No celular ninguém é normal

por Tutty Vasques, em Nomínimo

09.06.2007 |  A sociedade brasileira vive um pesadelo aterrorizante. Lá está você chegando do trabalho, aparência exausta, cumprindo todo o ritual de entrar em casa, trancar a porta, acender as luzes, verificar a correspondência, dar comida aos peixes, ligar a TV e aí, bem, é aí que o sonho de se transforma em pesadelo. É a sua voz ao telefone, não resta dúvida, você está no “Jornal Nacional”, olha lá: é a sua fotinho na metade superior da telinha dividindo o quadro com o 3 x 4 de seu melhor amigo. Legendas ajudam a entender melhor o que vocês conversam ao celular:

E aí, beleza?

– Tudo em cima.

Vai rolar a parada?

– Tô achando que vai melar.

Pô, cara, você está me devendo essa há um tempão.

– O chefão está jogando duro comigo.

Diz pra esse mané que eu vou mandar meu pessoal aí dar um jeito nele (risos).

– Te ligo mais tarde dando uma posição.

Té mais!

(Corta!)

No sonho, você aparece na cena seguinte cercado de microfones, tentando explicar que o grampo autorizado pela Justiça flagrou o acerto de contas para um jantar entre velhos camaradas, mas os repórteres insistem:

– Que “parada” é essa a que o senhor se refere?

A parada era um jantar.

– E o que ele está te devendo, como o senhor disse, “há um tempão”?

O jantar, ele estava me devendo um jantar desde…

– O tal “chefão” é o cabeça da organização?

Não, não, é o chefe do meu amigo na firma onde ele trabalha…

– Que “jeito” é esse que o seu pessoal daria nele?

Não tenho pessoal nenhum, só estava brincando com a idéia maluca de mandar matar o chefe de um amigo que não o libera do trabalho para sair contigo. (Irritado). Eu estava de sacanagem com um velho amigo ao telefone. Será que vocês não têm celular? Nem amigos?

Os repórteres perguntam agora todos ao mesmo tempo enquanto você é conduzido para o camburão da Polícia Federal. O pesadelo acaba com o baque da tampa da caçapa se fechando e interrompendo bruscamente o falatório dos jornalistas. Breu. Sobressalto na cama, corpo suado, baba na fronha, alívio. Você nunca esteve no “Jornal Nacional”

Nunca esteve, mas sua estréia no horário nobre pode ser questão de tempo. Pela quantidade de gente que andam prendendo com base em escutas telefônicas – li dia desses no blog do Guilherme Fiuza que alguns grampos duram mais de 1 ano –, fico imaginando o tamanho do centro de escuta da Polícia Federal. Maior decerto do que o call center do Shoptime. Um dia, mais cedo ou mais tarde, te pegam.

E atire logo a primeira pedra quem nunca disse ao telefone barbaridades muito mais escabrosas do que essas que viram notícia nos telejornais da noite. Vamos lá, tente se lembrar das conversas que costuma manter com os mais íntimos. Metade dos meus amigos estariam comigo na cadeia se grampeassem os papos que levamos no viva voz naquela hora em que estamos todos presos no trânsito.

Não estou aqui a defender esses que usam o celular para malversar o dinheiro público, mas, se quiser decifrar corretamente o material grampeado, os agentes federais precisam levar em conta os códigos de amizade que permeiam certas conversas telefônicas. Ou todo mundo, em algum momento, vai parecer bandido como esses com a voz exposta no “Jornal Nacional”. Como diria Caetano Veloso, no celular ninguém é normal.

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