As histórias secretas do metrô de Paris

Do Conexão Paris



A dica veio do André Mazeron, passou pela Patricia Venturini e chegou até o Conexão Paris.  Eu conhecia as informações contadas por um amigo engenheiro da RATP em jantares de verão na Córsega. Mas nunca tinha visto as fotos.

Durante a segunda guerra mundial as estações de metro Arsenal, Champs de Mars, Croix Rouge e Saint Martin foram fechadas. Após a guerra, a RATP as manteve fechadas porque elas estavam  próximas demais de outras estações (a distância média entre as estações é de 500 metros).

As estações Haxo e Molitor nunca entraram em funcionamento e não estão ligadas à rede parisiense.  Elas existem inacabadas e servem, assim como as citadas acima, de refúgio para uma população que vive dentro do metro parisiense (vocês se lembram do filme Subway de Luc Besson com Christophe Lambert?)

O acesso à estas estações abandonadas é feita pelos túneis por onde circulam os metros. Aventura perigosa e totalmente proibida porque um dos trilhos, o mais alto, possue uma carga elétrica de 500 volts.  Apesar  da presença de guardas acompanhados por cachorros, grupos de jovens e de miseráveis sem domicílio conseguem escapar da vigilância e, à noite, percorrem os túneis para dormirem nos velhos vagões abandonados.

De acordo com meu amigo, o pior horário para os condutores do metro é o primeiro horário da manhã. Esta primeira viagem do dia deve ser em rítmo mais lento, um cuidado especial para tentar evitar os mendigos ou jovens que porventura, após consumo de álcool ou drogas, acabam sobre os trilhos.

Para verem todas as fotos e um longo depoimento sobre as estações abandonadas cliquem aqui.

Como realmente fazer café

Do Gizmodo

Ei, galera, bom dia. Nada melhor do que começar uma segunda-feira falando sobre aquilo que nos acorda. No entanto, você provavelmente faz o seu café – como a maioria das pessoas – da maneira mais insípida possível: usando uma cafeteira que você enche com café pré-moído comprado no supermercado. Certo? Existem milhões de outras maneiras de fazer café e elas são todas melhores.

Eis uma dica sobre o preparo de café: as melhores maneiras são as supersimples ou as ultra geek. O meio termo – ou seja, a sua máquina de infusão por gotejamento – produz a mediocridade. E, lá de onde eu venho, mediocridade se soletra m-e-r-d-a. O que há de universal de todo bom método de preparo de café é que há bastante controle e consistência rolando. De fato, consistência é o molho secreto no preparo de um ótimo café. Mas temos aqui algumas coisinhas antes de chegarmos sequer à parte que você provavelmente acha que é “fazer café”. Estes são os elementos básicos, independente do vodu que você invoque no preparo do seu café: os grãos, a torrefação, a moagem, a dosagem, a água, a temperatura e o tempo de infusão.

Grãos

Compre-os frescos, compre-os inteiros, compre-os de forma sustentável. E isso é tudo o que há por trás disto. Bom, quase tudo, pelo menos. Se você é um bebedor de café forte e escuro, está na hora de diversificar. Ken Nye, dono do Ninth St. Espresso, um estabelecimento líder no cenário do café de Nova York desde 2001, explica assim: você pega um belo pedaço de prime rib, que está carregada de sabores complexos. Como você vai cozinhá-lo? Só um tapinha, para preservar toda esta complexidade, ou você vai queimá-la todinha? Não tem nada de errado com as pessoas que gostam de um pedaço de carne bem-passado, mas poxa, estas pessoas estão curtindo mais a defumação do que a carne em si. O mesmo rola com alguns dos incríveis cafés que as pessoas estão servidas agora por empresas como Intelligentsia, Stumptown e Counter Culture – elas tendem a torrar de pouco a médio usando equipamentos mais antigos para permitir que o sabor de verdade do café transpasse. Torrá-los até ficarem superescuros é uma bela maneira de ocultar o que está acontecendo com o grão (de bom e de ruim).

