Para fazer antes do fim

Do JC Online

SAMARONE LIMA tem 35 anos, é jornalista e autor dos livros Zé (1998) e Clamor (2003)

Recife, 28 de março de 2005.

Parece que, com o tempo, a leseira da gente vai aumentando. Pelo menos no meu caso, o passar dos anos está me tornando um leso completo, desse tipo de gente que parece não ter o que fazer e fica inventando coisas bestas para se divertir um pouco. “Isso é coisa de quem não teve infância”, costuma dizer o meu amigo Nana. Deve ser mesmo, não sei. A minha não foi das melhores, mas estou me recuperando bem.

Mas vamos ao assunto. Na semana passada, assisti a um filme intitulado “Minha vida sem mim“. Não sei quem é o diretor, o ano; me parece que é inglês. É a história de uma moça jovem, casada com um cara legal (parece aquele camarada do Nirvana), amoroso e duas filhotas lindas. Ela tem uma mãe chata de doer. O pai está preso há dez anos. Ela, a protagonista, que esqueci o nome, mora com a família num trailler, no quintal da mãe, e descobre que tem um tumor nos ovários, ou nas trompas, mas é por ali. É informada pelo médico, um sujeito com cara de psicopata, que o negócio é maligno e que tem pouco mais de dois meses de vida. A moça (puxa, eu devia ter anotado o nome dela) não diz nada a ninguém. Vai para um café, pega seu caderno e anota as coisas que precisa fazer antes de morrer. A lista se chama “Coisas que tenho que fazer antes de morrer”. Ela começa então a cumprir, de verdade, os itens da lista sem dizer a ninguém que vai morrer.

Como a minha leseira é grande (diria completa), terminei o filme e pensei algo do tipo – “E se eu morrer daqui a dois meses?”

Seria no final de maio, eu já teria 36 anos completos. Olhei na agenda e vi que não tem nada muito sério para o final de maio. Melhor. Partiria sem faltar a compromissos ou incomodar algum amigo que pretenda casar nesta época. “Poxa, o cara morre no dia do meu casório”, diria algum amigo, já puto. Aproveitaria o aniversário e já faria uma baita de uma festa de despedida. Também pegaria a festa do aniversário de seu Vital e dona Severina, que é dia 1º de maio, uma bonita festa aqui no Poço.

Fato contínuo (ôps, gostei dessa), peguei meu caderno de bordo e comecei a fazer uma lista sincera das coisas que eu queria fazer antes de morrer. Para a coisa ficar menos dramática, resolvi ampliar um pouco o prazo. Ao invés de dois meses, como no filme, eu teria até o final do ano. Não dá para sair morrendo assim, com tanta coisa legal acontecendo. Devagar com o andor.

Já estava no décimo item quando liguei para a minha amiga Andréa, falei do filme, da lista, perguntei se ela não queria fazer a listinha dela, para a gente trocar figurinhas. Deus do céu, como tem leso no mundo. Ela ficou animadíssima e, no sábado de manhã, estávamos os dois à beira da praia, em Boa Viagem, tomando uma cerveja e saboreando um caldinho, completando nossa “listas-das-coisas-para-fazer-antes-de-morrer”. Tive a precaução de não mergulhar muito fundo no mar, porque com aqueles tubarões de Boa Viagem, eu encerraria a carreira ali mesmo, a nove minutos do primeiro tempo. Os tubarões do Recife são piores que crocodilos. Mordem mesmo, os desgraçados.

Ainda bem que minha mãe não tem o costume de entrar no JC OnLine para ver meus devaneios. Pensaria logo que algo grave está acontecendo comigo, que estou com uma doença secreta. Como é enfermeira, instalaria logo aquela aparelhagem toda aqui em casa para acompanhar meus últimos dias. Diria que estou diferente, que está me achando mesmo mais triste, deprimido, sorumbático etc. Não, mãe, pelo que sei, a minha saúde está supimpa, tenho dado aquelas caminhadas duas vezes por semana e ontem voltei a jogar a pelada dos Caducos, aqui no Poço da Panela. Como fiquei cinco domingos sem jogar, me faltou ritmo de jogo. Tudo bem, eu confesso – joguei mal mesmo.

Combinei com minha amiga que a lista só poderá ter 20 itens para não cansar muito.

E ontem, quando já estava com 18 coisas-para-fazer anotadas, percebi, junto com a minha amiga, que várias coisas que pretendo fazer, antes de morrer, são possíveis. Tem gente, acredito, que aproveitaria os nove meses restantes para pedir demissão do emprego, mudar de vida, viajar, fazer um monte de coisas que nunca fez, aquele negócio de tudo ao mesmo tempo agora. A morte no horizonte seria o “cria-coragem” para viver melhor.

Minha lista é feita praticamente de gente, lugares e algumas pendências não muito complicadas, penso. Além disso, alguns prazeres formidáveis. Não há nada de milagroso ou fora do horizonte das possibilidades

Há pessoas incandescentes que encontrei nesta vida e gostaria de reencontrar. Não se trata daquele negócio de falar coisas que não foram ditas, de fazer inventários dos erros, dos pedidos de perdão etc. Somente reencontrar, compartilhar a presença, ver os olhos, desfrutar do sorriso, saber como anda a vida, se tem sido feliz, com o que andou chorando, rindo. É que tenho gente do meu mundo espalhada pelo mundo…

Há coisas que não dependem só de mim, e esta é a parte mais difícil. Ver meu time ser campeão, por exemplo, depende daqueles 11 sujeitos que entram em campo. Eu só posso mesmo gritar, da arquibancada, pedindo um gol, pelo amor de Deus, um mísero gol decisivo, de qualquer lugar do campo, a qualquer minuto, desde que aconteça de verdade, e o juiz não anule, e eu não volte para casa com a bandeira enrolada, o coração geladíssimo.

Teria algumas saideiras porque saideira é um negócio fundamental para a espécie humana. Alguns lugares eu iria pela última vez para lamber com os olhos, respirar as cores, escutar as vozes e guardar. Movimentos opostos no mesmo momento – guardar, dando adeus. Algumas saideiras com pessoas também. Encontraria pela última vez, para lamber com os olhos, respirar o rosto, escutar a voz e guardar. Dar adeus guardando no coração.

Como gosto de ampliar minhas leseiras, fiquei pensando como seria o mundo se todo ser humano fosse informado, nove meses antes, que iria morrer. O que mudaria? Era como se o tempo no útero, de preparação para chegar ao mundo, tivesse o outro lado.  A preparação para a saída. Nove meses para chegar ao mundo, e outros nove para sair. Deveríamos ter esta chance, não? Acho que seria o tempo do último aprendizado.

Talvez o desamor fosse menor, os infortúnios abrandassem, as pessoas se maltratassem menos por coisas pequenas. Os amargos, creio, encontrariam um tempo de doçura. Os cruéis descobririam que não são eternos. Os intransponíveis abririam frestas. Relativizaríamos as coisas do cotidiano, creio. Ah, mas eu sei lá o que pensam os amargos, os cruéis, os intransponíveis?

Sei que a minha listinha está aqui ao lado e estou me divertido muito com ela. Essa leseira também ajuda a seguir pela vida.

No final da lista, tem agendada uma baita festa, e garanto que vai ter muita gente bacana dançando – até acabar a festa.

E então começa outra festa.

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