Rebeldia alimentar

por Matthew Shirts

Comer já foi mais fácil. O cardápio era limitado a alguns poucos pratos, o horário mais ou menos fixo. Eram três refeições por dia. Em casa, as grandes questões eram a necessidade de encarar as verduras – cenouras e espinafre e coisas do gênero -, e a de evitar os doces antes da hora do jantar. Na escola, nos Estados Unidos, aprendíamos que era importante ingerir alimentos dos ‘quatro grupos’, carne, pão, frutas e legumes, se não me engano. Nunca aprendi direito, mas me lembro de ter pensado a certa altura da vida que, teoricamente, ao menos, o x-salada era o prato perfeito por reunir os quatro grupos em um formato saboroso e de fácil manuseio que dispensava até o uso dos talheres.

Havia, também, um programa de televisão em torno da nutrição, o cartum Popeye, o Marinheiro. O enredo era sempre o mesmo. Popeye e Brutus brigavam pela Olive Oil (azeite de oliva), chamada aqui no Brasil de Olívia, se não me engano, uma ótima tradução, melhor que o nome original, diga-se. A certa altura da história Popeye abria e consumia uma lata de espinafre, ganhando assim a força muscular necessária para derrotar seu rival corpulento e troglodita, o Brutus, e ficar com a moça. Era um mundo mais simples.

Na minha versão da história, tudo começou a mudar quando eu e meus amigos surfistas descobrimos, na Califórnia do início da década de 70, a comida mexicana. Começamos a preparar nossos próprios alimentos em horários condizentes com as condições do surfe. Combinamos tortilhas, espécie de pão de fubá dos índios astecas, com abacates, queijos, tomates e pimentas. Aproveitamos também alguns alimentos do movimento hippie, como brotos de feijão. Era uma forma – branda, sem dúvida – de rebeldia. Deixamos de sentar à mesa com a família. Desprezamos alimentos tradicionais americanos como batatas e bifões. Preferimos sobremesas tropicais, ainda difíceis de encontrar, mesmo na Califórnia, como mangas e mamão. Sonhamos em passar o resto da vida viajando em busca da onda perfeita. Muitos se tornaram vegetarianos. Alguns, militantes. Unhappy Meals,nou refeições infelizes, e foi escrito por Michael Pollan. Conta elenque, em 1977, instigado por um aumento alarmante em doenças ligadas andieta, um comitê do Senado dos EUA liderado pelo George McGovernnresolveu investigar os hábitos alimentares americanos. O comitê notounque depois da Segunda Guerra as taxas de doenças coronárias aumentaramnbrutalmente em comparação com as de culturas de dietas tradicionaisnbaseadas mais em plantas e menos em carne e laticínios. E fez umanrecomendação simples: menos carne e laticínios.

Para quê? O quendeveria ter sido um relatório burocrático incontroverso gerou umnminiescândalo em Washington D.C. Os lobbies dos fazendeiros forçounMcGovern (que apoiara, com a mesma pureza de espírito, anos antes, andescriminalização da maconha) a bater em retirada. Mudou-se anlinguagem, trocando a recomendação inicial para: 'escolha carnes, avesne peixes com baixos teores de gordura saturada'.

E assim nasceuno que Pollan chama de 'nutricionismo'. A partir daí a dieta dosnamericanos passaria a ser um assunto para especialistas, para aquelesnque sabem o que é gordura saturada, sem falar de gordura 'trans',nomega-3, carboidratos, beta caroteno e antioxidantes. A confusão foi ené geral. Hoje, nos EUA, existe até cerveja com baixo teor dencarboidratos. Ninguém entende mais nada. Como escreveu, certa vez, JoãonUbaldo, ainda vão descobrir que o bacon faz bem. Já se sabe que on'nutricionismo' faz mal.“,1] ); //–>

Descobri na semana passada, num artigo fascinante do New York Times, que esta era apenas uma pequena parte da história, um rodapé, se quiser. Os hábitos alimentares mudaram de fato nos Estados Unidos a partir da década de 70, mas nós, jovens surfistas da Califórnia, pouco ou nada tínhamos a ver com a história.

O artigo se chama Unhappy Meals, ou refeições infelizes, e foi escrito por Michael Pollan. Conta ele que, em 1977, instigado por um aumento alarmante em doenças ligadas a dieta, um comitê do Senado dos EUA liderado pelo George McGovern resolveu investigar os hábitos alimentares americanos. O comitê notou que depois da Segunda Guerra as taxas de doenças coronárias aumentaram brutalmente em comparação com as de culturas de dietas tradicionais baseadas mais em plantas e menos em carne e laticínios. E fez uma recomendação simples: menos carne e laticínios.

Para quê? O que deveria ter sido um relatório burocrático incontroverso gerou um miniescândalo em Washington D.C. Os lobbies dos fazendeiros forçou McGovern (que apoiara, com a mesma pureza de espírito, anos antes, a descriminalização da maconha) a bater em retirada. Mudou-se a linguagem, trocando a recomendação inicial para: ‘escolha carnes, aves e peixes com baixos teores de gordura saturada’.

E assim nasceu o que Pollan chama de ‘nutricionismo’. A partir daí a dieta dos americanos passaria a ser um assunto para especialistas, para aqueles que sabem o que é gordura saturada, sem falar de gordura ‘trans’, omega-3, carboidratos, beta caroteno e antioxidantes. A confusão foi e é geral. Hoje, nos EUA, existe até cerveja com baixo teor de carboidratos. Ninguém entende mais nada. Como escreveu, certa vez, João Ubaldo, ainda vão descobrir que o bacon faz bem. Já se sabe que o ‘nutricionismo’ faz mal.

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