Dia do lixeiro passar

Do Digestivo Cultural

Mulheres confabulam na cozinha e trocam informações numa freqüência muito alta. Prestam o máximo de atenção umas às outras e o mínimo de atenção ― só o suficiente para não trombar nele ― no sujeito que invade a cozinha atrás de um pouco de café. Não adianta perguntar, nesse momento, onde está a garrafa térmica. “Está guardada no lugar de sempre” seria a resposta provável. Mas o “lugar de sempre” é relativamente variável e a nova disposição dos apetrechos de cozinha, desde que o novo jogo de xícaras foi incorporado, não foi devidamente informada. Ou foi, mas a memória masculina não conseguiu gravar a informação, por dois motivos principais:

Primeiro: Não existe um elo sólido entre apetrechos de cozinha e a mente masculina. Uma garrafa térmica é só uma forma comprida onde costuma haver café. A antiga, que não funcionava direito, era amarela. Essa nova, agora, é preta. Mas a diferença precisa ser apontada porque no momento em que os olhos dele bateram na nova garrafa preta, a antiga foi imediatamente esquecida, como se nunca tivesse existido. E, de certa forma, ela nunca existiu. Existe apenas uma coisa, comumente chamada de garrafa térmica, onde costuma haver um pouco de café e todas elas, as garrafas, são a mesma garrafa porque são todas iguais.

Segundo: A informação de que havia uma nova disposição das coisas na cozinha foi realmente transmitida. A mulher disse ao homem que a garrafa térmica seria guardada em outro canto (uma cozinha pode ter centenas deles) e chegou a mostrar onde era esse canto. Mas essa informação não foi propriamente dirigida a esse homem. Porque as mulheres trocam informações entre si de uma forma muito eficiente, mas também costumam passar informações a outros seres vivos ― incluindo cachorros, jardineiros, gatos e bancários ― esperando o mesmo resultado em eficiência. Em suma, elas se dirigem sempre a uma outra mulher, não importando que na sua frente esteja um eletricista gordo e bigodudo. Que, coçando o bigode, não consegue compreender a diferença entre uma tomada “muito perto da porta” e outra “um pouco mais afastada e não tão alta” e que “esteticamente fará toda a diferença”. Ele não vê a diferença. Provavelmente ele nem sabe o que é “esteticamente” ou, no melhor dos casos, sabe, mas nunca foi capaz de compreender plenamente o significado.

Não podemos perceber plenamente o significado de tantas coisas. O Sol se põe no final do dia e, às vezes, o espetáculo é grandioso. No meio do trânsito urbano, do alto de algum viaduto vemos, por breves instantes, o Sol se escondendo, com aquelas tintas transparentes e vermelhas, sobre a linha do horizonte. Outras vezes uma lua cheia assume o céu noturno, acima do pálido néon dos outdoors. As luzes mesquinhas da cidade ficam mudas por um instante e o disco lunar, entrevisto da janela do carro, faz sua pergunta invariável: “quem é você, cara?”.

É uma pergunta retórica, caramba. Não é para responder. Pelo menos não para a mulher que está sentada ao lado, no banco da frente. Ela observa seu acompanhante com o canto dos olhos, onde alguma nesga de luz que vem da rua se reflete. Ela percebe o ínfimo namoro dele com a Lua, percebe nele a inclinação natural para se perder em perguntas retóricas, percebe sua atração infantil por questões abstratas. Não que ela seja imune a essas questões, mas uma mulher se relaciona, acima de tudo, com coisas concretas. Ela espera solidez do mundo que a rodeia. Espera, na sua condição de partícula atômica sem freios, um centro gravitacional que mantenha a sua órbita estável. “Não olhe pra cima” ― talvez ela pense ―, “essa Lua não vai te ajudar em nada. Olhe pra mim e me responda com toda honestidade: até onde você pretende ir comigo, até onde você me levaria?”.

