As pontes místicas do Maranhão

Crônicas do Tutty, em Nomínimo – 24/05/2007 

Num país em que prostituta se apaixona, traficante se vicia e até o Ancelmo Gois coleciona dedal, francamente, não chega a ser assim tão surpreendente o advento de um empreiteiro budista. Nada mais é esquisito no Brasil. Pra começar o cara se chama Zuleido e deu à sua empresa a razão social de Gautama, sobrenome de Sidarta, o Buda. O bigode à la Charles Bronson e o apelido ‘Mexicano’ são laicos, nada a ver com o lado espiritual deste paraibano da Bahia que nos foi apresentado no sopetão do noticiário já indo em cana, botando dinheiro pelo ladrão,

Protagonista da Operação Navalha, Zuleido Veras construiu em tempo recorde patrimônio e reputação de dar inveja ao Marcos Valério. Paralelamente à lambança regulamentar dos grandes escândalos financeiros no Brasil, o da vez tem o fascínio místico de uma trapalhada com enredo budista. Quem quiser se aborrecer que vá ler o noticiário, nos interessa aqui um hipotético perfil zen do corrupto, e sua lógica espiritual incontestável: se você parar pra meditar profundamente sobre o que está acontecendo, vai acabar aderindo e até liderando a pouca-vergonha.

Sem querer defender o indefensável, não é difícil justificar o conceito místico daquelas pontes no Maranhão ligando nada a porra nenhuma. Afinal, como está escrito até no cardápio do Via China, “do nada viemos e ao nada voltamos”. O budismo é isso: a ponte entre o materialismo e o espiritualismo. Um bom advogado de defesa – o que decerto não faltará a Zuleido – sustentará que aquilo que chamam de malversação do dinheiro público num matagal maranhense é na verdade a “ponte” entre as hierarquias espirituais mais elevadas e o plano da espiritualidade humana.

Imagina só um Michel Assef no caso: “O Zen Budismo, meretíssimo, é uma tentativa de se levantar uma ponte do irreal até o real.” Está dando para visualizar a cena? “Muitos de nós, senhores jurados, andamos tentando construir essa ponte entre a existência e a essência de nossa humanidade. O Zuleido a construiu no Maranhão!”

O Google está cheio de referências a essas pontes místicas que viraram karma para o empreiteiro. Aprendi pesquisando que a teoria dos chacras nada mais é que uma ponte para a consciência interior. Zuleido talvez tenha sido pego em pleno processo de purificação para estabelecer essa tão sonhada ponte de transição da virtude para a concentração. Duvido que o Ancelmo Gois tenha explicação melhor para a sua coleção de dedais.

Sobre o fantástico enriquecimento de Zuleido Veras, como bom budista que é, o empreiteiro pode alegar uma velha simpatia que circula no ciberespaço tântrico:

Coloque a imagem do Buda no centro de um prato branco fundo em cima da geladeira. À sua volta, vá depositando todas as moedas que entrarem em casa. Buda devolverá em dobro o que lhe derem.

Para terminar, um ensinamento de Sidarta Gautama: “A vida é uma ponte, não construas pois casas sobre ela”. Regra cósmica que, justiça seja feita, Zuleido Veras jamais transgrediu.

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