“Pus o chapéu e Indiana voltou”

Da Revista Época – nº 511 – 03/março/2008

O ator de 65 anos conta como é retornar a Indiana Jones, personagem que não interpretava desde 1989

Bruno Segadilha e Fábio M. Barreto, de Los Angeles

No dia seguinte à entrega do Oscar 2008, Harrison Ford concedeu esta entrevista a ÉPOCA como parte da primeira rodada de divulgação de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, um dos filmes mais aguardados do ano, com estréia prevista para maio. Ele falou sobre como foi se reunir mais uma vez com a equipe dos três primeiros filmes da série, em que tipos de produção prefere trabalhar e ainda respondeu sobre suas opiniões políticas.

Aos 65 anos, Ford fala sobre o personagem com a mesma vivacidade e empolgação de 19 anos atrás, quando a terceira parte da aventura foi lançada. A animação é ainda mais evidente quando o assunto é a poderosa equipe reunida para o retorno do herói: Steven Spielberg, George Lucas, a produtora-executiva Kathleen Kennedy e o produtor Frank Marshall, pessoas que, segundo ele, são como uma “família”.

O resultado dessa forte união aparece nas telas na forma de um vigoroso herói que não pensa em aposentar o chicote. Desta vez, o antropólogo vivido por Ford mergulha na mitologia maia para encontrar um lendário crânio de cristal que pode lhe revelar poderes magníficos. Além disso, Indiana volta a lidar com figuras de seu passado, como o filho Mutt Willians (Shia LaBeouf), que em pouco tempo se envolve nas aventuras do pai. O filme foi rodado no Novo México, no Havaí e em Foz do Iguaçu.

indiana.jpg

__________

ENTREVISTA

Harrison Ford

VIDA

Nasceu em 1942, em Chicago, Illinois. Foi casado duas vezes e tem quatro filho

CARREIRA

Já participou de cerca de 50 filmes, muitos deles de ação e aventura

OSCAR

Em 1985, recebeu sua única indicação ao prêmio, na categoria de melhor ator, por A Testemunha

__________

ÉPOCA – Há alguma complicação para a volta de um personagem e de um filme de ação como esse 20 anos depois, além, óbvio, da passagem do tempo? Harrison Ford – Hoje, o Indiana Jones tem um conhecimento, uma visão diferente das coisas. Ele é um personagem que sempre pode ser mais explorado, tem ótimos relacionamentos e sempre algo novo para mostrar. É ótimo representar de novo o personagem, em um filme para a nova geração. Quando terminei de me vestir, toda essa experiência e perspectiva voltaram. Pus o chapéu e Indiana voltou. E ainda bem que a roupa original ainda me serviu. Consegui manter a mesma forma por 20 anos, o que é uma façanha. Foram 80 dias de filmagem com um só de folga. Mas tudo correu bem.

ÉPOCA – As filmagens podem ter levado menos de três meses, mas o roteiro virou novela e parecia que nunca ficaria pronto…

Ford – Na verdade, tínhamos pensado no projeto há cerca de 12 anos. Mas não deu certo. Demorou certo tempo para que eu, George Lucas e Steven Spielberg encontrássemos um jeito de juntar todos, de forma que o projeto fosse interessante para todo mundo, que o roteiro valesse a pena. E tinha de ser um grande filme, porque a expectativa em torno dele é muito grande.

ÉPOCA – Por que tanto zelo e preocupação, já que o personagem é querido e tem gerações de adoradores?

Ford – É exatamente por ele ser especial para mim e para o público. São os espectadores que chancelam meu trabalho com seu dinheiro nas bilheterias. A história tem de ser boa, e quem a conta também. Caso contrário, o público escolhe outro contador. É simples assim. Não posso ser aquele tipo de ator que coloca um nariz de borracha ou maquiagem pesada para parecer outra pessoa. Acredito que meu público goste de me ver – jovem ou um pouquinho mais velho -, e tenho de atender a esse tipo de demanda. Por isso, fiz todas as cenas de ação. E o filme precisa valer a pena, pois seria um desrespeito filmar uma história qualquer só por dinheiro.

