Cinquentão em forma: estaria o charme de Asterix em seu nariz enorme?

Da Veja.com

(Foto: Divulgação)

Miúdo, astuto e narigudo. Asterix, o herói gaulês dos quadrinhos, é conhecido por se envolver em aventuras divertidíssimas ao lado do amigo grandalhão e desajeitado Obelix. Com ou sem a ajuda da poção mágica preparada pelo druida Panoramix, os personagens já venceram difíceis obstáculos juntos, muitos deles impostos pelo imperador romano Júlio César. A série, criada em 1959 pelo roteirista René Goscinny e o desenhista Albert Uderzo, chega aos 50 anos como um dos maiores sucessos dos quadrinhos.

Desde a morte de Goscinny (1977), Albert Uderzo, hoje com 82 anos, é o responsável pela continuidade de todos os projetos. “Trabalho com uma equipe valiosa há mais de vinte anos e tenho outros desenhistas para me ajudar”, conta. “O grupo Studio 56, situado no norte da França, se ocupa de colocar cores dos livros, já que sou daltônico desde jovem”.

Nesta quinta-feira, Uderzo lança o livro comemorativo L’Anniversaire d’Astérix et Obelix, le Livre d’Or. Nesta entrevista, ele relata um pouco de sua trajetória e de Asterix.

O senhor começou a desenhar muito cedo. Sempre quis trabalhar com quadrinhos?
Aos 10 anos, gostava muito de desenhar as fábulas de La Fontaine, e minha professora me considerava muito talentoso. Porém, eu era muito novo, e não me dava conta. Quando completei 14 anos, queria seguir os trilhos do meu irmão mais velho, um especialista em mecânica, pois tinha muita admiração por ele. Eu também era apaixonado pelos motores dos carros. Durante nossas férias, no entanto, convencido de que eu realmente tinha talento para o desenho, meu irmão me conseguiu um estágio numa editora. Ele disse: “Você ficará melhor aqui”.

Albert Uderzo, em 2009, depois de receber homenagem em Bobigny.O senhor é autodidata?
Nunca fiz escola de desenho ou cursos para aprender a desenhar. Quando me propus a isso, o ambiente me fez fluir. Fiz estágios e mais estágios e ganhei vários concursos. Eles me permitiram entrar nas editoras onde tive a chance de encontrar os grandes do desenho da época, que foram muito gentis e acessíveis.

Quais foram suas principais inspirações?
Muito rapidamente me tornei apaixonado pelos quadrinhos, inspirado pelos desenhos de Raymond Poïvet e [Edmond-François] Calvo e os super-heróis americanos. Mickey me fascinava, e Walt Disney, mais ainda. Eu queria me transformar no Disney de Bobigny!

Antes de Asterix, o senhor desenhou diversos personagens. Por que logo ele tornou-se um dos maiores heróis dos quadrinhos franceses?
Nunca conseguimos explicar as razões do sucesso dessa série. Antes, havíamos criado outros heróis, como Oumpah pah, com os mesmos ingredientes e o mesmo desejo de fazer rir. Porém, não funcionou. Quando Oumpah pah caiu para o último lugar entre as melhores séries de HQs, fomos obrigados a desistir dela. Em contrapartida, Asterix nos ocupava cada vez mais. Hoje, cinquenta anos depois, ele continua a divertir todas as crianças do mundo, e é um grande orgulho para mim comemorar este aniversário com os leitores, que não são apenas os pequenos franceses.

Quais características do personagem lhe dão esse caráter universal?
Seu nariz enorme, talvez! (risos) Brincadeira. Imagino que os valores dos personagens da série são comuns a todos os povos: a resistência, a coragem, a astúcia, o gosto pelos prazeres simples da vida, a amizade. Como Asterix, todos os habitantes da sua vila compartilham desses valores. Desejam tranquilidade e paz. É a vida dos sonhos de qualquer pessoa, imagino. Além disso, todos gostam de rir.

Obelix, companheiro inseparável de Asterix.A mistura entre história e ficção também pode ter contribuído para esse sucesso e abrangência?
Nunca tivemos a pretensão de fazer uma série pedagógica. Sempre dizia que, se não pudéssemos ganhar dinheiro, gostaríamos pelo menos de rir. E isso acontece todos os dias! René tinha um senso de humor único!

Como foi a escolha do cenário, a Gália dominada pelos romanos?
Na verdade, tínhamos imaginado uma outra série, mas, no último minuto, vimos que a ideia já estava desgastada. Tivemos pouquíssimo tempo para imaginar outra coisa e, repassando os diferentes períodos da História francesa, decidimos parar no galo-romano. Os críticos costumavam dizer que René tinha um humor exageradamente intelectual e que eu fazia desenhos grotescos. De fato, nós não documentamos muito mais do que isso. As guerras gálicas foram apenas nossa inspiração inicial.

Seu parceiro, René Goscinny (1926-1977), morreu muito novo.
Sim, René tinha apenas 51 anos quando se foi e estava em boa forma. A notícia me abalou muito e entrei em uma depressão profunda. Fazia 26 anos que trabalhávamos juntos, foi como perder um irmão. Como se não bastasse, a imprensa me deu um golpe final, declarando a morte também de Asterix. Demorei dois anos para pegar de novo no lápis, quando decidi abrir minha própria editora [Editora Albert René, em 1979], para proteger o nosso personagem. Foi uma aposta completamente louca, mas graças a demonstrações de amizade e de encorajamento por parte dos leitores, me relancei à aventura.

Quais foram seus principais desafios?
Igualar tamanho humor e continuar a satisfazer os leitores. Não tenho mais o mesmo ritmo que tinha ao lado de René, mas o método de trabalho não mudou tanto. Começo sempre pelo roteiro e, quando ele está pronto, me lanço aos desenhos, pensando a cada segundo em meu amigo René e naquilo que ele poderia pensar de uma piada ou outra.

O senhor conta com assistentes? Como é feita a divisão das tarefas?
Trabalho com uma equipe valiosa há mais de vinte anos. Desde que criei a Editora Albert René, recebi os direitos de exploração do personagem e pude criar produtos derivados da série. O trabalho começou a se acumular, e foi preciso encontrar ainda outros desenhistas para me ajudar. Também conto com o apoio do grupo Studio 56, situado no norte da França, que se ocupa de colocar cores dos livros, já que sou daltônico desde jovem.

No site oficial de Asterix, é possível jogar e aprender mais sobre os personagens e as histórias. Como os quadrinhos podem tirar proveito das interações oferecidas pela internet?
Confesso que é um universo pouco conhecido para mim, então confio completamente na minha equipe responsável por esse domínio. Para a minha geração é natural não se servir dessa ferramenta, mas isso não me faz menos interessado pelas possibilidades que oferece. De todo jeito, digo que é preciso ter cuidado para não desvirtuar os quadrinhos. Nada substitui o prazer de ter um livro de verdade nas mãos. Isso as telas do computador nunca poderão oferecer.

O que o senhor pode nos adiantar sobre o novo álbum?
É uma comemoração dos cinqüenta anos de Asterix. Imaginei para a ocasião um apanhado de histórias curtas que respondessem ao mesmo tema: a preparação da festa. Ao long
o de suas diversas viagens, nossos dois guerreiros (Astérix e Obélix) reencontram vários amigos.

Os fãs podem esperar um outro livro depois deste?
Só o futuro nos dirá. Se eu tiver a sensação de que tenho uma boa ideia, é certo que sairá um novo livro.

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