Moagem

Não tem como contornar essa parte: se você curte café, você precisa moer os grãos logo antes de prepará-lo. Assim que estão moídos, os óleos dentro dos grãos ficam expostos ao ar e os milhares de diferentes compostos de sabores que estão dentro começam a definhar. Cara, café é um lance frágil.

A moagem é o processo primordial para todo o resto que acontece depois. De fato, David Latourell, antes da empresa Coffee Equipment Company e atualmente da Intelligentsia, diz que a coisa número um que as pessoas podem fazer para “mudar o mundo” quando se fala de café é consertar esta situação da moagem. Se a moagem é zoada, todo o resto também o será. A uniformidade é a chave do segredo, caso contrário você obtém uma extração desigual, o que significa um café medíocre. E a única maneira de conseguir esta uniformidade é com uma boa .

Os moedores de lâminas mutilam os grãos de café e o calor causado pela fricção detona toda a química, então nem pense nestes. Uma pulveriza os grãos em vez de retalhá-los. No entanto, só porque é uma mó não quer dizer que é um bom moedor. Você precisa de uma que seja eficiente e que execute a moagem lentamente, caso contrário você estará introduzindo fricção e calor no processo, o que corromperá o café. Geralmente, isto significa uma mó cônica em vez de uma plana. Enquanto você consegue boas mós por míseros 50 dólares (preços dos EUA), tanto Ken quanto David dizem que você precisaria gastar pelo menos uns 150-200 dólares para um bom moedor caseiro – em particular, David recomenda o Baratza Virtuoso, uma mó cônica que custa uns 200 dólares (o moedor comercial do Ken, aquele da foto acima, custa uns 3000 dólares). Parece uma quantidade insana de dinheiro para um simples moedor, mas se você pretende fazer café seriamente em casa, é por aqui que você deve começar. Felizmente, este é equipamento mais caro que você precisará comprar.

Beleza. Vamos passar para a infusão, da mais simples à mais mirabolante.

Chemex

Uma jarra Chemex é uma das maneiras mais simples de se preparar café. É sério. Você coloca um filtro de papel sobre uma garrafa, joga o café moído e jorra água sobre ele. Entretanto, existe toda uma arte por trás disto. Assim como todo método de preparar café, não existe uma dosagem, tempo de infusão ou temperatura perfeita para todo café – depende do tipo de café e, é claro, do seu gosto, e é aí onde mora a arte – mas a Intelligentsia tem uma bela cartilha básica para se começar (PDF, em inglês). (No entanto, 93ºC é uma boa temperatura a se usar, difícil de errar.) Eles também têm um vídeo tutorial prontinho. Além da jarra Chemex de 35 dólares, você precisa de filtros de papel Chemex (não, os filtros vagabundos não servem porque a trama do papel é uma bosta). Algo a se procurar em um bom filtro é uma textura boa e nivelada, como vemos na imagem acima (assim o café se infla no filtro conforme você jorra a água). O resultado final é um copo de café leve e superlimpo, onde
todas as qualidades são salientadas de forma bastante evidente.

Prensa francesa
A prensa francesa, apesar de totalmente não-tecnológica como a jarra Chemex, produz um café que é praticamente uma completa antítese do limpinho do Chemex: ele é mais forte, mais encorpado, um pouco menos definido, mas é também muito mais rico. Uma boa prensa Bodum começa a uns 30 dólares, mais ou menos. O café aqui deve ser moído um pouco mais grosso para que as partículas sejam maiores. felizmente, existe outro vídeo para auxiliá-lo no processo. Duas coisas a se enfatizar, diz Ken: quando você empurra o êmbolo para baixo ao final da infusão, vá com calma e devagar. Quanto mais embebido fica o café, mais sensível ele fica, então é melhor você não agitá-lo muito descendo com tudo o êmbolo. Além disso, quando tiver terminado a infusão, jorre para fora todo o café. Não o deixe descansar, você precisa tirá-lo de lá o quanto antes. (imagem via jilliansvoice/Flickr)

