A gemada que cura tudo

por Deise Novakoski- No Três Doses Acima (O Globo Rio Show)

Acredito no progresso da humanidade.

Compreendo que as descobertas da ciência sempre farão mudanças (ora profundas, ora indeléveis) na rotina da sociedade. Também sou favorável que as leis sejam modernizadas e acompanhem o novo tempo. Não posso imaginar como seria o trânsito, por exemplo, se pedestres e motoristas ainda fossem regidos pelos primeiros códigos. Com carros mais velozes e a pista mais lisinha, obviamente, teria que surgir um limite de velocidade. E o Código de Defesa do Consumidor, então? Tremenda modernidade e adaptação aos dias atuais. Imagina se no tempo em que o comércio de porta em porta era dominado por caixeiros viajantes alguém sonhava em ir atrás de seus direitos! É bem verdade que naquele tempo as pessoas tinham e davam maior credibilidade umas às outras.

Enfim, o fato é que os tempos são outros e precisamos nos adaptar a ele, gostemos ou não. Os homens não param de estudar e estão sempre buscando algo que torne a vida mais longeva e confortável.

Parabéns para eles e para nós também! Mas, pelas barbas do profeta, não dá para deixarem o bendito ovo em paz? Encontrem outro cristo para estudar.

Por que não pesquisam os efeitos da vagem na alimentação? Não, vagem ninguém quer comer e muito menos estudar. Alguém provou alguma iguaria em que a vagem fosse o ingrediente principal e insubstituível? Alguém já recebeu algum e-mail (como aquele da maçã) sobre os efeitos miraculosos, rejuvenescedores e antioxidantes que a vagem tem? O vegetal não rende assunto. Tem duas espécies: a redondinha, vendida como do tipo francesa, e aquela achatadinha, muito mais em conta.

Ambas são preparadas basicamente de duas maneiras, refogadinhas na manteiga ou cozidas no vapor, e são sempre coadjuvantes.

Só se transformam em alta gastronomia mesmo quando sobre esse refogado recebem uns belíssimos ovos. Aí estão eles novamente! Já passamos pela fase do ovo mortal e por sua rendição. Tudo registrado na científica crônica “Ovo”, de Luis Fernando Verissimo.

Agora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) volta a atacar, decretando a morte do ovo pochê, de gema mole: segundo o órgão de vigilância sanitária, a bactéria da salmonela só morre se for aquecida a 70 graus. Não lavar as mãos corretamente também transmite a bactéria da salmonela e ninguém usa isso como exemplo. Quando querem um bandido, os homens da ciência só tem um: o ovo.

E antes que ele volte para o mundo das trevas, e eu não possa publicar nada relacionado ao mascarado, deixo a receita de gemada mágica de minha avó Ana. Além de ser um santo remédio contra gripe (doença muito em voga), ela também curava unha encravada, espinhela caída e, principalmente, dor de cotovelo.

A receita milagrosa? Uma gema, uma colher de sopa de açúcar (substituir por mel se a dor no peito for maior), 150ml de leite quente, uma colher de café rasa de canela em pó, noz-moscada ralada na hora e vinho do Porto tinto do tipo ruby (a quantidade deve ser proporcional ao tamanho e à idade do paciente).

Coloque numa caneca a gema e o açúcar e bata vigorosamente, até que o ovo fique clarinho. Acrescente lentamente o leite, a canela e o vinho do Porto. Finalize polvilhando noz-moscada ralada na hora.

O segredo da receita é: antes de tudo, lave muito bem as mãos.

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2 comentários sobre “A gemada que cura tudo

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