Para além de… uma reflexão

Quando o “tipo assim” é promovido

Sempre tive problemas com esta expressão. Soa estranho, meio sem sentido.

Aí, ontem, navegando na internet…

… naqueles 90% de distração diária – entendedores entenderão – se não entenderem, só clicar aqui =P …

Encontrei esse post aqui, de 2013, falando sobre o assunto. Em 2013, Afonso Teixeira já dizia que era moda. Agora, tenho a impressão que é o “Tipo assim” do meio acadêmico. Se numa conversa de bar, a cada três frases, alguém solta um “era, tipo assim, [acrescente qualquer frase que você queira]“, numa discussão na universidade, ouve-se “para além dessas teorias”, “então, para além do exposto”, “para além desse autor…”.

Mas o próprio professor explora a língua no seu sentido mais acadêmico e explica:

(…) torna-se difícil explicar a origem da expressão “para além de”. A palavra “além” pode derivar do latim illinc (dali), segundo Corominas (eminente linguista espanhol); o problema dessa explicação é que ela não determina a mudança de sentido; pode derivar também de ad + ille (para aquele); “ad” é a preposição “para”; então “para além” seria uma redundância, uma vez que o “a” de “além” tem o mesmo sentido de “para”. No entanto, a origem etimológica do termo é, ainda, controversa. Seja ela qual for, “além”, no português, sempre foi usado no mesmo sentido que hoje se usa “para além”. Consequentemente, a expressão “para além” é, desnecessária, e não tem sentido de movimento.

E… tipo assim… para além dessa explicação, encerro esse assunto!


post scriptum:

e eu sei escrever exceção, o que deixa mais tempo para encontrar outras coisas (in)úteis na web! (se você não entendeu, volte 10 casas – ops, 5 parágrafos e veja o link)

=P

E o Santander que leva a culpa…

Nacionalismo canhestro
de Merval Pereira

“De duas, uma: ou há uma conspiração internacional contra o Brasil, ou o governo brasileiro está flertando perigosamente com o perigo, alheio às advertências que partem de todos os lados sobre as fragilidades de nossa economia. Ontem, foi o Fundo Monetário Internacional (FMI) que colocou o país entre as cinco economias mais vulneráveis do mundo, ao lado de índia, Turquia, Indonésia e África do Sul.

Também a agência de classificação Moody’s divulgou um relatório no qual afirma que a Petrobras é, entre as empresas petrolíferas da América Latina, a que corre o maior risco financeiro porque está sendo usada politicamente para segurar a inflação com o represamento dos preços de combustíveis no país.

(…)

O tal mercado financeiro está cheio de dúvidas e de advertências à política econômica do governo brasileiro, e nossas autoridades brincam de um nacionalismo canhestro, como se mobilizar sindicatos e militantes políticos para demitir analistas de mercado e desmoralizar banqueiros internacionais fosse melhorar a situação de nossa economia.”

Leia a íntegra aqui

O longo caminho do coração feminino

“Escapou da sabatina do Congresso do Amor, resistiu à CPI da Transparência, desmentiu suspeitas durante o namoro, abriu as contas no noivado. Deixou para trás ciganas loucas por um cigarro, e saiu ileso das profecias da cartomante em alguma tenda ou fundos de residência (sua cara-metade ouviu o jeito que você seria no tarô, e cruzou as informações com suas palavras e atitudes minuto a minuto).

(…)

Se você está casado, é um afortunado. Valorize a si mesmo. Ou cumpriu o impossível, ou sua mulher deu cola para você passar na prova e subir ao altar.”

