“Jornalista não está lá para ajudar”

 

ENTREVISTA / JANET MALCOLM
Por Roberto Kaz em 5/4/2011

O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm, 176 pp., tradução de Tomás Rosa Bueno, Companhia das Letras, São Paulo, 2011; reproduzido da Folha de S.Paulo, 2/4/2011, título original: “`Jornalista não está lá para ajudar´, diz Janet Malcolm”; intertítulos do OI

A Companhia das Letras lança uma versão de bolso do livro O Jornalista e o Assassino, da jornalista Janet Malcolm, 76, colaboradora frequente da revista norte-americana New Yorker. Publicado pela primeira vez no Brasil em 1990, o livro, que analisa a relação profissional do jornalista Joe McGinniss com o presidiário Jeffrey MacDonald, se tornou uma espécie de código de ética da dinâmica entre entrevistador e entrevistado.

Janet começou a apurar a história em 1987, quando recebeu uma carta do advogado de McGinniss. Em tom de revolta, a missiva relatava que o cliente acabava de ser processado por MacDonald – condenado pelo assassinato da mulher e duas filhas – justamente por ter escrito o livro Fatal Vision (Visão fatal), acusando-o de ter matado a mulher e duas filhas. “Pela primeira vez permitiu-se que um entrevistado descontente processasse um escritor com base em premissas que tornam irrelevantes a verdade ou a falsidade do que foi publicado”, dizia o texto. O problema era que, nos quatro anos em que travou contato com o presidiário para o livro, McGinniss enviou a ele 40 cartas dizendo crer em sua inocência. “Diabo, Jeff, uma das piores coisas nisso tudo foi a maneira como, súbita e totalmente, todos os seus amigos – inclusive eu – fomos privados do prazer de sua companhia. Em que porcaria aquele pessoal [do júri] estava pensando [ao condená-lo]?”

Janet definiu o conjunto de cartas como “um registro escrito de sua má-fé”. McGinniss, que tentou se defender alegando “compromisso com a verdade dos fatos”, assinou um acordo extrajudicial, comprometendo-se a ressarcir MacDonald em US$ 325 mil (R$ 530 mil) por danos morais. Encarcerado até hoje, ele continua alegando inocência.

“Quero saber se fui traída”

 

O Jornalista e o Assassino tornou-se um estudo emblemático sobre a dinâmica do jornalismo, em que repórteres seduzem entrevistados e estes seduzem aqueles, sempre renegando as reais intenções a segundo plano. A partir do processo de MacDonald contra McGinniss, Janet Malcolm teorizou o ofício em frases como “o jornalista tem que fazer seu trabalho em um estado de anarquia moral” e “o escritor que vem tende apenas a piorar as coisas”.

A nova versão tem posfácio assinado por Otavio Frias Filho, diretor de Redação daFolha. Janet Malcolm cedeu a entrevista por telefone, não sem antes fazer um pedido: “Pode me enviar uma cópia do texto quando publicado? Quero saber se fui traída.”

***

“As pessoas sabem o que esperar quando são entrevistadas por mim”

Em O Jornalista e o Assassino, você diz que, frente a um repórter, “em nenhum caso o entrevistado consegue salvar-se”. Por que você aceitou dar entrevista?

Janet Malcolm – Normalmente aceito quando lanço livros. Além disso, gosto de me sentir do outro lado. Como entrevistada, entendi o poder que as perguntas têm. Você se sente na obrigação de respondê-las, como uma criança indagada pela mãe. É uma regressão à infância.

O livro diz que o jornalista apura com ar de “mãe permissiva” e escreve com a dureza de um “pai severo”. Continua permissiva e maternal após O Jornalista…?

J.M. – Talvez tenha me tornado mais paternal na apuração. Tento ser o mais direta possível. O jornalista não precisa ser tão amigável. As pessoas estão interessadas em contar suas histórias, independente da atitude de quem ouve. Mas tenho algo a meu favor: meu livro é uma espécie de “Miranda Warning” [Aviso de Miranda: a lista de direitos que um policial, nos EUA, é obrigado a dizer a um suspeito quando o prende]. Por causa dele, as pessoas sabem o que esperar quando são entrevistadas por mim, que o tudo que disserem poderá ser usado contra elas.

O psicanalista e o jornalista

Você sabe qual foi a reação dos dois principais personagens depois da publicação?

J.M. – Joe McGinniss não gostou. Após a publicação, nunca mais nos falamos. MacDonald também não gostou porque eu descrevia as cartas dele como entediantes. São detalhes como esse que geram as principais mágoas.

Vocês mantiveram contato?

J.M. – Mantive contato com o MacDonald por alguns anos. Não sei se ele é culpado, mas concordo com o argumento de que não teve um julgamento justo. Se houvesse admitido a culpa, já estaria livre, em condicional, mas ele se recusa. Passados 30 anos, continua preso. Se, de fato, for inocente, a história é terrível.

Você diz que o encontro com o jornalista “parece ter, sobre o indivíduo, o mesmo efeito regressivo que a psicanálise”. As profissões são parecidas?

J.M. – Sim, no tocante ao elemento da confissão. A diferença é que as pessoas vão ao analista procurando ajuda e pagam por isso. O jornalista, como não recebe nada, não está lá para ajudar.

***

Raio-X: Janet Malcolm

Formação: Nasceu em Praga (República Tcheca), em 1934. Sua família emigrou para os EUA em 1939 e se mudou para Nova York. Formou-se na Universidade de Michigan

Carreira: Começou a publicar na revista New Yorker em 1963, onde trabalha até hoje. Colabora com a New York Review of Books

Livros :Publicou oito, sobre literatura, psicanálise, fotografia e jornalismo

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