Cafeteira sifão ou a vácuo

A cafeteira a vácuo parece que saiu direto de um conjunto de química – ou laboratório de anfetaminas – e não é sem motivo: você não vai querer experimentá-la. David explica que ela talvez seja a maneira mais exigente de se preparar café – ela “requer habilidade” e uma incrível xícara de café preparada com uma destas pode ser “enganoso”. No entanto, é um conceito irado. Você tem duas câmaras conectadas por um tubo. A água é fervida aquecida na câmara de baixo até subir para a câmara de cima, onde o seu café estará lá esperando. Daí rola a infusão. Daí você tira da fonte de calor (seja lá o que você estiver usando) e o café é sugado de volta para a câmara de baixo – por vácuo, meu caro – deixando a borra lá em cima e uma puríssima xícara de café embaixo.

Cafeteira Moka

Daí tem a cafeteira Moka. O que faz dela especial é que ela usa a pressão do vapor para infundir o café e você pode usá-la no seu fogão, usando café quase tão finamente moído quanto o espresso, mas não tão moído. Novamente, uma ideia bem simples com um par de câmaras conectadas por um tubo. Tem-se a câmara base, cheia d’água, no qual você insere um filtro com formato de funil repleto de café. Comece a ferver a água e a pressão do vapor começará a forçar a água pelo filtro (e pelo pó do café, por conseguinte) na câmara superior. Ou seja, é mais ou menos um percolador (máquina de fazer café) e até há um debate sobre isto ser ou não um verdadeiro bule percolador por causa da maneira como ela usa a pressão do vapor. No entanto, você precisa tomar cuidado para que não fique muito quente, senão você destroça o café. O tutorial do Gimme Coffee para fazer café com cafeteira Moka é muito bom de se acompanhar e as cafeteiras variam de 25 a 50 dólares, dependendo do tamanho (isso lá fora; aqui os preços são um tanto mais salgados). (kanaka/Flickr)

Infusão a frio ou sistema Toddy
Nunca ouviu falar da infusão a frio? É assim que se faz café frio, não jogando gelo no seu café preparado normalmente, método que resulta em uma abominação azeda e repugnante. Bem, todos os métodos dos quais falamos (e ainda falaremos após este) para se fazer café envolve água quente e um tempo de infusão relativamente curto. A infusão a frio é a abordagem lenta: o pó de café não-refinado é colocado sobre água a temperatura ambiente por 12 a 24 horas, dependendo do café. O que se resulta é excepcionalmente suave, com a maior parte da acidez – e alguns diriam complexidade – eliminada, então ele é bebível, como uma Bud Light. A maneira “oficial” – e, suponho, a mais fácil – de se fazer café por infusão a frio é usando o sistema Toddy de 40 dólares, que recebe o crédito de ter começado toda esta onda de infusão a frio, mas você consegue prepará-lo de maneira mais barata.

AeroPress
Não podemos deixar de fora o AeroPress, que prepara uma xícara supersuave de café com uma infusão e tempo de extração superveloz. Além disso, o aparato é barato, menos de 30 dólares. É basicamente uma seringa gigante. O pó do café (ligeiramente mais fino que no gotejamento) é colocado em um tubo com um filtro de papel no fundo, que então é colocado sobre qualquer coisa onde você queira que o café saia. Após adicionar água quente e o café se encharcar, um êmbolo é inserido e empurrado para baixo, forçando o café já infundido a passar pelo filtro. E puxa, veja só, mais um tutorial do Gimme.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gotejamento

Tá, é agora que vou derrubar todos os alicerces do seu mundo. A máquina de café por gotejamento que você tem em casa e no seu escritório é a da esquerda nesta imagem acima? Então é uma bosta. Você se lembra lá no início quando eu disse que a consistência é a chave para um bom café? Uma temperatura consistente é crucial e a maior parte das máquinas por gotejamento não consegue proporcionar isso. Na verdade, elas não conseguem nem proporcionar a temperatura correta. 93ºC é a temperatura de ouro para se infundir café e a maior parte destas máquinas tem um máximo de uns 82ºC, o que não é quente o suficiente para uma extração adequada. Além disso, elas provavelmente encharcam o pó de maneira desigual, o que torna o café ainda pior. De fato, tanto Ken quanto David dizem que a única máquina por gotejamento que é capaz de fazer isso direito é a da Technivorm (à direita na imagem acima), que de fato atende aos padrões de temperatura da Special Coffee Association of America. Mas as máquinas da Technivorm não são baratas, girando em torno de 200 dólares. Foi mal, galera.

