De cima da goiabeira

Do Digestivo Cultural

Diz a lenda familiar que, quando o telefone tocou na casa de número 473 da rua Horácio Lafer, na manhã de 24 de agosto de 1977, anunciando meu nascimento, minha avó tirou meia goiaba da mão do meu tio Guelé e enterrou-a no jardim. Diante do olhar estupefato dos tios e de meu avô, Loli, minha avó, anunciou, orgulhosa, brandindo a pazinha vermelha: “nasceu meu primeiro neto e essa vai ser a goiabeira dele!”. De fato, foi. Passei boa parte da infância trepado nela.

Se meu tio estivesse chupando uma laranja ou uma manga, minha infância teria sido seriamente afetada. A goiabeira é uma árvore generosa com as crianças: os galhos saem do tronco a pouca altura, finos o suficiente para agarrar-se neles na subida, mas firmes o bastante para sustentar uma pessoa – ou mais, caso eu concedesse a algum primo, amigo ou irmã o privilégio de desfrutar dos braços de minha (minha!) árvore.

Enquanto eu ficava ali em cima, a catar goiabas, matar sadicamente taturanas e espiar o quintal do vizinho, minha avó cuidava do resto do jardim e conversava comigo. “Olha só, uma bem gorda aqui, Antonio!”, dizia ela, e eu descia correndo para estourar aquelas bolotas cheias de sementes das Marias-sem-vergonha. Gostávamos também de colher framboesas ou morangos silvestres, que ela transformava em geléias e tortas.

O jardim era uma experiência tátil, gustativa, mas principalmente afetiva: era a sala de estar da Loli, o lugar onde ela ficava (e fica ainda) à vontade, com sua pazinha nas mãos, me contando de sua infância em Paquetá, sua vida de estudante nos Estados Unidos e me dando as primeiras lições de subversão – “quem quer fazer besteira não pede licença”, dizia ela, diante de alguma proposta mais heterodoxa de minha parte, como fazer uma fogueira na sala ou pintar o carro do vovô Mario com canetinhas hidrocores.

A goiabeira teve uma morte trágica e prematura: foi assassinada por uma escavadeira – a serviço de uma grande construtora, que achou por bem derrubar um quarteirão de casas geminadas e seus jardins para plantar ali um horrível prédio bege, estilo neoclássico. (Tanto a escavadeira como o mandante – a construtora –, continuam vergonhosamente em liberdade).

Após a demolição da casa da Horácio Lafer, no Itaim, meus avós se mudaram para os cafundós do Morumbi. Nos anos oitenta, isso era quase como ir morar no Xingu. A rua de terra tinha só duas casas, o resto era mato, com cobra, preás e plantas, que eu ajudava a Loli a catar, em verdadeiros safáris botânicos. Depois voltávamos para seu jardim e plantávamos o que havíamos colhido: flores do campo, samambaias, avencas, trepadeiras… Como o interesse dos expedicionários não se restringia ao reino vegetal, chegamos a capturar um preá, com a arapuca feita pelo Zé Baiano, caseiro, meu companheiro de caçadas e pai de Genicleuson e Cleudma. (Também achei e criei um filhote de jararaca, numa caixa de All Star. A moça do Butantã, para onde liguei perguntando o que a cobrinha poderia comer, caso eu não tivesse à mão nenhum camundongo, se limitava a gritar que eu deveria levar a Jararaca imediatamente ao instituto e passar o telefone para algum adulto responsável. Soltei a cobra, dias depois, no mesmo lugar do mato em que a tinha achado, para desespero da minha avó).

A maneira como a Loli lida com as plantas é muito peculiar. Os jardins dos outros são, geralmente, organizados. Uma espécie de triunfo do homem contra a natureza – como se quiséssemos tripudiar da floresta, que por milhares de anos nos amedrontou e nos fez sofrer, vendo-a agora ali, restrita a um pequeno espaço, refém de pás, tesouras e da geometria. Os da minha avó são mais um diálogo do que um domínio. Nada daquele cartesianismo careta de canteiro com cara de tabela pantone: vermelhos aqui, azuis ali, brancos acolá. Seus quintais sempre tiveram uma mistura um tanto anárquica de plantas e flores, uma harmoniosa confusão que faz lembrar mais a Terra do Nunca do que aquelas monotonias vegetais de Versailles. (Aliás, aprendi desde cedo que a poda – esse tipo de poda ornamental, que transforma arbustos em muretas e deixa as árvores parecendo um cotonetão –, é crime hediondo, inafiançável, cujo autor deve queimar eternamente nas chamas do inferno). Percebi com a Loli e suas plantas que a desorganização e o imponderável também são virtudes. Uma visão jazzística da jardinagem, podemos dizer.

