Razoavelmente desinteressante

do Digestivo Cultural

Gostaria de me casar numa igreja como esta. Acho impossível alguém ver essa cena e não querer se casar. Não sei como uma feminista vê um casamento desses e não sai correndo para esconder seus livros da Simone de Beauvoir e vestir um sutiã. O que há de errado com casamentos, afinal? Mulheres moderninhas dizem aborrecidas que jamais se casarão porque, onde já se viu, se casar, oras, oras, lavar pratos pra sujeito barbado etc. Se casamento fosse isto, realmente seria algo terrível, mas eu não consigo vê-lo desta forma.

Praticamente todas as acusações contra o casamento são frutos de uma mente meio camponesa que reclama das funções que o marido supostamente obriga sua esposa a exercer, mas que hoje em dia já são feitas por máquinas com uma qualidade infinitamente superior a um custo infinitamente inferior. A relação de marido e esposa, portanto, está acima disso; tem de estar acima disso. Alguém pode não querer se casar por não querer relacionamentos e isto é até tolerável, mas que deixe isso claro e não fique reclamando das, ó, imposições machistas do casamento e blábláblá. O casamento não tem nada disso; não, pelo menos, pra mim. Certo, acredito em alguns conceitos conservadores, como o sustento da casa ser obrigação minha, mas jamais trancaria minha esposa numa cozinha. E, além do mais, a imagem de um casal me parece sempre bonita. Não a de um simples casal de namorados, desses que a gente vê trocando fluidos em shoppings, mas a de um casal que assumiu um ao outro e que está disposto a encarar tudo para sempre. É uma imagem bonita.

E a imagem de se casar numa igreja também é bonita, embora eu esteja tratando o casamento de uma forma bem genérica. O casamento religioso é, além de um contrato entre marido e esposa, um contrato entre o casal e Deus, o que pra mim já é um exagero. Eu não sou cristão, ou pior, eu não acredito em Deus, mas preferiria me casar numa igreja. Na verdade eu nem estou tão certo de que Deus não existe, nem questiono muito os dogmas da fé porque não me interesso por dogmas da fé, mas alguns costumes cristãos já fazem parte da minha vida ― como o natal, a páscoa, o casamento, exclamações como “Meu Deus!”, “Por Cristo!” etc. ―, e não estou disposto a me desfazer deles só porque acho a idéia de um Deus meio besta. Uns sujeitos argumentam “a ciência não explica a criação da vida” e a melhor resposta pra isso é um Deus?

Percebam que eu estou evitando ao máximo o uso dos termos “ateu” e “agnóstico” porque não gostaria de receber a mesma classificação de um pré-adolescente mongolóide que provavelmente nunca ouviu falar em R.G.Ingersoll. Ele não fez grande literatura, nem grande filosofia, mas me pareceu bem persuasivo no que se refere ao amor como algo que não pode ser propriedade e, portanto, não pode ser uma obrigação. Ninguém pode ser obrigado a amar ou admirar um quadro, uma música; da mesma forma como ninguém pode ser obrigado a amar ou admirar um Deus. A fé, portanto, não pode estar acima da pessoa de modo que a crença ou não-crença seja fator para um desempate, por assim dizer, para ser absolvido e ir para um céu. Considerando isso, a religião se resume aos costumes e à ética; e qualquer discussão sobre a existência de um Deus perderia seu sentido porque não deveria importar o fato de alguém acreditar ou não num Deus.

Porém, se Deus existir e se a fé for uma obrigação ou um pré-requisito para se entrar em seu céu, onde todo o comportamento do indivíduo durante sua vida importe menos do que sua simples opinião sobre Deus, então, aí sim, eu sou contra este Deus. Mas minhas diferenças com a igreja terminam aí; são pontuais e não surgiram do excesso de testosterona, garanto. E numa discussão com um cristão eu nunca, em hipótese alguma, usaria contra ele a Santa Inquisição, porque isso não se faz, entende? Algumas coisas simplesmente não se fazem, como usar camisetas do Che Guevara ou comer terra. E em algumas ocasiões, até me pergunto com muita curiosidade como foram impedir a igreja de queimar certos tipos de gente…

Pensando agora, pelo lado da igreja, aceitar o casamento de um não-crente seria o equivalente a aceitar o casamento de gays e eu entendo perfeitamente que a igreja recuse. Não é a religião que tem que estar de acordo com as pessoas, mas o contrário, porque esta é a função da religião: definir regras. E se estas regras forem maleáveis, se perde o próprio conceito de religião. Tendo em vista que eu sou uma pessoa superficial, admito casar num lugar que não seja uma igreja porque, embora eu realmente acredite nos valores e ideais cafonas da instituição do casamento, dou grande valor ao senso estético da coisa toda e gostaria de me casar num lugar que pelo menos se parecesse com aquela igreja lá. O grande problema, entretanto, é que o tipo de garota que se casa geralmente faz questão do casamento religioso, né, e eu teria de fingir um pouco. Seria o meu primeiro sacrifício por ela, digamos. Ou, tudo bem, sacrifício é um exagero, já fingi coisas muito piores como gostar de gatos, mas um esforcinho, pelo menos. Eu reprovaria, claro, por isto torço para que minha esposa seja superficial também.

Isto é, se eu casar. Sou uma pessoa razoavelmente desinteressante e hoje em dia é tão difícil encontrar garotas bonitas e desinteressantes. Garotas bonitas são do tipo que gostam de dançar e de caminhar em lugares perigosos e de surfar e de bares lotados e de músicas eletrônicas e de muitas outras coisas monstruosamente legais, ao passo que o meu momento mais emocionante de hoje foi uma câimbra patética em frente ao escritório.

Sem contar a minha espetacular incompetência com estes tipos. Me ocorre uma garota linda de quem nunca consegui um sorriso em momento algum, nem um sorriso simulado, nem um esboço de cordialidade com uma levantada de ombros, nada. Tenho certeza de que fiz algumas boas tentativas, mas todas em vão. E não devo ser tão feio a ponto de ofuscar todos os seus pensamentos num tipo impressionante de colapso. Mas ela me olha como se eu tivesse a aparência de uma palestra de motivação empresarial. O que devo fazer sobre Bettina? Não sei, não sei

por Eduardo Mineo

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