Espresso

Sabe de uma coisa? Vamos acabar logo com isso: é impossível fazer um espresso incrível na sua casa. A menos que você gaste algo como 7500 dólares em uma máquina de espresso de uma empresa como a La Marzocco. Por quê? Consistência. Temperatura. Pressão.

Por maior e mais assustadora que pareça uma máquina de espresso, novamente devo dizer que o básico não é muito complicado de se entender: ela usa a pressão para forçar a água através de uma conchinha de café finamente moído. O que fica dentro desta caixa gigante é um sistema de caldeira – ou dois – que aquece a água que passa pela conchinha e alimenta o sistema de vapor, além de um motor para forçar a água passar com um certo grau de pressão, assim o café é rapidamente extraído com todos aqueles “belos óleos” sobre os quais o Ken adora falar, isso se a dose de espresso é extraída habilmente. Ele deve ser denso, rico e coroado com uma espuma de aparência deliciosa por cima que se chama crema.

Máquinas menos fodonas não são tão boas nos dois ingredientes mais importantes com os quais uma máquina de espresso trabalha: temperatura e pressão. Pra começar, boas máquinas comerciais têm pelo menos dois sistemas independentes de caldeira, um para o café, outro para o vapor. Jacob Ellul-Blake, do departamento de P&D da La Marzocco, me disse que, no passado, antes da caldeira de infusão e da caldeira do vapor serem separadas, tinha-se um problema quando você lançava vapor no leite porque a pressão do vapor dentro da máquina caía, fazendo com que a temperatura da água caísse também, já que temperatura e pressão são proporcionais – fazendo com que se extraísse espressos não-tão-excelentes. Assim, uma boa máquina mantém uma temperatura constante. Máquinas incrivelmente high-end têm um controle superpreciso da temperatura, algo da ordem de décimos de um grau. Isso porque o sabor é afetado com uma variação de temperatura de apenas 0,25ºC (entraremos mais a fundo nisso em um futuro post). Quanto à pressão, a maior parte das máquinas caseiras simplesmente não consegue proporcionar a pressão de 8-9 bar necessária para uma boa extração.

Ou seja, quando falamos de espresso, se você deseja excelência, você basicamente precisa se resignar a ir a uma cafeteria. Eles terão os equipamentos – e, com sorte, as habilidades de barista – que você dificilmente algum dia terá. Mas isso não é algo ruim. David relata da seguinte maneira: é como a diferença entre cozinhar em casa e comer fora. Você consegue fazer sozinho uma deliciosa refeição (analogia pro café: Chemex ou prensa francesa), mas você provavelmente não conseguirá fazer bolas de sorvete cobertas com biscoitos usando nitrogênio líquido, e não tem nada de errado nisto.

Clover

A Clover era a queridinha do mundo do café até a Coffee Equipment Company ser comprada pela rede Starbucks. Tudo feito a mão, em torno de 250 delas foram feitas antes da Starbucks chegar arrasando. Em essência, a Clover é maneira nerd de jorrar água no café com parâmetros precisamente – digitalmente – controlados que são repetidos todas as vezes, assim você consegue extrair a mesma totalmente excelente xícara de café vez após outra, ou você pode sair experimentando com mais rigor, cuidadosamente mexendo em um elemento por vez.

O ponto principal da Clover é o seguinte: você coloca o seu pó de café em uma câmara, que é preenchida com uma quantidade precisa de água na exata temperatura que você programar (com 0,5ºC de variação, para mais ou para menos) durante o exato tempo de infusão que você programar. Quando estiver pronto, o café é retirado da câmara pelo vácuo formado quando o pistão é empurrado de volta pra cima com o motor potente da Clover – capaz de erguer 160kg – com a borra deixada na parte de cima graças ao seu filtro de 70 mícrons. O resultado é uma xícara límpida – aficionados por café adoram xícaras assim – e expressiva, apesar de não tanto quanto no método Chemex. Mas é isso que a engenharia de café de 12 mil dólares lhe rendem.

