O jornalista que fura o próprio jornal


“>
no O Estado de São Paulo

Woodward levou para livros grandes notícias que não saíram no ‘Post’

Poucos acontecimentos em Washington, exceto as flores de cerejeira e os escândalos com estagiários do Congresso, chegam com tanta regularidade como um livro-sensação de Bob Woodward. Ano sim ano não, Woodward, possivelmente o jornalista de maior prestígio das três últimas décadas, emergirá de seu quartel-general em Georgetown com um livro repleto de intrigas federais, fontes folheadas a ouro, e as artes ocultas de Washington.

Em poucas horas, várias partes ofendidas surgirão para dizer que não foram citadas corretamente on the record (com divulgação autorizada pela fonte) e foram mal caracterizadas pelos que falaram em off (com a condição de não divulgação da identidade), e programas de entrevistas na televisão ficarão concentrados no último produto de Woodward. Desta vez, a bonança de marketing precedeu a data de publicação do livro State of Denial (Estado de Negação) na segunda-feira passada, já que The New York Times e The New York Daily News obtiveram cópias na semana anterior.

Perdendo a divulgação exclusiva, The Washington Post, o lar profissional de Woodward – ainda que ele não o visite com muita freqüência -, foi deixado na pior, assim como a administração do presidente George W. Bush. Este foi o terceiro livro de Woodward sobre o segundo mandato de Bush. Depois de duas incursões amistosas – Bush em Guerra (Editora Globo) e Plano de Ataque (Editora Arx) -, ele resolveu atirar uma granada bem no coração do governo.

As pessoas negociam com Woodward porque quando ele é bom, é muito, muito bom. Mas, como um exército de um homem só, com um nome que tem sua própria influência na consciência americana, ele pode fazer o que bem quiser, escrevendo seus livros, indo à televisão, aparecendo no jornal quando uma história esquenta.

Os críticos já disseram que ele perdeu a história de Bush quando estava no meio dela. Mas seu trabalho não está tanto além das conseqüências quanto acima delas – mantido nas alturas por sua carreira espetacular e por um contrato com os leitores no qual garante que os levará além da ante-sala.

Blogs e podcasts podem ser o futuro, mas por enquanto as manchetes ainda vêm de um dos grandes nomes do jornalismo, trabalhando nos limites abafados de um livro de capa dura. O vazamento – segundo o qual a então conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice recebeu, dois meses antes do 11/9, informações da CIA indicando um possível ataque da Al-Qaeda aos EUA – certamente não foi nenhuma crise para Woodward, que acabou dando uma primeira mordida na maçã.

No Washington Post, a experiência de ter perdido o primeiro furo da obra de seu mais ilustre repórter (um excerto apareceu finalmente no domingo passado) é provavelmente mais doce que amarga.

Afinal, ter Woodward como um ornamento de capô na empresa, mesmo que economize os furos mais lustrosos para seus livros, tem suas compensações. No domingo passado, Woodward estava de saída, mas arranjou um tempo para dizer que o relacionamento é de benefício mútuo: ‘O Washington Post é um grande jornal. Temos os melhores donos e os melhores editores. Estar lá me ajuda bastante e, embora eu me concentre em livros, faço o melhor que posso para ajudá-los em troca.’

É um casamento de uma conveniência muito moderna, uma troca de marcas que tem pouco a ver com uma relação tradicional empregador-empregado. Num tempo em que os jornais andam ansiosos para chamar a atenção, eles agarram o que podem. ‘É uma acomodação que o Post fez, e eles parecem felizes com o arranjo’, disse Edward Wasserman, um professor de ética jornalística na Universidade Lee, em Washington. ‘O importante é que cada um entre com os olhos abertos, mas persiste o fato de que, pelo arranjo, informações extremamente dignas de notícia reunidas por um de seus principais editores não estão entrando no jornal.’

O livro de Woodward não foi o único de um editor do Washington Post que fez notícia no domingo passado. Soldier: The Life of Colin Powell (Soldado: A Vida de Colin Powell), de Karen DeYoung, editora associada do Post, teve um excerto publicado na revista Sunday do jornal. Ele revela que em seu último encontro com o presidente, o então secretário de Estado preveniu sobre os perigos que o governo enfrentaria no Iraque.

Em agosto, Fiasco: The American Military Adventure in Iraq (Fiasco: A Aventura Militar Americana no Iraque), livro do correspondente do Post no Pentágono, Thomas E. Ricks, levou a história para fora do jornal também. Boa parte das grandes notícias, hoje, parece estar saindo em livros, um desdobramento perturbador sinalizando que alguma parte da história não está chegando ao jornal diário. ‘Leva muito tempo para deslindar essas coisas’, disse Woodward. ‘Não se consegue fazer isso numa base diária.’

Mas o livro como veículo noticioso também cria uma questão de custódia e administração – tanto Ricks como Woodward foram repreendidos por seu editor-executivo por coisas que disseram na TV para promover seus livros. O Post não é o único irritado com a questão. O New York Times teve de negociar com seu próprio repórter, James Risen, a respeito da reportagem sobre escutas domésticas de conversas telefônicas que ele usou em seu livro, State of War (Estado de Guerra).

