Maria Lenk, 92, nadadora e pioneira

da Folha de São Paulo, em 17/04/2007

Primeira sul-americana a disputar Olimpíada, em 1932, morre no Rio após passar mal em treino na piscina do Flamengo

Na ativa até o último dia, atleta fez história como difusora de estilo e é a única brasileira no Hall da Fama da federação internacional

FABIO GRIJÓ e MARIANA BASTOS/SÉRGIO RANGEL
DA REPORTAGEM LOCAL/DA SUCURSAL DO RIO

Maria Emma Hulda Lenk Zigler se aventurou nas águas -ainda límpidas- do rio Tietê, em 1925, aos 10. Aprendeu a nadar com o pai alemão, Paul, ex-ginasta, para se recuperar de pneumonia. “Era uma maravilha, havia até peixinhos”, dizia.

Com o tratamento, começou uma história de pioneirismo no esporte sul-americano que terminou ontem. Na piscina.

Lenk, 92, morreu no início da tarde após ter desmaiado enquanto treinava na sede do Flamengo, no Leblon (zona sul do Rio). O corpo continuará sendo velado no clube até às 16h de hoje. Será cremado amanhã.

Como fazia todos os dias da semana, ela realizava uma sessão de treinos no Flamengo -nadava 1.500 metros.

Lenk morreu no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, zona sul do Rio. Ela passou mal por volta das 10h, foi retirada da piscina e medicada no clube. Em seguida, foi levada de ambulância para o hospital.

Segundo boletim médico divulgado ontem, a nadadora apresentava alteração do nível de consciência, insuficiência respiratória e quadro compatível com choque circulatório.

Exames complementares detectaram que Lenk sofreu um rompimento da aorta torácica. Em seguida, teve uma parada cardíaca. Morreu às 13h.

Parentes da nadadora disseram que ela gostava de treinar na praia do Leblon. Ela vivia só num apartamento do bairro. Seus dois filhos moravam nos EUA. No ano passado, ela fraturou uma das pernas e ficou cinco meses sem entrar na água.

Nascida em São Paulo no dia 15 de janeiro de 1915, Lenk foi a primeira mulher sul-americana a disputar a Olimpíada, em Los Angeles-32. Com maiô emprestado de lã, competiu nos 100 m livre, 100 m costas e 200 m peito -nesta competição, alcançou as semifinais olímpicas.

Ela saiu do Rio um mês antes dos Jogos, numa viagem de navio da Marinha Mercante até a costa dos EUA. Era a única mulher ao lado dos 66 atletas brasileiros. Na embarcação, Lenk treinava num tanque, amarrada por uma corda na cintura.

Em 36, nos Jogos de Berlim, ao competir no estilo peito, apresentou uma inovadora braçada fora da água -na ocasião, adotada só por homens. Ajudou, assim, a difundir o nado borboleta, oficializado em Olimpíadas em Melbourne-56.

Em 39, bateu dois recordes mundiais, no Rio: 200 m peito (2min56s90) e 400 m peito (6min15s80). Preparava-se para os Jogos de Tóquio-40, que acabaram cancelados em conseqüência da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). “Foi uma grande decepção”, falava.

Ao deixar as competições, em 1942, auxiliou na fundação da Escola Nacional de Educação Física, da Universidade do Brasil, atual UFRJ (Universidade Federal do Rio). Aposentada como professora, retomou a carreira como master. “Redescobri a natação”, contava Lenk.

A brasileira entrou para o Hall da Fama da Fina (Federação Internacional de Natação) em 88. No mesmo ano, foi homenageada pela entidade com o “Top Ten”, por ser uma das dez melhores atletas masters .

Em 2000, levou cinco medalhas de ouro no Mundial da categoria 85-90 anos: 100 m peito, 200 m livre, 200 m costas, 200 m medley e 400 m livre.

 

Maria Emma Hulda Lenk Zigler
(1915-2007)

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