Estes não são exatamente todos os métodos de se preparar café – é sério, tem milhões deles, como o CafeSolo ou o gotejamento em cerâmica – mas estes são os principais que definitivamente valem a pena conhecer (ou, dependendo do caso, esquecer). Mas, no geral, se você procura mudar o jeito que você faz na sua casa, o Chemex ou a prensa francesa são as maneiras ideais. Se você realmente está a fim de dar uma de geek sobre café, tenha fé, porque ainda nem começamos, então fique ligado.

Eu não conheço um lugar

Do Viaje na Viagem

por Ricardo Freire

londres

A melhor maneira de não conhecer um lugar é viajar até ele. De longe você pode estudar um lugar o quanto quiser; de perto você só tem tempo de descobrir o quanto ainda falta para conhecer. Quem viaja a Paris apenas para subir a Torre Eiffel, ver a Mona Lisa e andar de bateau-mouche conhece a sua Paris muito melhor do que quem viaja para conhecer Paris a sério. Se você tem 50 carimbos no seu passaporte, então são 50 países que você não conheceu.

Mas quem disse que é preciso conhecer a fundo um lugar para gostar dele? Segundo os psicanalistas, para conhecer a si mesma uma pessoa precisa de quatro sessões de análise por semana. Não, eu não quero levar viagem nenhuma para o divã. Até porque a parte mais divertida de uma viagem são as conclusões apressadas.

Longe de casa nos sentimos verdadeiros antropólogos autodidatas. Depois de 15 minutos em qualquer lugar já elaboramos as mais complexas teorias sobre a cultura e o comportamento dos nativos. “Os parisienses não carregam mais baguetes debaixo do braço!”, concluímos, depois de extensas pesquisas entre as 3 e as 4 da tarde sentados num café em Saint-Germain.

Uma coisa é certa: os países são mais fáceis de decifrar do que as cidades. Países são masculinos – e, assim como os homens, podem ser classificados em no máximo quatro ou cinco tipos, estanques e previsíveis. Você vai a um país agora, e quando voltar daqui a uns anos ele pode ter enriquecido ou empobrecido, mudado de partido político ou de profissão, mas continuará fundamentalmente o mesmo.

Já as cidades são femininas: misteriosas, multifacetadas, dadas a repentes e fases. Enquanto os países nos recebem com formulários, funcionários públicos e cães farejadores, as cidades nos recebem com um “psiu!”. Algumas se revelam de dia, outras só se entregam à noite. Às vezes uma cidade pode parecer feia – mas normalmente é você que não deu tempo para ela se arrumar. Existem cidades que fazem você virar o pescoço na rua, e outras que só mostram a que vieram entre quatro paredes. Mesmo essas, contudo, dificilmente se deixam conhecer, digamos, biblicamente. Cidades são criaturas difíceis, que preferem ficar o tempo todo fazendo charminho.

Voltar a uma cidade é sempre fascinante, porque você nunca sabe o que pode ter acontecido. Cidades engordam, emagrecem, fazem plástica, engravidam, mudam o penteado, se apaixonam e até se divorciam (da população, quando os eleitores resolvem escolher um mau prefeito). Você pode dar azar e visitar uma cidade em plena crise de auto-estima ou no auge da TPM – tempos depois, ela pode estar de novo radiante e bem-amada. Vá saber…

Depois de muitas viagens, você até pode entender os humores de uma cidade. Mas conhecer, conhecer mesmo – não dá. Nem morando a vida inteira lá, sem arredar pé nem nas férias. Mesmo porque, de fato, a única maneira de conhecer de verdade o lugar em que se vive é viajando. Quanto mais lugares a gente não conhece, melhor a gente conhece o nosso.

