Memórias de verdade

Quando eu fiquei sabendo que a minha vó tinha ido para o hospital – e que, infelizmente, não tinha muita esperança de continuar sua existência aqui por mais do que 24 horas – eu estava trabalhando, em SP. Quase dois mil quilômetros nos separavam.

Eu larguei tudo e voltei para Brasília.

Enquanto eu esperava o voo, em Congonhas, eu peguei um caderninho e comecei a escrever… chorar e escrever…

Não cheguei a tempo de ver minha vó. Ela já tinha ido. Arranquei as folhas do caderninho e guardei. Nunca tinha chegado a ler o que eu mesma tinha escrito.

Hoje, por acaso, as folhas caem de dentro de um bloco de notas. Pela primeira vez, li o que havia escrito.

Chorei. Não um choro dolorido, como foi naquele dia. Um choro de saudade, desses que a gente tem quando lembra das coisas boas da vida.

 

 

O que eu aprendi contigo:

Paciência.

Lutar pelo que quer.

Organização.

A pintar panos de prato.

A fazer crochê.

Que a vida pode ser boa quando a gente quer que seja.

Ser amigo, ter amigos e fazer amigos.

A sorrir.

A trabalhar  – muito!

Que Deus existe – e que mora dentro de nós.

A ter fé – mas não deixar de trabalhar.

A ajudar aos outros.

A perdoar – mas não esquecer.

A sofrer – e saber superar.

A seguir em frente.

A voltar atrás.

Que a família é importante – mas que eu sou mais.

Que o Rio é um lugar lindo.

Que viajar traz felicidade.

Que os filhos crescem, apesar de nós – mas que somos o porto seguro deles.

Que o que ficou pra trás, ficou.

Que o presente é importante.

Que pensar no futuro é fundamental.

Que envelhecer não é fácil.

Que ter câncer não é o fim imediato.

Mas que o fim chega.

Vó, tua jornada está no fim. Tudo aquilo que aprendi contigo vai seguir em frente e tu não.

Agora é a hora da minha lição mais difícil. E essa lição não pode ser adiada, prevista, imaginada. Porque nada se compara a isso.  Nada é igual.

Vai abrindo um vazio, como se estivessem sugando um pouquinho da minha alma. Sei que chegou a tua hora. Seu que sofreste e não deverias passar por isso, Sei que é preciso, é previsto. Mas não existirá terapia no mundo que prepare a gente para a perda de uma pessoa amada. Uma pessoa que faz parte de mim, que me ajudou a construir quem eu sou. Uma pessoa que esteve ao meu lado quando eu tinha razão, brigou comigo quando eu fazia bobagens. Alguém que amou a todos nós e nunca pediu nada em troca.

Agora chegou  o fim da linha – ou o começo de uma nova viagem pra ti. Meu pensamento está contigo. Descansa, que nós aqui, continuaremos a tua existência.

Eu só tenho mais uma coisa a te dizer: eu quero amar aos meus netos assim como tu. Quero envelhecer feliz como tu. Quero ensinar aquilo que tu me ensinaste. E, por ti, quer ser melhor a cada dia.

Um beijo e boa partida.

Te amo!

 

Minha vó se chamava Cleyr. Teve câncer e morreu com 80 anos. Sofreu com dores, mas nunca deixou de ter um sorriso no rosto e uma piada pronta. Hoje, relendo o texto, que copiei exatamente como escrevi, vejo que, inconsientemente, eu já sabia que não ia encontrá-la viva – e, talvez, de alguma forma e seja lá de onde, ela estivesse me dizendo isso! Como são belas as histórias de amor, não? =) 

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