Ninguém compreende o primado contemporâneo da marca individual mais agudamente que Woodward, que gerencia o lançamento de seus livros com habilidade e ferocidade competitiva. Para o público, ele continua sendo o BMOC (‘big man on campus’, ou manda-chuva do pedaço) em Washington, um jornalista que depôs um presidente (Nixon) e parece pronto a mutilar outro.

‘O que os americanos vêem em Bob Woodward é um sujeito que busca uma média de acertos maior que a de qualquer outro no ramo’, disse Marc Fisher, um colunista do Washington Post.

A realização jornalística propriamente dita em State of Denial é menos que grandiosa. Ele precisou de três livros para chegar a uma conclusão que milhares de blogueiros de porão sugeriram há anos: a de que o governo Bush é formado por gente que gosta da guerra, não parece ser muito boa nisso, e tem sido conhecida por apontar os revólveres uns contra os outros. Essa epifania não parece refletir um repórter que teve um acesso privilegiado.

Considerando o apetite generalizado por informações públicas sobre assuntos privados, nem os mais doentios especialistas políticos conseguem resistir à leitura de como Powell se tornou a carta fora do baralho ou quando exatamente o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, começou a apunhalar Condoleezza Rice pelas costas. Isso não está longe dos desacertos entre Paris e Nicole (dupla de uma série da TV americana), com menos explosões fashion e mais documentos políticos. Depois de muitos anos desmistificando instituições como a Suprema Corte e o Pentágono, Woodward se tornou um jornalista-celebridade que transforma figurões de Washington em celebridades.

‘Woodward parece saber que a pergunta ‘Como eles são de verdade?’ repercute, esteja você falando de Tom Cruise ou de Donald Rumsfeld’, disse Todd Gitlin, um professor de jornalismo e sociologia na Universidade de Colúmbia.

Paul Begala, um ex-assessor do ex-presidente Bill Clinton e estrategista democrata que apareceu em livros anteriores de Woodward e os usa nas aulas que dá em Georgetown, disse que os livros continuavam preocupando Washington porque tinham a virtude de ser profundamente apurados, ainda que as fofocas não façam nenhum mal.

‘O fato é que um sujeito que escreveu sobre este governo nos termos mais vibrantes imagináveis, agora adota uma visão muito diferente, mas, em certo sentido, esta é uma jornada em que a maioria dos americanos está metida também’, disse Begala.

State of Denial é um pouco como ver uma bolinha de gude rolando para fora da mesa. Pode-se argumentar que o último livro que Bob Woodward escreveu sobre o governo Bush deveria ter sido o primeiro. Só a passagem do tempo permite o tipo de consideração que leva a narrativa histórica além do status de esboço.

Woodward acabou respirando o mesmo ar e documentos secretos que suas fontes ilustres, compartilhando, não expondo, o pensamento do grupo. Enquanto isso, Seymour M. Hersh, seu contemporâneo jornalístico e competidor, gastou tempo trabalhando com generais descontentes e raposas velhas de governo para o que muitos consideram fins investigativos mais substanciais.

‘Alguns acharam que os livros mostravam Bush como um líder forte porque essa era a evidência da época; outros tiraram conclusões inversas’, disse Woodward. ‘Mas é tolice criticar um livro por tratar de coisas que não aconteceram ainda. Bush em Guerra e Plano de Ataque cobriram o período de 11 de setembro de 2001 a março de 2003. O novo livro começa a partir daí.’

Uma das principais descobertas de Woodward foi que Rumsfeld não era o produto que ele inicialmente descrevera. Em Bush em Guerra, de 2002, Rumsfeld era descrito como ‘elegante, intenso, bem educado com um pendor intelectual, espirituoso com um sorriso contagiante’. Em Plano de Ataque, de 2004, ele era um líder cuja ‘linha de conduta estava clara, e ele era preciso sobre ela’. Em State of Denial, ele é um sujeito obcecado por controle e influência cuja ‘microgestão foi quase cômica’.

Dada a tendência de Woodward de encher seus livros com detalhes minuciosos, ele sustenta que as sementes de disfunção já estavam visíveis em seus dois livros anteriores. Mas o tempo que Woodward passou vivendo no topo das árvores parece tê-lo cegado para o fato de que a floresta embaixo estava em chamas.

‘Um livro tem um alcance muito mais longo que um dia’, disse David Rosenthal, vice-presidente executivo da Simon & Schuster, a editora de State of Denial. ‘Mas ele está à venda há um dia, já está causando tumulto, dominando os programas matinais de domingo, e determinará a agenda por semanas. O interessante para mim é que, numa era de blogs, web e correio eletrônico, um livro, algo que é fundamentalmente uma tartaruga, muito esquisita à sua maneira, pode carregar o maior imediatismo.’

por David Carr (The New York Times) – tradução de Celso Paciornik

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s