ÉPOCA – Aos 65 anos, você ainda interpreta heróis de ação. Como consegue isso? A idade não atrapalha?

Ford – Acho que é o que me mantém saudável e ativo. Eu gosto muito de fazer isso. Não malhar pesado, só quando tenho de fazer um personagem que me exija isso. Aí, faço bastante exercício, mas por um tempo. Para mim, é mais uma questão de manter tudo em cima, fazer com que o corpo siga trabalhando. Normalmente, vou à academia três vezes por semana e fico lá por 40 minutos. Gosto de jogar tênis também. Coisa leve.

__________

“Ser herói não faz sentido. Interpreto personagens e pessoas que, às vezes, precisam praticar atos de heroísmo”

__________

ÉPOCA – O personagem Indiana Jones, às vezes, é politicamente incorreto. Ele leva alguns objetos históricos dos países por onde passa. O que você acha disso?

Ford – É verdade, eventualmente ele rouba algumas relíquias. Mas, antes de tudo, ele é um arqueólogo. Sua intenção inicial é estudar os objetos, e não roubá-los. Ele se interessa por aprender, é fascinado pelo mistério dessas coisas. Ele não usa as pessoas, não abusa dos lugares por onde passa. Mas, enfim, ele não é perfeito, erra de vez em quando. É o que o torna interessante.

ÉPOCA – E o professor de arqueologia tem planos de se aposentar?

Ford – Esse assunto nunca foi mencionado. Ainda há muito o que ser explorado com Indiana Jones (risos)!

ÉPOCA – Sua imagem é associada a heróis: Indiana, Han Solo (Guerra nas Estrelas), Jack Ryan (o agente da CIA de Jogos Patrióticos)… Você gosta do conceito de herói?

Ford – Tenho orgulho de Indiana Jones. Han Solo foi importante, embora não deseje voltar a ele, pois ele era meio bobo. E Jack Ryan eu também voltaria a fazer, tem muito a ser explorado. Porém, ser herói não faz sentido. Ninguém assina contrato para viver um “herói”. Vivemos personagens e pessoas que, às vezes, precisam praticar atos de heroísmo. Mas é pretensioso considerar-se um herói. Um dia, alguém decidiu que precisávamos de heróis no cinema e, a partir daí, todo filme ganhou um. Mas muita gente se esquece de que herói mesmo é um bombeiro que se arrisca por uma criança.

ÉPOCA – As pessoas deixaram de ir ao cinema para ver um ator em especial?

Ford – A década de 80 foi um dos períodos mais saudáveis para os filmes. Não existia DVD, o VHS estava começando e as pessoas iam ao cinema, pois era o único jeito. Hoje, criaram-se vários públicos. Há quem goste de ficar em casa, há quem continue seguindo atores e há aquele pessoal, especialmente jovens, que gosta de sair e aproveitar o bom e velho escurinho do cinema. Assim, os jovens se tornaram os espectadores mais consistentes.

ÉPOCA – Quanto a ser astro, houve mudança nestes 20 anos?

Ford – Os jovens têm afinidade com os atores da idade deles, pois querem ver a história deles mesmos. Não faria sentido me ver fazendo de conta ter 30 anos. O público precisa de caras da minha idade.

ÉPOCA – Acredita em uma chance de mudança nos EUA neste momento de eleições?

Ford – Claro. É necessário reinventar nossa economia, criar mais empregos para os jovens e voltar a prosperar. Precisamos de mudança, de disciplina focada, e parar de fazer um monte de coisas que estamos fazendo, como desperdiçar dinheiro em áreas erradas. O país estabeleceu objetivos altos, embora não cheguemos muito perto deles. Mas perdemos nosso ideal ao longo dos anos. É como se ele tivesse se desgastado, assim como os rostos no Monte Rushmore (a montanha onde foram esculpidos os rostos de quatro presidentes americanos). Este país sempre funcionou bem sob uma “liderança messiânica”, que recobra os ideais. Agora, temos este jovem líder, poderoso e idealista, Barack Obama, se erguendo. Ele pode dar um novo coração a este país e operar a mudança de que precisamos, e rápido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s