Veja o texto completo em Carpinejar

A mãe de todas as lutas

Do Terra Magazine

 

Você, que está lendo este artigo agora, deve ser pessoa pertencente à classe média ou média-alta, não? Pois bem, devo-lhe dizer que até hoje não entendo sua compulsão por pagar duas vezes pelo mesmo serviço. Há anos parece que você firmou um indissolúvel casamento com a bitributação. Senão vejamos: você paga impostos para ter segurança e tranqüilidade no seu dia a dia; entretanto, paga mais ainda para morar num condomínio fechado ou em algum prédio cercado de câmeras por todos os lados. Você também paga impostos para ter direito a hospitais de ponta e assistência médica decente, não é? No entanto, “morre” numa quantia considerável mensal para garantir um bom plano de saúde. E, por fim, só para ficarmos em três exemplos, no imposto que você paga vai um percentual considerável para que seus filhos tenham boas escolas públicas e um padrão de ensino, no mínimo, satisfatório. E o que ocorre? Haja dinheiro para colégio particular e, a depender do número de filhos, isso vira uma pequena fortuna. Faça as contas direitinho e veja o quanto voltaria para o seu bolso se nós, da classe média, abraçássemos uma luta sem trégua por serviços públicos de qualidade!

Fico, por enquanto, com a luta por uma escola pública decente, que é, para mim, a mãe de todas as outras lutas. Pelo simples fato de que uma pessoa bem informada, com boa visão de mundo e consciência cidadã, saberá muito bem afastar o que de ruim ou inconveniente tente se aproximar de sua vida. Saberá lutar por um ótimo sistema de saúde, por boas estradas, pelo zelo necessário com o meio ambiente, pela sustentabilidade da vida no planeta. Assim como você faz, assim como eu faço. Dê escolarização e educação de qualidade a um povo, que do resto ele cuidará.

Além do mais, na escola pública, teremos a primeira aula de democracia e respeito às diferenças. Numa sala de aula sem apartheid, estudam o filho do deputado e o filho do gari; o filho do gerente do banco e o filho do contínuo; o filho do empresário e o filho do camelô. Uma sala com todas as classes e de todas as cores. E pela qual já pagamos altos impostos! Só pra lembrar: se já foi assim um dia, por que não pode voltar a sê-lo?

 


“Escola pública decente é a mãe de todas as outras lutas” (foto: Reuters)

Por isso estou em campanha desde o artigo passado. Precisamos provocar uma audiência pública no Senado para que seja discutido o projeto 480/2007, de Cristovam Buarque, que prevê, para “daqui a sete anos, que todo detentor de mandato público, de vereador a presidente, seja obrigado a matricular seus filhos na rede pública de ensino do Brasil”. É o que chamo de “bomba do bem”. Falta apenas o senador Antônio Carlos Valadares, o relator do projeto, retirá-lo da gaveta, onde dorme há quatro anos. Use o Twitter, o Facebook, mande e-mail para o relator. Isso é infocidadania. E-mail dele: antoniocarlosvaladares@senador.gov.br

A luta continua, classe média!

 

 

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa “Tô Sabendo”, da TV Brasil.

Fotógrafa alemã faz série de imagens em que os alimentos são os personagens principais

Casa e Jardim Online

Uma chuva de sementes de melancia, um vestido feito de verduras e uma lâmpada que tem uma pera no lugar do bulbo. Estas são apenas algumas das cenas criadas pela fotógrafa alemã Sarah Illenberger em uma série de imagens divertidas, feitas com alimentos de verdade. Criativo, o trabalho surpreende até quem não gosta de culinária. Veja alguns exemplos:

Sarah Illenberger
Sarah Illenberger
Sarah Illenberger

A procuradora e a empregada – colunistas da Revista Época

Era uma noite de segunda-feira. Há um mês, a procuradora do Trabalho Ana Luiza Fabero fechou um ônibus, entrou na contramão numa rua de Ipanema, no Rio de Janeiro, atropelou e imprensou numa árvore a empregada doméstica Lucimar Andrade Ribeiro, de 27 anos. Não socorreu a vítima, não soprou no bafômetro. Apesar da clara embriaguez, não foi indiciada nem multada. Riu para as câmeras. Ilesa, ela está em licença médica. A empregada, com costelas quebradas e dentes afundados, voltou a fazer faxina.

Na hora do atropelamento, Ana Luiza tinha uma garrafa de vinho dentro da bolsa. Em vez de sair do carro, acelerava cada vez mais, imprensando Lucimar. Uma testemunha precisou abrir o carro para que Ana Luiza saísse, trôpega, como mostrou o vídeo de um cinegrafista amador.

