Sandor Krasna – crônica do Veríssimo – O Globo

Do blog do Noblat

 

Vá explicar. Uma vez inventei um nome para um personagem de uma crônica e depois me disseram que alguém com o mesmo nome tinha começado a trabalhar na administração do jornal, dias antes. No meu romance “Os espiões” há um personagem duplamente fictício — uma escritora húngara inventada por um personagem inventado por mim — que eu chamei de Ivona Gabor. Recebi uma correspondência com fotos de uma Ivona Gabor de quem eu nunca tinha ouvido falar. Húngara também, mas cantora.

Até aí, coincidências perfeitamente normais. O nome do cara que começara a trabalhar no jornal não era incomum, e Gabor, graças às irmãs Eva e Zsa Zsa, que se destacaram pelo número de casamentos mais do que por qualquer talento discernível, era um sobrenome famoso. Mas há dias chegou um e-mail de um alemão que mora na Inglaterra querendo saber se eu era o autor de uma história que ele tinha lido em “O Estado de S. Paulo”, publicada em abril de 2000 e chamada “Até onde se sabe”. Confirmei a autoria, temendo que ele exigisse um pedido de desculpas, já que o texto era uma grande bobagem. Mas o que lhe chamara a atenção era o nome do personagem da história: Sandor Krasna. De onde eu o tirara? Inventei, respondi. E ele então me sugeriu que procurasse “Sandor Krasna” no Google.

Procurei, e mergulhei num abismo. Se entendi bem, Sandor Krasna era o nome de um personagem num filme do Chris Marker, “Sans soleil”, um fotógrafo fictício que não aparece, só manda cartas. Mas descobri que “Sandor Krasna” também era um pseudônimo usado por Chris Marker — cujo nome verdadeiro não é Chris Marker. Tudo bem, mas entre as outras referências a Sandor Krasna no Google (mais de 200 mil!) há, inclusive, fotos atribuídas a ele, não sei se na capacidade de personagem do Chris Marker que ganhou vida própria ou de alguém que adotou o nome — se não forem do próprio Chris Marker usando o pseudônimo. Há também citações de frases e teses de Sandor Krasna.

Para uma figura fictícia, Sandor Krasna circulou muito. Ou ainda circula.

Nunca vi o filme do Chris Marker. Nunca li nada a respeito do filme do Chris Marker antes de consultar o Google. Não sei de onde tirei o Sandor Krasna. Meu correspondente alemão acha que não há coincidência, que Sandor Krasna pode ser uma entidade etérea que, de alguma maneira, está nos usando para existir. Não sei. Ele, o correspondente, também é uma figura misteriosa. Diz que aprendeu a ler em português em Cabo Verde. Que faz alguma coisa ligada à segurança da informática. E não quis que eu citasse seu nome nesta crônica. Talvez seja um pseudônimo do Sandor Krasna. Vá explicar.

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