Bienal 2006: fracasso da anti-arte engajada

em Digestivo Cultural

Rumando em direção à Bienal de São Paulo paro frente a um sinal de trânsito fechado quando aparece, do nada, um rapaz que se dirige rapidamente à janela do meu carro. Começo a tremer um pouco: ele vai me mostrar um revólver, um estilete ou uma faca para me assaltar? Nada disso. Apenas coloca sobre o retrovisor um pacote de balas, contendo dentro do saquinho um bilhete onde aparece escrito o seguinte: “não sou ladrão, gosto de trabalhar honestamente, vendo doces para ajudar minha família, por isso conto com sua ajuda, um real ou um passe. Jesus abençoe”.

Passado o susto e já dentro da 27ª. Bienal de Arte de São Paulo entro em uma sala onde aparece exposta uma obra que consta do seguinte: quatro paredes absolutamente brancas, um grande pacote aberto repleto de folhas de cartolina e um enorme fio de luz no chão com várias lâmpadas acesas. Olhei um pouco, não pensei muito. Depois me veio a idéia de usar as folhas para deixar uma mensagem por escrito. Mas não havia canetas no local. Creio que as folhas foram deixadas para as pessoas construírem aqueles pequenos barquinhos ou sei lá o quê. Só sei que os visitantes que ali estiveram antes de mim só fizeram barquinhos com os papéis. Por sorte, minha amiga estava com um batom e o ofereceu a mim imediatamente. Sem pensar muito, me lembro do nome da Bienal e do susto com o menino no sinal me oferecendo seu “trabalho honesto”. Escrevo na folha com batom: “Não sou artista, trabalho honestamente, vendendo bala no sinal, um dia ainda me vingo… atirando”. Algumas pessoas que estavam me observando escrever saem de perto de mim um pouco horrorizadas. Deixo o cartaz no chão para outras pessoas lerem. E a pergunta ressoa na minha mente: “Como viver junto?”

Este é o tema da 27ª. Bienal de São Paulo, cujo caráter é eminentemente político. A arte mais uma vez escravizada a um a priori conceitual que a leva ao fracasso. Não que isso sempre seja um problema, afinal temos adoração por grandes obras de forte teor político como a Guernica, de Picasso, o Marat, de David ou A liberdade guiando o povo, de Delacroix, para ficarmos com apenas três nobres exemplos. Mas… tratava-se do caso de gênios e a própria idéia de genialidade foi jogada no brejo com a anti-arte pós-duchampiana, da qual a Bienal é bisneta. Hoje qualquer imbecil pode fazer arte, ou vocês acham que existe traço de genialidade em colocar um carrinho velho de carregador de papelão (note-se, sem papelão dentro) numa sala da Bienal? Com este tipo de arte, o melhor mesmo é viver separado (desta arte, claro!).

As obras da Bienal são um conjunto de instalações, vídeo-arte, fotografias, objetos e pouquíssimas e irrelevantes pinturas. Chega a ser não apenas decepcionante, mas horrorizante, o baixo nível de qualidade das obras. Ah! sei, diria cinicamente um crítico moderninho: “mas qualidade artística é coisa do passado, o que importa é a idéia por trás da obra, o conceito da obra”. Sei, eu digo, vocês querem, como queria Joseph Beyus, ensinar arte a mim, já que para vocês não passo de uma lebre morta (eu e todos que desgostarem das obras). Mas, então, que idéia grandiosa trazem estas obras? Uma foto jornalística razoavelmente realizada é uma grande idéia artística? Não para um público que quer ver arte. Sim para o noticiário de um bom jornal. Livrinhos de poesia sendo mal e porcamente editados em papel catados pelas ruas da cidade? Ora, isso numa ONG até que é louvável. Agora o cínico serei eu: que idéia genial! Vamos salvar os miseráveis analfabetos catadores de lixo com poesia sofisticada editada nos seus fedorentos papéis catados na rua. Amém!

Um bando de guarda-chuvas pendurados. Quer que eu pense o quê, cara-pálida? Sei, tinha me esquecido, o próprio conceito da Bienal dá a resposta em um a priori totalitário pensando por mim. Afinal, para que pensar por si mesmo? Uma arte que fazia pensar a partir de seus próprios meios é coisa do passado, esqueça isso. A receita do bolo está pronta, se o bolo é uma merda, não importa, a receita é brilhante e isso é que faz a diferença (risos sem fim).

Arte politicamente correta? Mas, Deus meu, que artista de vanguarda se submeteria e submeteria sua arte a isso? Como disse Alfons Hug, não se deve confundir reportagem com arte. É até óbvio que a arte se alimenta do mundo real, mas não o analisa com métodos científicos, como o documental, mas cria um mundo paralelo, ou até antagônico, ao mundo real. Neste momento utópico residiria, portanto, a função política da arte. A verdadeira arte de vanguarda é a que torna crítico o próprio material em que trabalha como opção de criação, mas dispensa as alusões referentes e simbólicas. Esse tipo de arte não pode ser vista nesta Bienal. Uma arte que não quer ser, antes de tudo, arte, será apenas um álibe para ser outra coisa que não ela mesma.

A verdadeira arte não é um comentário, mas a coisa em si; não uma reflexão, mas uma compreensão; não uma interpretação, mas a coisa a ser interpretada. A sociedade aparece de modo tão mais manifesto na arte quão menos representada nela estiver. Nesse sentido, talvez Beckett estivesse mais perto de nós do que Roland Barthes – não é mesmo?

Dois brasileiros homenageados na Bienal, dois santos do pau oco, Helio Oiticica e Lygia Clarck, que de concretos a neo-concretos se transformaram um em arte-ambientalista e outro em arte-psicóloga (urg!). É de rir o brinquedinho construído para homenagear Lygia, inferior a qualquer diversão inventada por uma criança. Pequenas figuras geométricas de papelão cobertos por papel brilhante, prata e vermelho, se bem me lembro das cores, que o espectador poderia jogar numa mesa formando aleatoriamente novas figuras. Só que havia a obrigação de usar um número específico, tentei usar mais, pois a coisa estava patética, mas a funcionária me impediu. Conclusão: esta Bienal, em termos de diversão, é bem inferior a qualquer parque de diversão infantil. Ou vocês puderam andar naquelas bicicletas colocadas em alguns cantos da Bienal por algum artista? Quem tentou foi duramente repreendido por um guarda. Saudades dos tempos da anti-arte brincalhona Dadá.

Na revista Bien´art número 25, Cauê Alves disse com propriedade que o papel do público nesta Bienal tende a ser o de um receptor que aprende a mensagem de modo unívoco e incontestável. Ou seja, conclui o crítico, o dado político é tão claro e objetivo que as indeterminações e ambigüidades próprias da arte se enfraquecem. O mesmo declarou Jorge Coli, no “Mais!” de 19/11, da Folha de São Paulo, ao dizer que a mostra elimina o debate e a contradição pelo seu afirmar-se impositivo: nem um pingo de reflexão ou de sutileza. Ao contrário, um martelar autoritário do bom pensar e do bem pensante. Na atual mostra, os artistas não vivem juntos; vivem debaixo: da idéia, do conceito, das determinações imperiosas.

Como dizia meu amigo Haroldo de Campos, em entrevista a mim concedida anos atrás, ter idéias solidárias é humanamente louvável, mas transformar isso em obras de arte de quinta categoria é imperdoável. É melhor que se escreva um panfleto em nobre causa.

Nesta Bienal há muita panfletagem e nem como anti-arte funciona. Sinal evidente de que a anti-arte já se esgotou e está apenas dando seu último grito de desespero?

por Jardel Dias Cavalcanti

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