Rindo, Ana Luiza disse, para justificar a barbeiragem: “Tenho 10 graus de miopia, não enxergo nada”. E, sem noção, tentou tirar os óculos do rosto de um rapaz. A doutora fez caras e bocas na delegacia do Leblon. Fez ginástica também, curvando e erguendo a coluna. Dali, saiu livre e cambaleante para sua casa, usando um privilégio previsto em lei: um procurador não pode ser indiciado em inquérito policial. Não precisa depor. Não pode ser preso em flagrante delito. Não tem de pagar fiança. A mesma lei exige, porém, de procuradores um “comportamento exemplar” na vida. Se Ana Luiza dirigia bêbada, precisa ser afastada. Se estava sóbria, também, pela falta de decoro.

Foi aberta uma investigação disciplinar e penal contra ela em Brasília, no Ministério Público Federal. Levará cerca de 120 dias. Enquanto seus colegas juízes a julgam, Ana Luiza Fabero está em “férias premiadas” no verão carioca. Ela não respondeu a vários e-mails e a assessoria de imprensa da Procuradoria informou que o procurador-chefe não falaria nada sobre o assunto porque “o processo está em Brasília”.

Lucimar está traumatizada, com medo de se expor, porque a atropeladora tem poder. Não procurou um advogado. Nasceu na Paraíba e acha que nunca vai ganhar uma ação contra uma procuradora do Trabalho. Lucimar recebe R$ 700 por mês, trabalha em casa de família, tem um filho de 6 anos e é casada com Aurélio Ferreira dos Santos, porteiro, de 28 anos. Aurélio me contou como Lucimar vive desde 10 de janeiro, quando foi atropelada na calçada ao sair do trabalho: “Minha mulher anda na rua completamente assustada e traumatizada. Estou tentando ver um psicólogo, porque ela não dorme direito, acorda toda hora com dor. É difícil até para ela comer, porque os dentes entraram, a boca afundou. Estamos pagando tudo do nosso bolso, particular mesmo, porque no hospital público tem muita fila”.

A atropelada, traumatizada, nem procurou advogado. Acha que nunca ganharia uma ação contra a doutora
Lucimar quebrou duas costelas, o joelho ficou bastante machucado, o rosto ficou “todo deformado e inchado”, segundo o marido. Ela tirou uma licença médica de dez dias, mas foi insuficiente. Recomeçou a trabalhar há duas semanas, ainda com muitas dores.

O encontro entre a procuradora e a empregada é uma fábula de nossa sociedade desigual. A história sumiu logo da imprensa. As enchentes de janeiro na serra fluminense fizeram submergir esse caso particular e escabroso. Um mês seria tempo suficiente para Ana Luiza Fabero ao menos telefonar para a moça que atropelou, desculpando-se e oferecendo ajuda. Nada. Além de falta de juízo, ela demonstrou frieza e egoísmo. Vive na certeza da impunidade.

“Somos um país de senhoritos, não carregamos nem mala”, diz o antropólogo Roberto DaMatta, autor do livro Fé em Deus e pé na tábua. DaMatta associa a violência no trânsito brasileiro a nossa desigualdade. Usamos o carro como instrumento de poder e dominação social, um símbolo do “sabe com quem você está falando?”.

“Dirigir um carro é na verdade uma concessão especial, porque a rua é do pedestre”, diz DaMatta. Mas nós desrespeitamos o espaço público. “No caso da procuradora e da empregada, juntamos uma pessoa anônima com uma impunível”, afirma. O Estado é usado para fortalecer o personalismo, a leniência e para isentar as pessoas de responsabilidade física. Em sociedades como a nossa, onde uns poucos têm muitos direitos e a grande massa muitos deveres, Lucimar nem sabe que pode e deve lutar.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI210559-15230,00-A+PROCURADORA+E+A+EMPREGADA.html

Sandor Krasna – crônica do Veríssimo – O Globo

Do blog do Noblat

 

Vá explicar. Uma vez inventei um nome para um personagem de uma crônica e depois me disseram que alguém com o mesmo nome tinha começado a trabalhar na administração do jornal, dias antes. No meu romance “Os espiões” há um personagem duplamente fictício — uma escritora húngara inventada por um personagem inventado por mim — que eu chamei de Ivona Gabor. Recebi uma correspondência com fotos de uma Ivona Gabor de quem eu nunca tinha ouvido falar. Húngara também, mas cantora.