Adeus, pessoas estranhas

Da Veja Online – Diogo Mainardi se despede do mundo virtual

Este é meu último podcast. O primeiro foi em setembro de 2006. Durou tudo isso: dois anos e dez meses. Era para ter durado apenas dez semanas. O que aconteceu de lá para cá?

Número 1: aprendi o que era podcast. Nada muito esotérico: um comentário recitado, de dois minutos e meio, com minha voz anasalada, com meu tom enfadonho. Em geral, um suplemento à coluna publicada na mesma semana, nas páginas de VEJA.

Número 2: o podcast deu certo. Algumas pessoas, estranhamente, se dispuseram a ouvi-lo. Eu sou grato a essas estranhas pessoas.

Número 3: o podcast, da primeira à última semana, soube atrair uma série de patrocinadores. Só um deles se assustou com o conteúdo de meu trabalho e, arrependido, pulou fora antes de acabar o contrato. Comicamente, era uma companhia de seguros, acostumada a correr riscos.

Número 4: a internet matou a imprensa. E eu, estupidamente, escolhi renunciar à internet, permanecendo no corpo carcomido da imprensa. Como um verme.

Dois meses atrás, a editora Record me ofereceu um adiantamento para fazer um ensaio sobre o assunto que mais me interessa: paralisia cerebral. Decidi aceitar. A idéia é misturar depoimento pessoal com reportagem. Por isso estou abandonando o podcast: porque preciso de tempo para poder me dedicar ao projeto. E, de todos os meus trabalhos, o do podcast é o que menos me importa. O adiantamento da editora Record cobre meu salário na internet por um ano e meio. Depois disso, o plano é simples: mendigar de volta meu emprego na Veja Online, engolindo o que acabei de dizer sobre a internet.

Já agradeci às estranhas pessoas que se dispuseram a me ouvir. Mas minha lista de agradecimentos é muito maior. Só omito os nomes porque é constrangedor citar meu próprio chefe, meus colegas, meus programadores, meus entrevistados, meus amigos, meus parentes. Saio da internet desse jeito, mal-educadamente, sem agradecer a nenhum deles. A internet é mal-educada. Depois de dois anos e dez meses de podcast, tornei-me ainda mais mal-educado do que era.

Adeus pessoas estranhas.

Sem canudo

Do Espuminha de Leite

Assim, de supetão, fui invadida por dois sentimentos quando soube do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

1) Medinho (em relação à imagem da profissão). Será que vão começar a pipocar por aí peruas se intitulando “atriz, modelo e jornalista”? Céus!

2) Alívio. O fantasma do corporativismo pesava demais sobre a profissão. Agora bastará mostrar quem é bom, e constatar se a faculdade é importante (ou não).

***

Para os jovens que “investiram” no diploma e estão chateados (podiam ter feito faculdade de economia, por exemplo, se tinham foco em jornalismo econômico), vou contar uma historinha. Tenho uma amiga que precisa editar, todo mês, reportagens especializadas, escritas por jovens jornalistas que ainda estão se familiarizando com aquele assunto. Ao mesmo tempo, ela também recebe, para edição, colunas e artigos escritos por profissionais especializados, que não são jornalistas.

Um dia perguntei a ela o que era mais fácil: ensinar jornalistas a escrever sobre um assunto difícil ou ensinar os articulistas especializados a elaborar um texto mais claro e palatável? Ela não hesitou. Era muito mais fácil editar o texto de um jornalista. Sempre. Moral da história: só se torna jornalista de fato quem tem o dom (ou a técnica) de se comunicar.

Arrá! (sobre computadores e a humanidade)

por Luís Fernado Veríssimo, no Blog do Noblat

Já contei que uma vez o Jorge Furtado comprou um programa de traduções para o seu computador e fez uma experiência. Digitou toda a letra do nosso Hino Nacional em português e pediu para o computador traduzi-la sucessivamente em inglês, francês, alemão, holandês, etc. Do português para o inglês, do inglês para o francês e assim por diante até ser traduzida da última língua do programa de volta para o português. Segundo o Jorge, a única palavra que fez todo o circuito e voltou intacta foi “fúlgidos”. Em inglês, “salve, salve” ficou “hurray, really hurray” e parece que em alemão o texto ficou irreconhecível como hino, mas, em compensação, reformulou todo o conceito kantiano do ser enquanto categoria transcendental imanente em si.

