House trata do nosso temor da dor e da morte

Quais são as razões para que House tenha se tornado uma série de TV tão assistida e popular? Leia a seguir o texto escrito pelo jornalista Arthur Dapieve, colunista do jornal O Globo e fã de House, para o blog. Por Arthur Dapieve(*)

Foi minha filha quem me aplicou House, ainda na época da segunda temporada. Era uma tarde de domingo, eu sentei do lado dela no sofá, vi o rosto de Hugh Laurie – que eu conhecia desde os tempos de A bit of Fry and Laurie, humorístico que ele teve com Stephen Fry na TV inglesa – e em duas ou três falas cortantes eu já estava completamente viciado, sem cura à vista. Felizmente. Mas minha filha talvez tenha ido mais longe: está pensando seriamente em fazer vestibular para Medicina…

Não é muito difícil, acho, explicar por que House se tornou a série de TV mais vista no mundo. Séries médicas, há muitas, das bem dramáticas às cômicas, passando pelas fantásticas, que se misturam com histórias de terror. Porém, House é a que, ao meu ver, trata de modo mais inteligente daquilo que realmente interessa: do nosso temor da dor e da morte. O próprio doutor vive em dor física, por causa do acidente na perna. Os outros médicos da sua equipe e a Cuddy tentam tornar as suas vidinhas menos dolorosas e mais cheias de sentido. E os pacientes, claro, eles não querem sofrer mais ou morrer.

Há outra forte razão para a popularidade de House. É o personagem construído por Laurie. Ele usou a sua sólida formação de ator inglês, somou a seu jeito para comédia e criou um sujeito que, embora seja único, tem ao menos um pouco de cada um de nós, um pouco que nem sempre estamos dispostos a admitir que exista. Ah, ele é sarcástico? Quantos de nós não gostariam de mandar na lata de alguém aquelas respostas grosseiras e engraçadas? Ah, ele é um misantropo? Quantos de nós já não odiaram a Humanidade, sobretudo em filas de banco, caixas de supermercado, lojas de departamentos, ligações do telemarketing? De certa forma, então, House pensa, fala e age por nós. Por isso, ele é nosso (anti)herói.

E é por isso tudo que, a cada início de temporada, a gente fica torcendo para que as coisas mudem _ para elas poderem permanecer as mesmas (e nós também). Afinal, como House vive dizendo, people don’t change.

(*) Arthur Dapieve é colunista do jornal O Globo, curador da Rádio GNT e professor de jornalismo na PUC-Rio.

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