Flor da China (e seus três maridos)

Do site da BBC Brasil, por Lucas Mendes

Lucas MendesEla me procurou com um bilhete de apresentação do maior fotógrafo de moda do Brasil de quem tinha sido modelo e amante. Foi no começo dos 70.

Era chinesa, linda, não tão magra como outras modelos e, infelizmente, nem tão alta.

Foi o ingrediente que faltou na carreira novaiorquina mas ela não murchou. Achava a profissão uma bobagem.

Com o tempo ficamos íntimos. Era uma Flor. Tinha nascido em Pequim e quando seus pais foram para as Filipinas fugindo de Mao ela foi deixada num internato de freiras em Hong Kong até que as coisas se ajustassem.

Foi só na adolescência que foi reencontrá-los, em São Paulo. Depois de oito anos de uma fracassada aventura comercial no Brasil, os pais voltaram para as Filipinas e ela veio para Nova York.

A primeira vez que saímos foi para um recepção diplomática que estava entupida e não tinha ar-condicionado. Ela desmaiou no meio da sala. A Flor era sensível.

Fluente em cinco línguas, inclusive tagalo, era debochada e desbocada em todas. Nunca se intimidava nem deixava histórias pela metade.

Começou um romance sério com meu melhor amigo da época, vizinho e provador de vinho, filho de mãe chinesa e pai alemão, também fluente em várias línguas mas sem a vivacidade da Flor.

Quando o casamento parecia certo, o provador mostrou que não tinha nariz para o bouquet da Flor. Ela fez as malas e foi para as Filipinas.

Lá ela reencontrou um jovem de família rica, também filho de chineses fugidos de Mao, que tinha conhecido em Nova York. Foi o seu primeiro marido e a sua grande paixão.

Entediados pela mesmice sufocante de Manila, contra a vontade das famílias, eles desceram no aeroporto Kennedy com os dois poodles.

O táxi não havia saído do aeroporto quando veio a batida. Só sobrou a Flor, muito despedaçada. Durante quase dois meses num hospital em Queens refizemos a conexão. No circuito dela eu era sempre apresentado como “primeiro amigo”.

Recuperada, conheceu um escritor e roteirista, vinte anos mais velho, com qualidades irresistíveis: bonito, culto, rico e divorciado.

Tinha feito sua fama definitiva na Broadway com a peça Pippin, mas entre as mulheres – e também entre os homens – era sempre citado pelas mulheres com quem tinha dormido, entre elas todo elenco do filme The Group.

Numa festa na casa de um dos mais conhecidos editores de livros dos Estados Unidos, os dois estavam no lindo e vasto gramado quando ela disse:

– Quero fazer pipi.
– E porque não faz?

Ela levantou o vestido chinês, agachou e apoiada na mão dele regou o gramado. Era a mais bela Flor do jardim. O escritor foi o segundo marido.

Ele me disse que nunca traiu a chinesa e também que não tinha mais tanto interesse em sexo. Se fartara.

Ela tinha e, com a bênção dele, começou um affair com um executivo de navegação, quase da mesma idade, também rico com traços de escultura grega, apaixonado por música e esporte. O trio tornou-se inseparável. Quando você convidava o casal para jantar, vinham os três.

Há oito anos a Flor sentiu uma espetada diferente. O exame veio positivo. Depois de sete operações com as maiores sumidades de câncer, a doença ia e vinha, ela decidiu que não queria morrer amante.

Há pouco mais de um ano ela se separou do segundo marido mas sem briga nem divórcio para não perder o seguro e, num banquete inesquecível, com quase 200 amigos ela se “casou” com o navegador.

Há duas semanas fomos jantar com ela e outros quatro casais, os mais íntimos. Estava bonita e falante. O assunto era um livro que tinha acabado ler, The Reluctant Fundamentalist, de um escritor paquistanês, muito crítico da sociedade americana.

Se não fosse pelo maldito coentro no camarão teria sido uma noite perfeita. A mesa dela era sempre uma extravagante combinação de comidas brasileira, chinesa, japonesa e filipina.

Sexta passada, no fim da tarde tocou o telefone. Era o segundo marido:

– O médico e a enfermeira saíram daqui agora. Ela foi sedada e talvez ainda tenha alguns momentos de lucidez.

As dores tinham se tornado insuportáveis e ela optou pela partida.

A Flor estava murcha, a boca aberta, os olhos semifechados. O terceiro marido nos deu uma longa e clínica explicação sobre a decisão e o método do suicídio assistido:

– Depois da primeira dose não há mais volta. Ela podia durar um dia, uma semana, um mês.

Ele nos ofereceu um drink e subiu para o apartamento do segundo marido para fumar um charuto.

Pouco antes da dose definitiva a Flor se lembrou que naquele dia, 22 de junho, há 33 anos se casara com a grande paixão da sua vida, o primeiro marido. Coincidência?

Ficamos ali no quarto, só quatro pessoas. A empregada trouxe os dois poodles para a despedida deles.

Ela abriu os olhos, fez um carinho nos bichos e me olhou e perguntou:

– Você leu o livro?
– Ainda não.

Acho que ela não gostou. Fechou os olhos. Na TV de 50 polegadas a tenista Henin ensinava como bater na bola.

Há duas semanas ela parecia tão bem. Não era um vegetal. Enquanto na minha perplexidade eu ruminava sobre a diferença entre eutanásia e suicídio assistido e se aquilo era legal em Nova York, ela reabriu os olhos e levantou o braço com o dedo apontado para o teto:

-Ei. Ainda estou aqui.

Deu uma risada, fechou e nunca mais reabriu os olhos. Morreu na manhã seguinte.

——————————————————

Deixou instruções para ser cremada e sem nenhum tipo de cerimônia ou reunião de lembranças.

Três dias depois da morte o terceiro marido nos mandou este email a pedido dela:

For last year’s words
belong to the winds
and next year’s words
await another voice
And to make an end
is to make a begining…

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