Gostei de saber do fracasso do computador. O meu barato era ver computador ridicularizado. Uma implicância mesquinha, reconheço. Eu a via como um último gesto de resistência à beira da obsolescência. Não podia viver sem o computador, mas minha antipatia crescia com o convívio. O programa de texto que eu usava era à prova de erro ortográfico. O computador não me deixava errar, por mais que eu tentasse. Subvertia o que eu tinha de mais pessoal e enternecedor e sublinhava meus erros com vermelho insolente.

Não era raro eu repetir o erro, para desafiá-lo e mostrar que alguns dos nossos ainda não tinham se intimidado, na esperança de que ele desconfiasse que eu estivesse certo – ou fosse um caso perdido – e retirasse a correção. Nunca aconteceu. Ele não tinha dúvidas da sua superioridade. Ele não tinha nenhum senso de humor. Daí minha alegria ao saber do seu fracasso como tradutor.

Mas agora – arrá! – somos iguais. Com a reforma ortográfica ele se tornou tão obsoleto quanto eu. Ficou ridículo, insistindo em tremas e hífens que não existem mais. Acabou a sua empáfia! E eu serei implacável. Sei que é fácil atualizar o programa de acordo com as novas regras, mas não farei isto imediatamente. Antes quero saborear a minha vingança. E a cada vez que ele sublinhar em vermelho uma palavra minha, direi: “Burro é você! Burro é você!”

A verdadeira idade dos países

La verdadera edad de los países (original)

Tradução:

por Hernan Casciari

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor, nem pior que a Espanha, só que mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no ‘sistema cão’.

Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar a sua idade biológica por 7. No caso de países temos que dividir a sua idade histórica por 14 para conhecer a sua correspondência humana.

Confuso? Neste artigo exponho alguns exemplares reveladores.

Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividimos estes anos por 14, a Argentina tem ‘humanamente’ cerca de 13 anos e meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne.

Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é formada por quatro adolescentes que tem um conjunto de rock. Ensaiam em uma garagem, fazem muito barulho, e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para fazer o coro. Em realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade, quer é sexo, neste caso com Brasil que tem 14 anos e um membro grande.

O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo, está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma senhora de 85, conservadora, com cheiro a xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem – ainda – dinheiro para comprar uma dentadura postiça.

A China tem um neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer aberração em troca de grana.

Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai. Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao amparo de papai Inglaterra e mamãe França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora se fingem de loucos. A Austrália é uma babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a África do Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado, que a qualquer momento pode adotar o bebê Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão de moda.

A França é uma separada de 36 anos, mais puta que uma galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos: Mônaco, que vai acabar virando puto ou bailarino… ou ambas coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que está casado com Áustria, que sabe que é chifruda, mas que não se importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino e do
Vaticano, dois filhos católicos gêmeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com Alemanha (por pouco tempo e tiveram a Suíça), mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (A Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar espaguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se iguale a ela, mas perde espontaneidade por usar tanto perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente se deixa foder pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles, mas a perturbam quando têm fome, passam uma temporada na sua casa e assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados no mundo é a Inglaterra. Sai de barco de noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta. A Escócia e a Irlanda, os irmãos de Inglaterra que moram no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam maconha); outras vezes cutucam a Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com Coréia.

A Coréia (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gêmeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa. Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos, a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar as suas pistolas.

Israel é um intelectual de 62 anos que teve uma vida de merda. Faz alguns anos, Alemanha, o caminhoneiro, não a viu e a atropelou. Desde esse dia, Israel ficou que nem louco. Agora, em vez de ler livros, passa o dia na sacada jogando pedras na Palestina, que é uma mocinha que está lavando a roupa na casa do lado.

Irã e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos e acabou o negocio para eles. Agora estão comendo lixo.

O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns mongolóides, outros esquizofrênicos.

