul. Produzida pela HBO americana em parceria com Tom Hanks, e com estréia marcada para o domingo 1º no canal homônimo brasileiro, Big Love retrata a rotina de uma família cristã fundamentalista que pratica a poligamia no interior dos Estados Unidos. Essa tradição foi iniciada pela igreja mórmon no século XIX e, mais tarde, abolida. No entanto, continua a ser praticada por membros de seitas dissidentes. Cerca de 40.000 americanos compartilham o “casamento plural” nos estados do Arizona e de Utah. Este último é a sede da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, nome oficial da religião mórmon – uma das que mais crescem no mundo. A instituição busca se desvincular dos polígamos e se incomodou com o fato de a série ser ambientada em Salt Lake City, capital de Utah e seu maior reduto. Não à toa: a prática é proibida e suas justificativas religiosas mascaram uma aberração social. Crimes como estupro, incesto e pedofilia não raro têm sido cometidos nesses clãs.

Big Love coloca em pauta um tema tão antigo quanto a própria humanidade. A poligamia já foi regra nos grupos humanos em estado natural. Na pré-história, os machos mais fortes conquistavam um grande número de mulheres, enquanto os demais tinham dificuldade em reproduzir-se. Nesse cenário, o surgimento do casamento monogâmico teve um efeito civilizador, na medida em que diminuiu a violência entre os homens e os abusos contra as mulheres. A questão sempre esteve também no centro do debate religioso. O Velho Testamento fala de um personagem como Jacó, que teve duas mulheres e treze filhos (vários deles com servas). Essa prole viria a dar origem às doze tribos de Israel. Os mórmons se acreditam descendentes de uma dessas tribos, que teria migrado para o continente americano na era pré-cristã. O fundador da religião, Joseph Smith (1805-1844), extraiu dos textos bíblicos a tese de que os homens deveriam unir-se a mais de uma mulher, e colocou-a em prática com seu zelo habitual. Ao morrer, com 39 anos, contabilizava cinqüenta esposas. Obviamente, a idéia de que as Escrituras fazem apologia dos casamentos múltiplos é rejeitada por judeus e cristãos em geral. “A Bíblia contém menções à poligamia, mas seu balanço final é claramente pró-monogâmico”, observa o filósofo Luiz Felipe Pondé. No Islã, por outro lado, ela tem sido praticada desde sempre – o profeta Maomé teve vários casamentos simultâneos. Hoje, embora continue a ser adotado em alguns países muçulmanos, o costume começa a ser cada vez mais restrito e malvisto.

No caso dos mórmons fundamentalistas de Big Love, a poligamia é praticada de forma clandestina. Muito embora não faltem evidências de que a polícia e o poder público de Utah costumam ser lenientes com esses arranjos, a família de Bill cuida de esconder sua condição das autoridades. O clã tem ainda como inimigos os mórmons ortodoxos – daí o pânico de uma filha adolescente de Bill quando uma colega de trabalho carola descobre seu segredo familiar. (Uma das fontes de inspiração do programa é a seita liderada pelo polígamo Warren Steed Jeffs, um autoproclamado “profeta” que figurou entre os dez criminosos mais procurados pelo FBI e foi preso em agosto passado sob acusação de abuso sexual contra menores.) Não faltam também atribulações domésticas a Bill. Ao contrário de boa parte dos polígamos reais, que se aproveitam da condição de mães solteiras de suas esposas para sugar recursos da previdência social americana, ele se desdobra para manter seus sete filhos e suas três casas contíguas – e, claro, para corresponder às expectativas de três mulheres ciumentas e saudáveis. Mas o clima a seu redor é no mínimo nebuloso. Nascido numa comunidade rural que leva os princípios fundamentalistas a ferro e fogo, ele descobre que seu pai, também polígamo, sofreu uma tentativa de envenenamento. Bill tem de lidar ainda com um sogro sinistro, que é o líder da seita em questão. O personagem (interpretado por Harry Dean Stanton, de Paris, Texas) é uma figura meio mafiosa e, apesar de idoso, tem uma esposa que ainda não largou as bonecas.

O seriado reproduz, enfim, um caldo de cultura em que fanatismo e crime – ou pelo menos contravenção – se confundem. Certas comunidades mórmons fundamentalistas são tão rígidas que proíbem seus membros de travar contato com os “gentios” (quem não professa a religião). Os garotos muitas vezes são expulsos desses lugares pelos polígamos, para não lhes fazer concorrência. Há ainda casamentos entre irmãos e estupros de meninas pelos pais. Não é de estranhar que ambientes assim tenham produzido monstros como os irmãos Ron e Dan Lafferty, que em 1984 mataram a cunhada e a sobrinha de 15 meses dizendo-se guiados por Deus. Big Love demonstra que há, sim, razões para ter dó de um marido polígamo – mas não tantas, nem tão boas, que valha a pena tolerar o fanatismo religioso.

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