Até aí, coincidências perfeitamente normais. O nome do cara que começara a trabalhar no jornal não era incomum, e Gabor, graças às irmãs Eva e Zsa Zsa, que se destacaram pelo número de casamentos mais do que por qualquer talento discernível, era um sobrenome famoso. Mas há dias chegou um e-mail de um alemão que mora na Inglaterra querendo saber se eu era o autor de uma história que ele tinha lido em “O Estado de S. Paulo”, publicada em abril de 2000 e chamada “Até onde se sabe”. Confirmei a autoria, temendo que ele exigisse um pedido de desculpas, já que o texto era uma grande bobagem. Mas o que lhe chamara a atenção era o nome do personagem da história: Sandor Krasna. De onde eu o tirara? Inventei, respondi. E ele então me sugeriu que procurasse “Sandor Krasna” no Google.

Procurei, e mergulhei num abismo. Se entendi bem, Sandor Krasna era o nome de um personagem num filme do Chris Marker, “Sans soleil”, um fotógrafo fictício que não aparece, só manda cartas. Mas descobri que “Sandor Krasna” também era um pseudônimo usado por Chris Marker — cujo nome verdadeiro não é Chris Marker. Tudo bem, mas entre as outras referências a Sandor Krasna no Google (mais de 200 mil!) há, inclusive, fotos atribuídas a ele, não sei se na capacidade de personagem do Chris Marker que ganhou vida própria ou de alguém que adotou o nome — se não forem do próprio Chris Marker usando o pseudônimo. Há também citações de frases e teses de Sandor Krasna.

Para uma figura fictícia, Sandor Krasna circulou muito. Ou ainda circula.

Nunca vi o filme do Chris Marker. Nunca li nada a respeito do filme do Chris Marker antes de consultar o Google. Não sei de onde tirei o Sandor Krasna. Meu correspondente alemão acha que não há coincidência, que Sandor Krasna pode ser uma entidade etérea que, de alguma maneira, está nos usando para existir. Não sei. Ele, o correspondente, também é uma figura misteriosa. Diz que aprendeu a ler em português em Cabo Verde. Que faz alguma coisa ligada à segurança da informática. E não quis que eu citasse seu nome nesta crônica. Talvez seja um pseudônimo do Sandor Krasna. Vá explicar.

Brasil deve evitar triunfalismos, alertam acadêmicos

Da Agência Lusa

São Paulo, 21 out (Lusa) – O Brasil deve evitar o nacionalismo e o triunfalismo alimentados pelo clima de otimismo após diversas notícias positivas, como a superação da crise e a escolha para sede dos Jogos Olímpicos de 2016, alertaram acadêmicos brasileiros.

“Vivemos um momento positivo, com o enfrentamento da crise, mas há um certo exagero, um clima de ufanismo que deve ser evitado”, disse à Agência Lusa a professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Maria Lúcia Pádua Lima.

Segundo Pádua Lima, a superação da crise e a escolha do Rio de Janeiro para sede dos Jogos Olímpicos de 2016 são conquistas que devem ser atribuídas a vários governos, não apenas ao presidente Lula.

“Isso não é obra de um único governo, mas resultado de um trabalho longo, de uma política de Estado (do Brasil) que vem se mantendo nos últimos anos”, frisou.

A título de exemplo, Pádua Lima citou que um dos “marcos” do recente protagonismo internacional do Brasil aconteceu no lançamento da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, no Governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“O Brasil assumiu naquele momento uma posição de liderança do grupo de países emergentes, posição essa que foi sendo reforçada ao longo dos últimos anos”, disse.

Pádua Lima acredita que o “exagero” do otimismo, alimentado pela retórica de Lula e pelas campanhas publicitárias oficiais, é resultado da antecipação da campanha eleitoral das presidenciais de 2010, no Brasil.