Faz uma semana, e por causa de um conflito com tiros e mortos, os habitantes sérios do mundo, descobrimos que tem um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna… e até gente! Eu fico com medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passar por ignorantes.

Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os que já existem ainda não funcionam?

NOTA SOBRE O AUTOR:

Hernán Casciari nasceu em Mercedes (Buenos Aires), a 16 de março de 1971. Escritor e jornalista argentino. É conhecido por seu trabalho ficcional na Internet, onde tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blognovela. Sua obra mais conhecida na rede, “Weblog de una mujer gorda”, foi editada em papel, com o título: “Más respeto, que soy tu madre”.

Lições de Recursos Humanos

Uma boa política de Recursos Humanos passa – principalmente – pela criatividade!
Veja…

Libéria, Banda Larga e Pornografia

Do Blog Meio Bit


Existem empresas que precisam estar em lugares remotos, como a Libéria. Agora imagine que para você ter um link de internet via satélite, você não apenas precisa ter uma torre, mas precisa de guardas armados, 24 horas por dia. Lá eles roubam não apenas o equipamento, mas também a torre, já que o aço também é valioso por aquelas bandas.

Mas veja a situação: homens, do meio da selva, sem fêmeas humanas por perto e sem muito o que fazer de noite e com um link banda larga disponível. É claro que eles usam para coisas produtivas como jogar World of Warcraft e baixar dezenas de filmes, digamos, educativos.

O problema é que os custos estavam extrapolando o razoável e o gerente de TI teve uma idéia brilhante: comprou um servidor, montou um mega ftp recheado com centenas de filmes pornô e bloqueou o acesso ao conteúdo de educação sexual. Detalhe é que ele usou o dinheiro da empresa para montar o servidor com o objetivo de economizar no uso da banda larga fora de controle.

Claro que ele poderia dar a ordem de bloquear totalmente os downloads e causar uma revolta e acabar sendo entregue aos leões… literalmente.

O resultado é que a empresa passou a economizar 5 mil dólares por mês em banda larga. Porque não existem mais gerentes de TI assim?

Gastos públicos

De O Filtro – Por Tomas Thauman

É um escândalo! Servidores públicos federais usaram cartões do governo para comprar lingerie, iPods, serviços de namoro on-line e (absurdos dos absurdos!) um jantar de mais de R$ 20 mil. Uma auditoria pública descobriu que a farra com dinheiro do contribuinte não tem limites. O Exército, por exemplo, não apresentou comprovantes da compra de uma dúzia de servidores para sua rede de computadores, cada um estimado em mais de R$ 150 mil. Quase 300 mil servidores públicos usam cartões corporativos, mas poucos foram tão ousados quanto um funcionário dos Correios que, em 2006, gastou mais de R$ 2.500 em um serviço de namoro on-line. Também nos Correios, a auditoria encontrou o símbolo desse novo escândalo: um jantar para 81 pessoas em que foram pagos, com dinheiro público, mais de 40 garrafas de vinho, conhaque Courvoisier, vodca Belvedere e uísque Johnny Walker Gold. Ah, só uma coisa: tudo isso foi nos Estados Unidos. A reportagem está na edição de hoje do The Washington Post.

Você ainda tem banda larga?

Da Info Online – Blog da Sandra Carvalho

Até agora, banda larga era qualquer coisa com 200 Kbps. Agora, tem de ser 768 Kpbs, no mínimo. Muita banda foi rebaixada…

O órgão americano FCC, Federal Communications Commission, costuma ser a referência para o que é e o que não é banda larga. Acusado de usar métodos ultrapassados, resolveu dar uma repaginada em seus critérios. O resultado, divulgado esta semana, está aí: banda estreita, porém não discada, que passava por larga, não passa mais.

Pelos dados do Barômetro Cisco de Banda Larga de março deste ano, 28,1% dos 8,1 milhões de assinantes de banda larga no Brasil têm um serviço de 1 Mbps ou acima disso. A maioria fica na mão de velocidades bem inferiores. Grosso modo, com a mudança de critério, dois terços dos brasileiros caíram da banda larga para o limbo da banda dedicada, mas lerda.