O Oscar da stripper

Da Revista Época – nº 511 – 03/março/2008

Diablo Cody – Aos 29 anos, uma ex-dançarina de boate se consagra com Juno, filme cujo roteiro ela mesma escreveu, inspirada em suas experiências

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por Marcelo Bernardes, de Nova York

São muitas as histórias de vencedores do Oscar que sofreram em empregos menos nobres antes da fama. Joan Crawford foi ascensorista. Clint Eastwood fazia reparos em piscinas. Sean Connery trabalhou como leiteiro. Mas nenhuma dessas trajetórias foi tão colorida como a vivenciada por Diablo Cody, de 29 anos. Sua história não só dá um filme, como a própria Diablo escreveu essa história. E, no domingo passado, usando um vestido estampado da grife Dior, ela recebeu das mãos de Harrison Ford o Oscar de melhor roteiro original.

O prêmio foi o único da noite para um dos filmes-sensação da temporada: Juno, comédia sobre gravidez adolescente rodada por US$ 6 milhões – barata para os padrões hollywoodianos – e que já arrecadou mais de US$ 170 milhões em bilheteria no mundo todo. Em seu discurso, Diablo agradeceu à família, “por me amarem do jeito que eu sou”. Naquele momento, a enfadonha cerimônia do Oscar – que teve a menor audiência dos últimos anos – ganhou um sabor especial, picante até. Antes de estourar em Hollywood, Diablo tirava a roupa em boates.

Antes de ser a Diablo, a roteirista era conhecida como Brook Busey, uma garota de Chicago de Q.I. alto, família católica tradicional e que cresceu interessada em filmes de terror, rock, livros, gibis e garotos. Outro passatempo eram as conversas telefônicas repletas de metáforas com as amigas – usando um telefone em forma de hambúrguer, como o que se vê em Juno. Terminada a universidade, ela conheceu, pela internet, seu futuro marido, o designer gráfico Jonny Hunt, com quem se casou em 2002.

No ano seguinte, eles se mudaram para a fria Minneapolis, onde Brook assumiu uma vaga de secretária numa agência de publicidade. Num rompante de rebeldia, decidiu aparecer, duas noites por semana, num clube de strippers e relatar sua experiência num blog de nome impublicável. Para manter a privacidade na blogosfera, tirou da música “El Diablo”, da banda Duran Duran, inspiração para uma nova identidade.

Nas boates em que trabalhou durante um ano, Diablo se apresentou sob os pseudônimos Bonbon, Roxanne e Cherish. O começo foi difícil. Seus traços eram considerados “agressivos” para uma stripper, e ela estava acima do peso. “Muitas de minhas colegas eram lindas e tinham corpo de gazelas”, diz. “Havia uma que era a cara da Gisele Bündchen, com o mesmo traseiro minúsculo. Jamais pensei que conseguiria ganhar um tostão com esse tipo de concorrência!”

Diablo aprendeu o ofício rapidinho. Botas brancas e peruca loura chamavam a atenção da clientela (“Todo homem deseja uma sueca”, diz). Os cachês variavam entre US$ 20 e US$ 90 – este último para a bed dancing, na qual a stripper simula o ato sexual durante três minutos sobre o cliente, que fica deitado numa cama em um cubículo privativo. Metade dos ganhos ficava com a gerência. Na manhã seguinte, batente normal na agência de publicidade.

Descoberto por um caçador de talentos de Los Angeles, o blog de Diablo virou livro. Candy Girl saiu em 2006 e despertou curiosidade na imprensa americana, levando-a até o programa do apresentador David Letterman, onde ela declarou que, “hoje em dia, tudo é uma espécie de prostituição”. A idéia para um roteiro de cinema se tornou viável, e ela escreveu sobre uma adolescente falastrona que fica grávida e contempla a idéia de doar legalmente seu bebê para um casal de classe média alta criar. O texto entusiasmou o cineasta Jason Reitman (de Obrigado por Fumar), que decidiu dirigir o filme. “Diablo é a única voz atual capaz de se equiparar à de Quentin Tarantino.”

O sucesso de Juno abriu as portas para Diablo em Hollywood. Steven Spielberg encomendou um roteiro para uma série de TV sobre uma mulher suburbana de múltiplas personalidades. Ela também já vendeu duas novas idéias de filmes – um deles de terror, sobre uma garota canibal. A fama transformou sua vida particular. Em dezembro, ela se separou do marido. Dois dias depois de receber o Oscar, fotos dela em poses sensuais se alastraram pela internet. “Minha vida está um caos, mas estou tentando me reorganizar para voltar a escrever mais histórias sobre garotas. Afinal, nós merecemos uma exposição maior e mais inteligente em Hollywood.”

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