Os nossos incêndios

do Estado de São Paulo

Aconteceu uma tragédia com um amigo. Foi como se sua casa tivesse ardido em chamas. Ou quase. Ele perdeu um HD. Não se trata de um neófito digital – tampouco é a primeira vez que ele perdeu um HD. Todo mundo já teve uma experiência dessas. (E quem não teve inevitavelmente terá.)

Mas como ele já tinha vivido o drama, tinha backup. Todos seus textos de trabalho estavam armazenados noutros cantos. Sua primeira impressão era a de que não tinha perdido quase nada. Uma impressão que mudou dois segundos depois, quando se tocou que computador não é mais só ferramenta de trabalho. Três anos de fotos familiares, o crescimento de seus filhos, estavam lá. Suas últimas declarações do imposto de renda, também.

É que a digitalização da vida vem caminhando lenta e discretamente. Há uns três ou quatro anos, nossas fotos estavam todas em negativo e armazenadas em álbuns, ampliadas. Aí, com cada um isso se deu num momento diferente, foi tudo digitalizado – e ampliar é coisa que vamos sempre postergando. Já vimos as fotos, afinal. Na tela.

Em três ou quatro anos, não teremos mais discos. Compraremos nossas músicas pela internet porque sairão mais baratas assim. Conforme nossos sistemas de som forem sendo substituídos por iPods ou equivalentes no meio da sala, sequer teremos CDs. Da mesma forma como a maioria de nós já não tem vitrolas faz uma década ou mais.

A declaração de imposto de renda é um documento que a maioria de nós, brasileiros, já tem digitalizada. Mas outros documentos assim virão.

O que esse meu amigo percebeu é que a perda de seu HD, um acontecimento cotidiano na vida digital, é o equivalente moderno ao incêndio da casa. Porque, naquele mundo antigo, o analógico, só perderíamos nossas fotos – nossas memórias -, só perderíamos documentos, se a casa pegasse fogo. Ou se desabasse. Ou se fosse invadida por uma enchente violenta. Tinha que ser um acontecimento arrebatador, daqueles que marcam profundamente uma vida.

Hoje é só um HD que se perde. Vem lá um pico de energia – foi-se.

E isso tudo, naturalmente, é um processo de adaptação. Há um século, quase ninguém tinha fotografia, mesmo. Mas algumas das crianças de três ou cinco anos, hoje, terão esse vazio em suas vidas que suas contemporâneas não viverão. São crianças que não terão registro de como eram num período da vida. Porque, um dia, um pico fez com que a cabeça de leitura do HD desse um pinote, batesse no disco de cima, no de baixo. Morreu. Irrecuperável.

Backup de arquivos de texto, ou de planilhas, de trabalho mesmo, é cada vez mais comum termos. Há sistemas online que permitem isso, um CD vez por outra mata o problema. Um disquete, até – para quem é disso. Ou o hábito de muitos de enviar seus arquivos pelo e-mail de casa para o trabalho, do trabalho para casa. É fácil porque tratam-se de arquivos pequenos na maioria das vezes.

Mas aquelas centenas de fotos digitais tiradas com câmeras de 3, 4, 5 megapixels, aquilo é para gravar em DVDs. E dá um trabalho desgraçado. A outra solução é um segundo HD. Fazer um espelho, mesmo, e automatizar o processo. Talvez um HD externo que permaneça desligado a maior parte do tempo – e, portanto, longe dos picos de luz desgraçados. É muito pouca gente que tem um HD externo espelhando aquele que está dentro do computador. E isto não faz qualquer sentido: o preço é muito baixo, hoje, quando comparado ao computador todo.

Baixo demais quando se leva em conta o tamanho da perda que um HD que vai ao espaço pode causar. Dá mais uns anos e não serão só as fotos e os relatórios ao Leão; serão também as músicas, sem o backup dos CDs. Isso, não se levando em conta quem já fez a migração plena para a música digital.

Quanto ao meu amigo, seu azar não foi dos maiores. Tomou o rumo de uma empresa especializada em recuperação de dados de HDs estourados. Cobram pelo megabyte – e uma nota. Para ter suas declarações e fotos, pagará R$ 1.500. Um HD externo é tão barato quando se pensa nisso.

Ele deu sorte. Quando eu perdi um HD, com fotos de minha filha e 150 páginas de um livro escritas, nem com R$ 1.500 dava para recuperar.

por Pedro Doria

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