O porteiro e o capitalismo

do Estado de S. Paulo, em 5 de fevereiro de 2006

Quando me encontrei com o professor Antônio Pedro, mais conhecido como Tota, na ilha da Avenida Sumaré para fazer o nosso cooper, ele estava dando risada.

Não era daquelas escancaradas, mas dava para perceber que ainda se divertia com um incidente qualquer.

– O que foi?, perguntei, fingindo irritação, para ver se apressava a resposta. Sabia, só de olhar para o professor, que ele iria demorar para contar a história.

– Pois é, agora ferrou tudo, não falei para você que tinha ferrado?

Na verdade, ele já me dissera isso muitas vezes. Sempre que a gente se encontra, Tota faz o papel de apocalíptico. Sou eu o integrado, para ficar na terminologia lançada há décadas pelo italiano Umberto Eco. O que significa, em linhas gerais, ao menos, que o professor avalia o movimento da história do mundo em termos pessimistas. Eu tendo a ser mais otimista.

– Sabe o porteiro do meu prédio?

– O Elivelton, sei -, respondi.

– Ontem lhe emprestei um livro meu, aquele primeiro, antigão, didático, de história geral, para ele fazer um trabalho escolar.

– Ele ainda estuda?

– Estuda. Faz madureza, supletivo, algum curso desses, à noite.

– Que ótimo. Qual é o tema?, perguntei.

– O capitalismo.

– Sei – respondi, já um pouco desconfiado do que vinha.

– Mas agora, quando passei lá na portaria, ele me devolveu o livro. Disse que não iria mais precisar.

– E por quê?

– Porque – disse Tota, parando para uma pausa de efeito – ele descobriu que esse negócio de livro já era. Não tem mais necessidade. Foi o que ele me disse. Já tem tudo pronto dentro do computador, segundo ele.

A essa altura do cooper foi necessário interromper a conversa e prestar atenção ao trânsito, para conseguir atravessar uma rua qualquer sem sobressaltos. Nessas horas, costumamos correr mesmo. Monteiro Lobato dizia, já na década de 1920, que existem duas classes sociais no Brasil, os motoristas e os pedestres. A afirmação é válida ainda hoje. E a luta de classes não dá sinais de amenizar-se.

– Como assim, Tota, tem tudo pronto dentro do computador?, emendei, depois de ter negociado a travessia da rua.

– Acho que ele se referia à internet. E disse mais: se o computador viesse com impressora, o trabalho escolar já saía pronto. Daí que não precisava mais do meu livro.

Tive de dar risada também. De certa forma, o porteiro não deixava de ter lá alguma razão, por mais torta que fosse.

– E você acha bonito isso, não é?, continuou o professor, provocando. – É o progresso, certo? O mundo todo ligado à internet, imprimindo a bobagem que estiver lá dentro para levar à escola. Ferrou. Tô falando para você que ferrou tudo.

Não era só isso que eu achava, é claro. Mas creio que é interessante, confesso, o porteiro ter acesso tão fácil a tanta informação. Isso se ele conseguir um computador, é claro. Mas com as lan houses e os internet cafés não é impossível. Tendo a ser mais ‘integrado’ mesmo, como disse. Pensei até em teclar a palavra capitalismo no Google quando chegasse ao trabalho para ver no que dava.

Um pouco mais tarde, depois de ter-me despedido do professor, lembrei de uma história brasileiríssima que já ouvira narrada da mesma forma com protagonistas os mais diversos. Segundo Mario Prata, aconteceu com Millôr Fernandes. Este se dedicava à tradução de uma obra de William Shakespeare, em casa, ainda no tempo da máquina de escrever, quando resolveu chamar um pintor para dar um jeito nas paredes, que estavam precisando. Certo dia, no fim do expediente, Millôr abriu uma cerveja e perguntou ao pintor se não queria tomar um copo também. Este aceitou o convite, guardou suas ferramentas, lavou as mãos e sentou-se à mesa com o escritor. Depois de uns goles, em tom de reflexão, saiu-se com esta: ‘Sabe, seu Millôr, se eu soubesse bater à máquina, também não trabalhava.’

Pelo jeito, o Elivelton é da mesma escola.

por Matthew Shirts

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