Bem longe

Do Digestivo Cultural

Antes de qualquer coisa, devo dizer que nunca, jamais mencionei o nome de Oscar Niemaier na vida. Nem sei como se escreve. Péra. Ah, sim, é Niemeyer, né? Niemeyer. Enfim, dadas as circunstâncias, é alguém por quem nunca consegui nutrir o mínimo de interesse. Mas, como sempre um mas nos tirando do doce refúgio da razão ― ó doce refúgio da razão ―, mas li há pouco tempo uma entrevista na qual o Oscar Niemmaier, quer dizer, Niemeyer, droga, diz que filosofia deveria ser obrigatória em todos os cursos superiores, pois em vez de gente especializada, teríamos profissionais capazes de pelo menos discutir a vida.

É retardadice, óbvio, mas não é bonito? Gostei muito, um dos poucos textos com menos de duas laudas que acho valer a pena ser usado como tatuagem, mesmo dando um crédito aos professores de filosofia que eu jamais, jamais, jamais daria um dia e ignorando a fantástica incompatibilidade entre discutir a vida e trabalhar.

Não faz muito tempo, trabalhei num escritório em que o departamento de Recursos Humanos indicava para seus funcionários filmes como Jamaica abaixo de zero. Vocês dão risada, mas é sério. No começo parece até meio ridículo, eu sei, eu concordo, mas conforme você vai pensando no assunto, vai relevando as coisas, o negócio todo vai fazendo muito sentido.

Pensei, por exemplo, em quais filmes eu indicaria para os funcionários de uma empresa. Dois segundos depois já concluía que todos os filmes fariam com que os funcionários pedissem demissão na hora. Todos estes filmes certamente fariam com que eles percebessem que talvez não valesse tanto a pena jogar fora toda sua vida dentro de um escritório, cercado por grampeadores e liquid-papers, onde as pessoas fazem coisas com as quais elas não se importam nem um pouco, trabalhando na medida exata para não serem mandadas embora ou chateadas pelo chefe. E isto seria bem ruim para a empresa, suponho logicamente.

Me ocorreu Office Space, ou na tradução bem sugestiva, Como enlouquecer seu chefe. Não é um filme que eu poderia definir como genial, é só razoável, mas tudo está ali: o trânsito infernal de manhã, a secretária mecânica, os relatórios, a impressora que não funciona, o gerente retardado que tenta convencer seus funcionários da asneira de que o trabalho é algo gratificante, como se produzir mais pasta de dente fosse engrandecer o espírito de alguém, os prazos, cafés com pessoas cujas perspectivas da vida não superam a de uma pia, a auditoria, as demissões, enfim, tudo mesmo. Se você caiu neste papo de RH, assista este filme e get a life.

Quer dizer, não estou falando para você parar de trabalhar, afinal, você tem contas para pagar etc., mas este é o dilema no qual toda pessoa que resolve pensar na vida acaba caindo. Quando digo que meu objetivo de vida é parar de trabalhar, fico abismado quando as pessoas me respondem “e vai fazer o quê?” como se não lhes ocorresse nada, nada melhor para se fazer no mundo a não ser aquelas coisas que disse agora há pouco: trânsito de manhã, relatórios, secretárias etc.

O mote do filme é “trabalhar é um porre” e neste instante não consigo pensar em nada mais essencialmente e belamente verdadeiro. O filme é de Mike Judge, aquele mesmo cara que escreveu Beavis and Butt-Head, mas não nos precipitemos: o filme tem seus méritos.

Peter Gibbons, interpretado por Ron Livingston, é um programador de sistemas numa grande empresa de TI. De saco cheio, resolve se consultar com um psicólogo para tentar relaxar através de hipnose, ou uma destas coisas que fazem a gente pensar em passarinhos. A questão é que, no meio da consulta, o médico sofre um ataque cardíaco e morre, deixando o Peter eternamente relaxado.

A idéia é tentar nos mostrar o que aconteceria caso parássemos de nos importar com coisas que nos aborrecem. Sei de casos extraordinários em que pessoas realmente gostam de trabalhar, pessoas que acharam um motivo que não fosse exclusivamente financeiro para ficar feliz com esta situação. São as pessoas que Beethoven definia como artistas livres, que Mencken lembra através da tradução do Ruy Castro como “o homem que ganha a vida sem nenhum patrão para amolá-lo diretamente, fazendo coisas que o agradam enormemente e que continuaria fazendo com prazer, mesmo que toda a pressão econômica sobre ele desaparecesse”. Mas este não é o caso da maioria das pessoas, onde eu me incluo.

Certa vez um velhinho me disse algo sobre realização pessoal no trabalho, como quem usa o trabalho para atingir algum tipo de satisfação social. Acho totalmente válido, mas usar o trabalho, o tipo de trabalho ao qual me referi no começo do texto, para se realizar pessoalmente me soa a tanta falta de imaginação que me desanima só em cogitar esta possibilidade. Sou exatamente aquilo que Mencken define um pouco adiante, o escravo absoluto: alguém que se sujeita ao trabalho como mal necessário. E é muito duro enxergar a si mesmo nesta situação. Por isto quero que os professores de filosofia fiquem bem longe de mim, ouviram? Bem longe! Bem longe!

por Eduardo Mineo 

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