do Digestivo Cultural, por Gabriela Simionato Klein


Mother and Child, Gustav KlimtQual a hora certa para ter um filho?
Não importa quão cheia de atividades seja a vida de uma mulher, mas ela lida, consciente ou inconscientemente, a cada mês, com a possibilidade de ser mãe. Está bem, excluo aqui as que fazem tratamento para suprimir a menstruação, mas a questão é que ser (ou não ser) mãe é uma decisão que se renova no mínimo mensalmente, junto com o útero.

E é numa destas voltas do ciclo da vida que você pode se ver exigindo uma resposta definitiva. Justamente o que aconteceu comigo. Casamento indo bem, vida com altos e baixos – mas se encaminhando, tempo passando e, discretamente, fui preparando o terreno para criar, conceber, engravidar, ou como acho lindo em uma das versões em inglês: ficar pregnant, que serve tanto para dizer que se está esperando um bebê quanto para indicar que se está repleta de idéias muito significativas.

Como é possível notar, eu escolho as palavras com cuidado. E se digo discretamente é porque camuflei os preparativos para esta nova fase até para mim mesma. Comecei tomando uma vitamina, só para manter a saúde. Como se não fosse nada a dosagem caprichada de ácido fólico. Aí decidi me vacinar contra rubéola, só para não deixar para depois. Comecei a me interessar em ler e ver tudo sobre gravidez e bebês. E logo estava no meio de uma conversa mais séria com o parceiro sobre ter filhos, papo que começou como brincadeira e se aprofundou em discussão acalorada.

Mas uma vez que o tema entra em pauta, o pior é encarar as suas próprias objeções. Do que você tem medo afinal? E a resposta a esta pergunta veio rápida: de tudo, mas principalmente de mim mesma. Fui tirando receio por receio, um de cima do outro, desvendando as múltiplas camadas desta grande questão. E lá no fundo encontrei algo assombroso. Estava logo embaixo do pânico de não amar meu bebê, ao lado do horror de imaginar as conseqüências de minhas neuroses na vida de uma criança e disfarçado em meio a um mosaico de apreensões (O que eu faço se ele chorar? E quando eu estiver cansada? O papel de mãe vai soterrar a minha personalidade?) Foi neste exato ponto que encontrei o maior dos meus temores: o de deixar de ser absolutamente sozinha.

É, isto mesmo. Com tanta gente com medo da solidão inerente ao ser humano, num mundo em que pessoas até resolvem ter filho para deixar de ser só, eu invento de me acovardar justamente de deixar de ser só. Porque afinal, a gente sai da casa dos pais, se distancia de amigos, troca de emprego ou profissão, transforma marido em ex, mas filho é para sempre. E imagine como a força desta relação aparece para alguém que vê como regra e com um certo alívio que na vida tudo é mutável.

Agora como eu supostamente devo lidar com isto? Sei por experiência de vários embates que agüento o tranco de muita coisa pesada. Mas minha coragem se vai quando imagino que meu filho poderia ter que passar pelas mesmas provas. Vergonhosamente, perco aí toda fé e confiança no divino. Minhas múltiplas cicatrizes passam de medalhas de honra a sinais dos perigos do mundo. É como, já escaldada pela vida, entregar o coração de bom grado para outro ser carregar e ficar assistindo de longe o portador subir na corda bamba pela primeira vez.

E isto me corrói, da mesma maneira que é corrosiva esta minha vontade de ver a minha história se expandir em uma outra vida e finalmente entender a intensidade dos sentimentos estampada no rosto das mães. Elas se juntam, desabafam, mas continuam. Quero entrar no clã! Será que agüento?

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Publicado originalmente no portal Desabafo de Mãe.

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