“O protagonismo internacional do Brasil ocorre, mas não precisamos exagerar demais e nem negar os avanços”, afirmou a professora da FGV.

O cientista político Sérgio Fausto, coordenador de Estudos e Debates do Instituto Fernando Henrique Cardoso, também alerta para o clima de “triunfalismo”, num recente artigo publicado na imprensa brasileira.

“Há boas e sólidas razões para ser otimista no Brasil de hoje. Não menos sólidas, porém, são as razões para evitar o triunfalismo, tanto mais quando surge acompanhado da revalorização anacrônica do Estado empreendedor”, afirmou.

Um dos perigos, segundo Fausto, é o aumento dos gastos públicos com obras de infra-estruturas para a “realização dos dois maiores eventos desportivos globais (Mundial de Futebol de 2010 e Jogos Olímpicos de 2016) no intervalo de apenas dois anos”.

“Alguém supõe que a iniciativa privada será capaz de realizar os investimentos necessários? Existe quem creia que não serão imensas as pressões para que o investimento público não apenas tome a dianteira, mas também cubra toda e qualquer lacuna deixada pelo investimento privado?”, questionou.

“Nem sempre as respostas são óbvias e fáceis, mas é preciso enfrentar as perguntas. O triunfalismo nos cega para a importância das próprias perguntas”, escreveu.

Para ele, “é hora de pôr a bola no chão”. “Não para cair na retranca, mas para podermos jogar o nosso melhor jogo. E vencer os muitos desafios que temos pela frente”, acrescentou.

House trata do nosso temor da dor e da morte

Quais são as razões para que House tenha se tornado uma série de TV tão assistida e popular? Leia a seguir o texto escrito pelo jornalista Arthur Dapieve, colunista do jornal O Globo e fã de House, para o blog. Por Arthur Dapieve(*)

Foi minha filha quem me aplicou House, ainda na época da segunda temporada. Era uma tarde de domingo, eu sentei do lado dela no sofá, vi o rosto de Hugh Laurie – que eu conhecia desde os tempos de A bit of Fry and Laurie, humorístico que ele teve com Stephen Fry na TV inglesa – e em duas ou três falas cortantes eu já estava completamente viciado, sem cura à vista. Felizmente. Mas minha filha talvez tenha ido mais longe: está pensando seriamente em fazer vestibular para Medicina…

Não é muito difícil, acho, explicar por que House se tornou a série de TV mais vista no mundo. Séries médicas, há muitas, das bem dramáticas às cômicas, passando pelas fantásticas, que se misturam com histórias de terror. Porém, House é a que, ao meu ver, trata de modo mais inteligente daquilo que realmente interessa: do nosso temor da dor e da morte. O próprio doutor vive em dor física, por causa do acidente na perna. Os outros médicos da sua equipe e a Cuddy tentam tornar as suas vidinhas menos dolorosas e mais cheias de sentido. E os pacientes, claro, eles não querem sofrer mais ou morrer.

Há outra forte razão para a popularidade de House. É o personagem construído por Laurie. Ele usou a sua sólida formação de ator inglês, somou a seu jeito para comédia e criou um sujeito que, embora seja único, tem ao menos um pouco de cada um de nós, um pouco que nem sempre estamos dispostos a admitir que exista. Ah, ele é sarcástico? Quantos de nós não gostariam de mandar na lata de alguém aquelas respostas grosseiras e engraçadas? Ah, ele é um misantropo? Quantos de nós já não odiaram a Humanidade, sobretudo em filas de banco, caixas de supermercado, lojas de departamentos, ligações do telemarketing? De certa forma, então, House pensa, fala e age por nós. Por isso, ele é nosso (anti)herói.

E é por isso tudo que, a cada início de temporada, a gente fica torcendo para que as coisas mudem _ para elas poderem permanecer as mesmas (e nós também). Afinal, como House vive dizendo, people don’t change.

(*) Arthur Dapieve é colunista do jornal O Globo, curador da Rádio GNT e professor de jornalismo na PUC-Rio.