“Reconheço a justeza de todos os pleitos bolivianos”

por Reinaldo Azevedo

Eu não esqueço que somos chefes de Estado de países soberanos, que precisamos agir como chefes de Estado, cada um em defesa de seu país; mas, antes de ser presidente da República, tu, na Bolívia, e eu, aqui no Brasil, nós éramos companheiros no movimento sindical, e não podemos permitir que essa nossa primeira relação seja diminuída porque hoje somos presidentes“.

É Lula, diante do, bem…, presidente boliviano, Evo Morales, justificando a elevação do preço do gás. Se vocês querem ter uma dimensão do tamanho e da importância do Brasil no mundo, peço que façam um exercício: imaginem um presidente americano, qualquer um, que dissesse dever mais fidelidade à sua condição anterior do que à Presidência da República. No dia seguinte, o Congresso proporia uma moção de impeachment. E ele iria pra casa.

No Brasil, faremos o quê? Ora, a regra será poupar Lula de si mesmo, tentando emprestar à sua fala um sentido diverso daquele definido pelas palavras. Não tenho memória — e duvido que alguém tenha, valendo também a memória bibliográfica — de nada parecido. Creio que “nunca, antes, nestepaiz”, um presidente ousou dizer que o cargo, se exercido plenamente, diminuiria a sua biografia. No mínimo, atenta contra o artigo 85º da Constituição, que prevê que é responsabilidade do presidente a segurança interna no país. Exagero? Não meu. Estou me atendo ao que Lula disse. Eu sei que ele é só o presidente da República. É que sou um formalista.

É um acinte. Mas, é claro, as oposições devem silenciar a respeito. Nesta sexta, o Congresso já estará esvaziado. Depois vem o ziriguidum-balacobaco-telecoteco, e tudo vai ficando por isso mesmo. Posso propor um exercício ainda mais próximo: e se FHC, a seu tempo, tivesse dito a um outro presidente: “Somos partidários da social-democracia. Não podemos permitir que essa nossa relação seja diminuída porque somos hoje presidentes”. E, para o paralelo ser perfeito, seria necessário que este chefe de Estado estivesse fazendo o que Evo fez aqui: batendo a carteira do país em algo entre US$ 75 milhões e US$ 100 milhões. A vulgata do petralhismo jura que entregamos as estatais a preço de banana durante o governo tucano, o que é mentira já tantas vezes demonstrada aqui com números. Lula inovou: dispensou as bananas. DEU a Petrobras à Bolívia e ainda permitiu que o país rasgasse um contrato.

A história de que o Brasil paga, agora, o justo pelo gás despreza os investimentos feitos naquele país. A Argentina tem de pagar o valor de mercado: é só uma compradora. Nunca investiu lá um alfinete. O Brasil está sendo tungado. Mas prestem atenção: a tunga é contra o país, contra os brasileiros. Lula não está sendo surpreendido. Ao contrário: Evo Morales faz parte de um projeto político do Foro de São Paulo — órgão fundado pelo brasileiro, que reúne partidos e organizações de esquerda da América Latina — e da corrente terceiro-mundista do Itamaraty — eles se dizem defensores das relações especiais “Sul-Sul”, tentando tirar a poeira de suas convicções, emprestando-lhes algum lustro moderninho.

Essa minha crítica é ideológica? Bem, eu não tenho medo do termo e acho que o discurso ideológico é parte do debate político. Está para ser provado, então, que aplaudir o “acordo” com a Bolívia não é ideologia. Ou “ideológico” é só aquilo de que a gente discorda?

(enviado por email)

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