Além da mistura, aprendi no quintal, com a minha avó, a desrespeitar a hierarquia. Em suas casas a orquídea não pode mais que a Maria-sem-vergonha, uma florzinha do mato talvez tenha lugar de destaque e, se uma Costela de Adão resolver cantar de galo e fizer sombra sobre as Margaridas, pode sentir a fria repressão da tesoura. Até musgo e erva daninha, se forem jeitosos, cabem.

No início dos anos 90, cansada de morar em uma casa com jardim no fundo, Loli resolveu inverter a equação e morar num enorme jardim (com uma casa na frente), ou seja: um sítio. Fez ali a Pousada da Alcobaça e um jardim que, descontando a ausência de Adão e Eva – serpentes certamente há –, não deve nada ao Éden.

Há uns anos, moro num apartamento térreo, com quintal, e aos poucos vou povoando-o com plantas. O grosso veio do Ceasa, comicamente espremido dentro do meu Ford Ka, mas toda vez que vou a Petrópolis, relembro as missões botânicas do Morumbi, passeando com a Loli pelo jardim e recolhendo mudas para trazer. Tenho alguns jasmins floridos e revoltados (eu coloco fios para eles se enrolarem, mas sempre preferem outros caminhos), muitas Marias-sem-vergonha (com suas bolotas explosivas), um limoeiro e um pé de mexerica preguiçosos (com pouco mais de um metro cada e, ao que parece, sem muita vontade de crescer mais que isso), um alecrim imbatível (na época em que as malditas colchonilhas atacaram todas as plantas, ele saiu incólume), uma azaléia parcimoniosa (em vez de florir-se toda na primavera, dá flores aos poucos, ao longo do ano), manjericões verdes e roxos, uma jardineira cheia de manjerona (foi engano, só descobri que não eram manjericões na primeira garfada de um frustrante macarrão ao pesto), um elegante Pacová (presente de minha amiga Gisela) orquídeas, primaveras, glicínias, violetas e muitas outras plantas.

Há um ano, entrei no Google Earth pela primeira vez. Fiquei abismado ao ver a Terra, girando aos comandos do meu mouse, como um melãozinho de Mossoró sendo avaliado no supermercado. Fui dando um zoom nas Américas, então no Brasil, cheguei em São Paulo, depois na PUC, peguei minha rua, encontrei meu quintal e, para a minha surpresa, vi pequenos pontinhos escuros nele: eram minha azaléia, meus jasmins e manjericões, minhas plantas fotografadas do espaço! Me dei conta, então, de que o único sinal de minha existência na Terra, visto do céu, são as plantas do meu jardim.

Apesar de minha empolgação cósmica, sinto que meu quintal está incompleto. Falta-lhe uma goiabeira. Acho que ainda não plantei uma por respeito – não se enterra uma goiaba assim, sem nenhuma razão especial. Talvez, pensando bem, não possa ser eu a plantá-la. Quem sabe, daqui uns anos, quando o telefone tocar no número 44 da Rua Itacolomi, anunciando o nascimento do meu primeiro filho, minha mãe não tire uma goiaba meio comida da boca do meu padrasto e a enterre, seguindo assim a tradição familiar? Meu filho merece uma goiabeira para subir e, embaixo dela, uma avó como a que eu tive, a mostrar o seu jardim, as bolotas de Maria-sem-vergonha, a subversão, a importância das framboesas, a arbitrariedade da hierarquia, o jazz e outros acontecimentos fundamentais da nossa vida.

Por Antonio Prata

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado numa edição do ano passado da revista Vogue.

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