Muitas e muitas mulheres, talvez a maioria delas, em alguma época da vida, desejam filhos e muito já foi dito sobre o “instinto maternal”, um conceito que as próprias mulheres, às vezes, rebatem como falso ou inadequado. Inadequado porque uma simples e premente necessidade de botar os pés no chão está, muitas vezes, atrás do desejo feminino de ter filhos. É toda a motivação que uma mulher precisa, ou quase toda e, enquanto os homens se concentram e se detêm entusiasmados no parágrafo referente à aproximação, sedução, conquista e namoro, as mulheres lêem o texto inteiro, o documento invisível escrito em cada célula do seu corpo, que trata da existência, da vida social, dos ritos de passagem e dos ritos permanentes ao longo do relativamente curto caminho que se chama vida.

Os ritos fazem parte do cotidiano e as mulheres sabem disso. É até possível especular que o cotidiano em si seja criado por uma sucessão de ritos diversos, e a mulher é uma criatura de rituais. Todos se originam nela: festas de aniversário infantis, casamentos, formatura, vernissages e happy hours. A função primária dos rituais, desde a tradição esotérica que os originou, é a concentração da atenção, de forma que o praticante não se perca em devaneios inúteis e não se distraia com outras coisas que não interessam no momento. Os homens se distraem com uma facilidade assombrosa, mas também têm a capacidade de focar a atenção rapidamente em pequenos flashes. As mulheres são toda a atenção ou nenhuma atenção.

A histórica associação entre mulheres e feitiçaria, uma associação que tomou um caráter nefasto durante a Idade Média, está longe de ser pura invencionice. Como modernas feiticeiras elas continuam com novos rituais e com eles conjuram a própria sociedade, o dia-a-dia, o cotidiano ao qual todos nós estamos acostumados. Um mundo sem mulheres (se tal coisa fosse possível) seria uma zona perpétua. Sem mulheres e homens, é lógico, não existiria ninguém, mas supondo que as mulheres fossem só um corpo com um cérebro de poodle, por exemplo. Haveria apenas tribos de homens indisciplinados, sujos e brigões. Todas as festas seriam iguais, entre bebedeiras e quebra-paus. Não haveria semáforos nas ruas e ninguém usaria óculos, por aí. Estou me divertindo aqui e fantasiando, é claro, como seria de se esperar, levando-se em conta que eu seria um desses bárbaros. Mas eu desconfio seriamente que todas as leis, as normas de conduta, o ar refrigerado, as famílias, os semáforos, as festas de aniversário e os relógios devem sua existência à presença da mulher (como ser pensante) no mundo.

Homens que desejam filhos quase sempre têm idéias românticas sobre descendência e prolongamento do sangue, sobre futuros pelés e einsteins, uma forma de perpetuar o cambaleante e pouco confiável “eu”. Eles aprendem a gostar dos filhos, num processo que, às vezes, pode até levar mais tempo que o esperado. As mulheres, no geral, não sofrem esse processo. Os filhos já são desejados previamente ou já existem dentro dela, antes mesmo que se materializem no corpo, e representam o ímã, o objeto quase místico que permitirá o exercício que a sensibilidade feminina reclama, um exercício necessário dos sentimentos, e será também a âncora que manterá seus pés no chão. Elas se encantam com as coisas materiais, com os símbolos, os métodos e os procedimentos que permeiam a matéria: um anel de noivado, um gesto romântico, flores oferecidas, a múltipla possibilidade de um par de sapatos combinar com seu guarda-roupas, um sorriso do bebê, um contrato assinado e, por que não, um cheque em branco. Assinado, claro.

Enquanto os homens esperneiam para voar e se libertar das algemas, as mulheres vêm voando, não de Vênus, mas do país das fadas Sininho e colocam as algemas para testar a capacidade dessas algemas em segurá-las em algum lugar. Um lugar escolhido, diga-se de passagem. Por falar em passagem, está na hora de colocar o lixo pra fora. Porque hoje (tinha me esquecido de novo, como sempre), é dia do lixeiro passar. Então vamos ajudar a organizar esse mundo, rapaz. Ok, passar bem.

por Guga Schultze

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