Quem assistirá a estréia da TV digital?

Por Daniela Moreira, repórter do IDG Now!
Publicada em 30 de novembro de 2007 às 07h00

Zero. A menos de um mês da estréia da TV em São Paulo, o engenheiro norte-americano queria saber quantos receptores tinham sido vendidos pelo comércio à população. A resposta foi uníssona: nenhum. A passagem acima, narrada por Fernando Moraes em “Chatô, o Rei do Brasil”, retrata as vésperas da inauguração da TV Tupi, em 1950, mas poderia muito bem ser transposta para os dias de hoje.

Para resolver o problema da falta de audiência para a estréia da TV no Brasil, o folclórico Assis Chateaubriand mandou contrabandear duas centenas de aparelhos de TV – por vias legais, os equipamentos não chegariam a tempo. Um deles foi direto para o Palácio do Catete, como presente ao presidente Eurico Gaspar Dutra, para resolver os empecilhos alfandegários.

Chatô mandou espalhar os aparelhos em vitrines de lojas por toda a cidade, mas o engenheiro norte-americano contratado para comandar a estréia da TV no Brasil, Walther Obermüller, não deixou de observar: “Quando vocês forem escrever a história da televisão no Brasil vão ter que dizer que no dia da estréia certamente havia mais gente atrás das câmeras do que diante dos receptores.”

A dois dias do início oficial da transmissão digital – mais uma vez em São Paulo -, a história parece se repetir. Os aparelhos não foram contrabandeados, mas também foram trazidos às pressas do exterior para garantir audiência para a estréia da TV digital e também chegaram de véspera – somente nesta semana as lojas colocaram conversores e TVs com receptores nas suas prateleiras.

A indústria não arrisca um palpite sobre quantos aparelhos serão vendidos neste primeiro momento e as emissoras não sabem dizer quem será sua audiência, mas uma coisa é certa: TV digital, por enquanto, é para poucos.

Com o conversor mais barato sendo vendido a 500 reais e as TVs com receptores custando para lá de sete mil reais, dentro do restrito universo que é a região metropolitana de São Paulo, onde o sinal chega primeiro, um grupo ainda mais seleto – aquele, que diga-se, sempre tem acesso às novidades em primeira mão – verá a TV digital nascer no Brasil.

Diante de uma platéia de 1,2 mil ilustres convidados, na pomposa Sala São Paulo, o presidente Lula falará em rede nacional, no domingo, às 20h30, sobre esse momento histórico, acompanhado pela ministra Dilma Houssef e pelo ministro Hélio Costa, que tantas vezes falou em conversores a “100 reais” e já prometeu se empenhar em conseguir um “Conversor para Todos” – um receptor com isenção fiscal e financiamento, que caiba no bolso dos “assalariados”, como ele mesmo definiu.

Até lá, a TV digital fica no ar para “quem tem dinheiro”, como admitiu Marcelo Amaral, vice-coordenador da área de mercado do Fórum SBTVD e diretor de tecnologia da Record. Foi assim também com a TV colorida – como lembrou Costa – nos anos 70 e com tantas outras novidades tecnológicas, do já pré-histórico videocassete ao hoje popular DVD player.

Para se ter uma idéia do ritmo da evolução, em 1970, duas décadas após o lançamento da TV no Brasil, apenas 27% das residências brasileiras tinham TV, sendo que 75% dos aparelhos estavam no eixo Rio-São Paulo. Na início da década seguinte, esse número já saltaria para 55% dos lares com TV.

Mesmo assim, os especialistas apostam que a TV digital pode pegar mais rápido do que se imagina por aqui, a final, “brasileiro adora televisão”, eles dizem. Nove – para arredondar a conta – em cada dez lares brasileiros já têm pelo menos uma TV, o que não impede a indústria de vender 10 milhões de novos aparelhos todos os anos.

Rápido não quer dizer de um dia para o outro. Eventos como as Olimpíadas, no ano que vem, e a Copa do Mundo, em 2010, devem puxar a venda de equipamentos compatíveis com a transmissão digital – afinal, quem não quer ver a seleção canarinho entrando em campo em alta definição? – e ajudar na meta de aposentar o sistema analógico nos próximos dez anos.

A inclusão digital também pode ser um caminho para popularizar a TV digital no Brasil. Como lembrou Hélio Rotenberg, presidente da Positivo (empresa nacional conhecida por vender PCs baratos e, agora, conversores baratos – o aparelho de menor preço do mercado, 500 reais, é deles), o brasileiro tem urgência em se conectar – “hoje em dia tudo é site”, disse um consumidor da classe C, em pesquisa feita pela empresa.

Menos de um quarto dos brasileiros têm acesso a computador e um número ainda menor navega na internet. Quando a interatividade estiver disponível nos conversores – a previsão é de que até o final do próximo ano ela chegue – e os aparelhos custarem os 100 reais prometidos pelo ministro (o que não é impossível, já que na Europa há conversores por 50 euros), as pessoas que não têm 1 mil reais para desembolsar por um computador poderão ter acesso a coisas que já fazem parte da rotina da classe média – como internet banking, por exemplo – a partir da TV.

É justamente para este público que a TV digital realmente pode fazer a diferença. Como muitos leitores apontaram ao longo dos últimos dias, em que o IDG Now! publicou uma série de reportagens sobre TV digital, as classes médias e alta já têm TV digital à sua disposição, por meio dos provedores de TV por assinatura.

Até mesmo a alta definição, que é um dos diferenciais da transmissão digital aberta, será levada aos provedores de conteúdo pago aos seus clientes – para isto, basta oferecer a eles uma nova caixinha, ou set top box, compatível com HD (High Definition).

Para este público, ter uma TV de LCD ou plasma transmitindo na mais alta definição é apenas um conforto. Para quem não tem computador nem internet, ter um conversor que ofereça na sua boa e velha TV de tubo não só uma imagem melhor – sem chuviscos e fantasmas -, mas informação, acesso a serviços e, no final das contas, a tão desejada inclusão digital, é uma revolução.

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