Tecnologia cria abismo entre duas gerações

no Estadao 
Nunca duas gerações foram tão diferentes em gostos, comportamento e visão do mundo quanto a minha e a dos que nasceram depois de 1980. Há um abismo entre nós e os jovens de hoje, em especial no campo da tecnologia. Garotos e adolescentes de hoje têm fascínio pelo mundo digital. Meninos de 8 ou 10 anos apanham um novo celular, iPod, PDA, smartphone, videogame, laptop ou DVD player e descobrem todas as suas funções em minutos. Usam todos os recursos do telefone móvel: torpedos (mensagens de texto), e-mails, câmera digital, ringtones, games. Têm loucura pela internet, cibercafés e lan houses. Em sua visão, os pais e quase todos os adultos são semi-analfabetos digitais. Ou, como costumo dizer, analfabits.

 Meus amigos mais idosos protestam: ‘Você deveria ter pena dos mais velhos que não tiveram a oportunidade ou o privilégio de se familiarizar com o mundo digital’. Num futuro próximo, esse analfabetismo tende a reduzir-se gradativamente, pois não deverão ocorrer quebras de paradigmas tão dramáticas. As crianças crescerão cercadas de tecnologia e estudarão em escolas mais informatizadas. A situação atual, no entanto, é grave e exige, a meu ver, um programa nacional de erradicação do analfabetismo digital, a exemplo de outros países, que atualizam seus professores, modernizam currículos e preparam milhões de usuários para o futuro. Sei que o Brasil tem carências e prioridades mais urgentes. É verdade. Eu citaria, por exemplo, o empobrecimento cultural. Sim, embora inundados por um oceano de informação, vivemos um período de profunda decadência, que atinge não apenas os jovens, mas os adultos de todas as idades.

O quadro tende a agravar-se com o desprestígio crescente da cultura humanística, da língua e das artes. Como enfrentar esse desafio? Com duas armas poderosas. A primeira é a revolução da educação. Embora já defendesse essa tese há muito tempo, confesso que fiquei sensibilizado com a pregação quase evangélica de Cristovam Buarque em favor da educação. Temos que continuar essa luta. A segunda arma é assegurar o acesso à cultura ao maior número possível de famílias, pois é no lar que adquirimos os melhores hábitos, que nos seguirão por toda a vida, como ler mais, falar melhor, ouvir boa música, gostar de arte e criar as bases de uma cultura geral mais sólida. Dos 60 milhões de domicílios brasileiros, apenas 20% têm alguma forma de acesso significativo à cultura, além da televisão. O grande esforço, portanto, deve ser feito em favor dos 80% restantes, para os quais tudo é difícil ou quase impossível, seja o acesso à educação, à informação, ao conhecimento, à escola, ao livro ou à tecnologia. Só alguns raros abnegados dessa maioria marginalizada conseguem, com esforço sobre-humano, vencer as barreiras à exclusão.

E quanto ao comportamento cultural? Outro dia tive uma pequena amostra dessa outra área. Fui a uma festa em casa de amigos. A música era uma pancadaria só. Ninguém conseguia conversar sem berrar. Quase todos bebiam além da conta. A atmosfera era uma nuvem de fumaça de cigarro. Depois de meia hora, alguém teve a idéia de me apresentar um DJ famoso, responsável por aquele inferno de 110 decibéis. ‘Olha, Ethevaldo, este é o Tom Best, o famoso DJ. Que está achando da música dele?’ Minto cinicamente: ‘Sua música é ótima. Parabéns!’ Como sou otimista, espero que, num futuro próximo, os jovens de hoje, mais amadurecidos, acabem por descobrir a beleza do silêncio, da boa música, da leitura, da história, da arte, do esporte, da filosofia, da astronomia, do bom vinho bebido com moderação. Sei que devo ser indulgente com todas as limitações culturais. O único ponto que não consigo perdoar é a degradação de nossa língua.

Lembro-me do saudoso professor Napoleão Mendes de Almeida: ‘Um povo que não cultiva sua língua empobrece sua cultura e perde sua identidade’. Por isso a escola deve ter como primeira missão o ensino da língua. É claro que, além dessa, deve ter outras missões essenciais, como proporcionar condições para que o aluno: 1) aprenda a estudar, 2) aprenda a pensar, 3) aprenda a raciocinar cientificamente e 4) aprenda a reciclar conhecimentos. Nos níveis mais avançados, a escola deve ajudar o aluno a desenvolver espírito crítico e considerar as razões éticas em primeiro lugar. O Brasil é um país de duras contradições. Uma delas é não valorizar devidamente a educação nem a cultura. Imagine, leitor, qual seria a resposta mais provável de um menino a um pai que lhe sugerisse: ‘Estude, meu filho, para um dia ser presidente da República’. Mais irônico seria insistir que o filho estudasse português, diante do presidente que confessa na TV seu orgulho por ter sido ‘filho de mãe analfabeta’. Alguns dirão que, como metalúrgico, coitado, ele não teve tempo para estudar. Não é uma boa justificativa, pois sabemos que ele passou mais de 30 anos, sustentado pelo sindicato, fazendo agitação. Vocês não acham que ele poderia ter dedicado, ao longo dessas décadas, pelo menos duas horas semanais para aprender a língua-pátria?

; por Ethevaldo Siqueira

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