Novas técnicas para aliviar a dor

Médicos usam desde medicamentos até aparelhos sofisticados e terapias alternativas no tratamento de paciente

D’O Estado de S. Paulo

Considerada sinal vital do corpo humano, a dor vem recebendo atenção cada vez mais especializada de profissionais da saúde, com terapias alternativas, cirurgias pouco invasivas, medicamentos de várias classes e até aparelhos de diagnóstico extremamente sofisticados. Hospitais e clínicas estão, inclusive, criando centros específicos para tratar esse tipo de problema.

Para médicos que estudam o tema, viver com dor provoca irritação, nervosismo, atrapalha o sono e aumenta as chances de depressão. Não à toa, atualmente ela é considerada o quinto sinal vital do corpo humano, ao lado da temperatura, pressão arterial e das freqüências cardíaca e respiratória. Deixou de ser entendida como conseqüência inevitável de situações, o que levaria o paciente a suportá-la, para ser combatida e monitorada com a evolução do quadro clínico da pessoa.

As estratégias desses médicos e profissionais da saúde valem para todo tipo de dor: enxaqueca que deixa a pessoa na cama, dores lombares que travam movimentos, as provocadas por lesões em regiões cerebrais, por ferimentos, para o incômodo da fibromialgia e, também, para pacientes com câncer e casos pós-operatórios.

“O médico não deve mais ser insensível à dor do paciente”, explica o neurocirurgião Cláudio Fernandes Corrêa, responsável por uma equipe multidisciplinar do Centro de Dor do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. “A maioria dos médicos ainda não está preparada para esse atendimento. Não se aprende a tratar da dor nas universidades, e os pacientes ainda não sabem que existem centros especializados apenas em dor.” 

No centro do Nove de Julho, assim como na maior parte dos centros de dor, o atendimento é feito por uma equipe de profissionais de 17 especialidades. São anestesistas, neurologistas, acupunturistas, fisiatras, psicólogos e fisioterapeutas, entre outros, trabalhando juntos. Instituições como Albert Einstein, Sírio Libanês e Hospital das Clínicas, todos em São Paulo, desenvolvem trabalhos semelhantes em seus centros. 

Se um paciente aparece com dor lombar que o incomoda há anos, além de ser atendido por um ortopedista e um neurologista, que buscarão a causa, ele receberá a atenção de um fisiatra. Afinal, existe uma tendência de, por causa da dor original, o paciente ter forçado mais uma parte da musculatura do que outra, provocando uma segunda dor. Após exames, ele sai com indicação de remédio e tratamento. As recomendações podem incluir de acupuntura à reeducação postural global (RPG) e exercícios na água.

TECNOLOGIA

As dores de cabeça – são mais de cem identificadas – e as que atingem as costas são as principais reclamações nos centros especializados. Mas existem diversas outras, algumas de difícil identificação. Para essas, um dos recursos é um aparelho de diagnóstico por imagem infravermelha. O aparelho é passado pelo corpo do paciente para que o médico observe uma imagem reproduzida no computador. Ao passar sobre uma área dolorida, a imagem muda de cor – isso é explicado porque, nessa região o aparelho capta um aumento da temperatura. 

No caso da executiva aposentada Inês de Castro Arantes, de 63 anos, o aparelho permitiu identificar lesões em alguns nervos da coluna, que faziam com que ela tivesse dores para andar. “Demorou para ter o diagnóstico e, quando veio, lembrei como era viver sem tanta dor.” Ela foi tratada no centro da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que também mantém um núcleo para atendimento de dor e cuidados paliativos. 

ANTIDEPRESSIVO

Em relação ao tratamento, os médicos quebram outro mito. Não receitam antiinflamatórios, adotados normalmente por quem se automedica. Por seus efeitos colaterais, são pouco indicados. “Antidepressivos e anticonvulsivantes são os mais usados. Na dosagem correta, são eficientes para o alívio da dor”, afirma Corrêa.

Os antidepressivos são usados porque se supõe que atuem nos mediadores químicos cerebrais responsáveis por várias sensações – entre elas a inibição da dor. Já os anticonvulsivantes funcionam como estabilizadores das membranas neuronais – alguns tipos de dor crônica são provocados por um desequilíbrio neles (veja quadro).

No caso de pacientes em estado grave, como os com tumores, são aplicados opiáceos, como a morfina. No entanto, em vez de doses gerais, há a opção de levar a substância direto no centro da dor, fazendo com que doses menores sejam suficientes. Outra alternativa é a cirurgia para colocar uma espécie de estimulador dos inibidores de dor em pontos do corpo, como uma espécie de marca-passo.

ESPECIALIDADE

“Até pouco tempo o tratamento da dor era uma especialidade renegada, que recebia pouca atenção”, conta o anestesista Maurício Nunes Nogueira, responsável pela área no Hospital Oswaldo Cruz. Ele é um dos 330 médicos com título de especialista em dor no Brasil.

“Estudos citados pela Organização Mundial da Saúde mostram que mais de 90% das dores dos pacientes podem ser controladas se bem tratadas”, explica Onofre Alves Neto, presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor. “Por isso, uma das nossas áreas de atuação é ajudar na difusão desse conhecimento, inclusive na rede pública”, afirma.

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